“Assim, o Filho do Homem até do sábado é Senhor.” [1]
“E o centurião que estava defronte dele, vendo que assim clamando expirara, disse: Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus.” [2]
Temos divulgado a importância de se estudar o Evangelho do Cristo, e mais ainda, de fazê-lo à luz da Doutrina Espírita. Muitos podem pensar que, a partir dessa ideia, nos consideramos superiores aos irmãos vinculados a outras escolas religiosas. Porém, isso não corresponde à verdade. Conforme nos ensina Emmanuel, todos que se aproximarem do Evangelho com disposição de aprender e coração aberto para compreendê-lo com a alma, muito poderão realizar em matéria de iluminação espiritual, pertençam à crença que for.
Todavia, não podemos deixar de reconhecer que a doutrina codificada por Kardec nos instrumentaliza com recursos valiosíssimos para a compreensão da Boa Nova, sem os quais o entendimento amplo de algumas passagens se torna muito mais difícil.
Russell Champlin, religioso e escritor norte-americano, afirma na Introdução ao Evangelho de Marcos que:
“O termo Filho de Deus, de conformidade com o evangelho de Marcos, é uma expressão muito importante para Marcos, e não pode ser derivada de qualquer compreensão judaica acerca do ‘Messias’…” [3]
Mais à frente, continua:
“O Filho de Deus, de conformidade com o evangelho de Marcos, é participante da divina essência… (…) [Ele] triunfou sobre a morte, e promete o mesmo tipo de vida a todos quantos querem segui-lo em sinceridade e verdade. Ele é aquele que tem as propriedades de ‘asseidade’ (do latim a-se-esse, aquele que tem vida em si mesmo, que é autoexistente, independente, participante da vida divina essencial). E é justamente esse tipo de vida que ele promete a outros. Haveremos de transformar-nos em seres que participam da vida divina, por intermédio de Cristo; e então possuiremos vida em nós mesmos, passando a ser verdadeiramente imortais, como Deus é imortal.”
E ainda acrescenta:
“Contudo, Jesus também aparece no evangelho de Marcos como Filho do Homem, estando perfeitamente identificado com o homem, sendo homem verdadeiro, cujos sofrimentos foram reais… (…) Jesus, na qualidade de homem, andou em comunhão com o Pai.”
Reflexões à luz da Doutrina Espírita
Estaria Champlin enganado em sua interpretação? Pensamos que não. Todavia, diante de suas colocações, ou adotamos a tese simplista e pouco lógica de que Jesus era Deus e homem ao mesmo tempo, ou buscamos nas orientações da filosofia espírita subsídios para interpretar a questão dentro de um prisma mais fundamentado.
Segundo o entendimento espírita, Jesus não é nem Deus nem homem conforme a compreensão usual desses termos. Um dos princípios básicos do Espiritismo é a evolução — lei universal para toda criação.
O Espírito inicia sua fase evolutiva na matéria, passando pelos reinos inferiores da criação até atingir, na faixa hominal, a condição de operar sobre o próprio destino. Porém, esse não é o fim. Apesar de não termos informações completas sobre como a evolução se processa a partir do homem, é certo que ele chegará à condição de Espírito Puro. Nesta fase, segundo os Espíritos que instruíram Kardec, não sofrem mais qualquer influência da matéria.
Essa é a condição de Jesus, que por suas virtudes estava muitíssimo acima da humanidade terrestre [4]. ,
Emmanuel nos informa que Jesus recebeu do Criador a missão de formar, orientar e governar o planeta Terra, desde o início de sua formação, há aproximadamente 4,6 bilhões de anos.
Portanto, se a condição humana não é a última na escalada evolutiva, Jesus não pertence mais à raça humana, pois é um Espírito Puro, mas do que isto, é um Messias Divino.
Como disse Kardec, Ele está muitíssimo acima da humanidade terrestre.
Filho do Homem e Filho de Deus
Pastorino explica que a expressão “filho de” é idiomática do hebraico e indica o ser que possui a qualidade do substantivo que lhe segue. Assim, “filho da luz” significa iluminado; “filho da paz” significa pacífico. Portanto, “Filho de Deus” é o ser que se divinizou — não no sentido de tornar-se Deus, mas de participar da Divindade, integrando-se a Ela.
Já “Filho do Homem” evoluiu em seu significado. Ao tempo de Jesus, indicava aquele que já teria se libertado do ciclo reencarnatório. Enquanto “filho de mulher” expressava o homem ainda sujeito às reencarnações, “filho do homem” era o Espírito que, terminado seu ciclo nos mundos materiais, não precisava mais encarnar [5].
A vitória sobre a morte
Champlin afirma que Jesus triunfou sobre a morte. É preciso compreender que, na literatura bíblica, “morte” não significa desencarnação. No Gênesis, Adão e Eva são advertidos de que morreriam se comessem do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Eles o fizeram e não morreram fisicamente, mas sofreram a morte espiritual da transgressão à Lei de Deus. Paulo confirma:
“Porque o salário do pecado é a morte…” [7]
Jesus triunfou sobre a morte porque venceu o pecado, tornando-se puro. Ele venceu o mundo [8].
Conclusão
Podemos compreender, à luz da Doutrina Espírita, que Jesus — Filho de Deus — é participante da essência divina, tendo gravitado para a Unidade Divina ( O Livro dos Espíritos, questão 1009) [9].
Ele promete a mesma vida a todos que O seguem em sinceridade e verdade.
Para que tudo assim se dê e possamos realmente ser autoexistentes, independentes, participantes da vida divina essencial é preciso ser como Jesus:
“…homem, [que] andou em comunhão com o Pai.”
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Referências
[1] BÍBLIA. Novo Testamento. Evangelho de Marcos, 2:28.
[2] BÍBLIA. Novo Testamento. Evangelho de Marcos, 15:39.
[3] CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 1. São Paulo: Editora Hagnos, 2002.
[4] KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo XV. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
[5] PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Vol. 1. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1990.
[6] BÍBLIA. Antigo Testamento. Gênesis, 5:5.
[7] BÍBLIA. Novo Testamento. Romanos, 6:23.
[8] BÍBLIA. Novo Testamento. Evangelho de João, 16:33.
[9] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 89. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
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