terça-feira, abril 07, 2026

A Crucificação em 33 d.C.: Convergência entre História e Espiritualidade

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Introdução
A data da crucificação de Jesus é um dos pontos mais debatidos entre historiadores e teólogos. Enquanto a tradição cristã admite margens de incerteza, a obra Há Dois Mil Anos, psicografada por Chico Xavier sob a orientação de Emmanuel, afirma categoricamente que o evento ocorreu em 33 d.C.. Estudos recentes, como os de Marco Paulo Denucci Di Spirito, mostram que essa afirmação espiritual encontra respaldo na historiografia.
Evidências Históricas
A  historicidade da trajetória de Jesus encontra sólido respaldo tanto em evidências astronômicas quanto em registros documentais clássicos. No campo da cronologia bíblica, Colin Humphreys (2011) propõe que a Última Ceia teria ocorrido em uma quarta-feira, uma tese que permite conciliar as narrativas dos Evangelhos e aponta para a data de 3 de abril de 33 d.C. para a crucificação, coincidindo com registros astronômicos de um eclipse lunar visível em Jerusalém. Essa datação é corroborada pela análise de N.T. Wright (2013), que defende a consistência cronológica dos relatos bíblicos ao situar o ministério de Jesus entre os anos 29 e 33 d.C. Além disso, a existência e a execução de Cristo sob o governo de Pôncio Pilatos são confirmadas por fontes extrabíblicas de peso, como os historiadores Flávio Josefo e Tácito, que validam o contexto político e social do período.
Testemunho Espiritual
  • Emmanuel, em Há Dois Mil Anos, afirma que a crucificação ocorreu em 33 d.C..
  • Marco Paulo Denucci Di Spirito analisou os cenários, personagens e costumes descritos no livro, mostrando que são coerentes com registros históricos da época[1].
  • A narrativa espiritual não contradiz a história, mas a complementa, oferecendo uma visão integrada.
Comparação das Cronologias
Aspecto
Historiadores
Emmanuel (Há Dois Mil Anos)
Ano da crucificação
30 ou 33 d.C. (maior consenso em 33)
33 d.C.
Início do ministério
29–30 d.C.
30 d.C.
Contexto romano
Tibério imperador, Pilatos governador
Mesmos personagens confirmados
Última Ceia
Debate entre quarta ou quinta-feira
Tradição aceita, sem contradição
Conclusão
A convergência entre a pesquisa acadêmica e a revelação espiritual é notável. Tanto historiadores quanto Emmanuel apontam para 33 d.C. como o ano da crucificação. Essa harmonia mostra que, mesmo com margens de incerteza próprias da Antiguidade, é possível unir fé e ciência em uma narrativa coerente e consistente.
 Assim, podemos dizer que a obra Há Dois Mil Anos não apenas reforça a tradição espiritual, mas também encontra eco na historiografia moderna, confirmando que Jesus foi crucificado em 33 d.C.
Referências
HUMPHREYS, Colin J. O Mistério da Última Ceia: Reconstruindo os últimos dias de Jesus. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.
JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas. Tradução de Vicente Pedroso. Edição digital. Disponível em: ebooksbrasil.org. Acesso em: : 06/04/2026.
SPIRITO, Marco Paulo Denucci Di. Incursões Históricas sobre o livro "Há Dois Mil Anos". Portal Espiritualidades. Disponível em: espiritualidades.com.br. Acesso em: 06/04/2026.
TÁCITO, Cornélio. Anais. Tradução de Leopoldo de Freitas. Edição digital. Disponível em: dominiopublico.gov.br. Acesso em: 06/04/2026
WRIGHT, N. T. A Ressurreição de Jesus como um Problema Histórico. Tradução de N. T. Wright Page, 2016. Disponível em: ntwrightpage.com. Acesso em: 06/04/2026.
WRIGHT, N. T. Jesus e a Vitória de Deus. São Paulo: Paulus, 2013. (Coleção Origens Cristãs, v. 2).


[1]  Os estudos detalhados de Marco Paulo Denucci Di Spirito sobre a precisão histórica da obra Há Dois Mil Anos (psicografia de Chico Xavier) encontram-se compilados nos portais:
 Espiritualidades: O site disponibiliza PDFs e textos completos das partes do estudo, como a Parte 1 (Introdução e Escravos) e a Parte 2 (Vesúvio).
Saber Espiritismo: Este portal também compila as "Incursões Históricas" publicadas pelo autor



segunda-feira, abril 06, 2026

A Semana da Paixão em 33 d.C.: Uma Revisão Histórica


Linha do tempo da Paixão
A cronologia dos últimos dias de Jesus tem sido objeto de estudo por séculos. Tradicionalmente, a Última Ceia é celebrada na quinta-feira santa, seguida pela crucificação na sexta-feira. No entanto, estudos recentes sugerem que a Última Ceia pode ter ocorrido na quarta-feira, o que reforça a hipótese de que Jesus foi crucificado em 3 de abril de 33 d.C.

  • Eclipse lunar: Na noite de 3 de abril de 33 d.C., ocorreu um eclipse lunar visível em Jerusalém. Esse fenômeno é citado por historiadores antigos e pode estar relacionado ao relato bíblico de escuridão durante a crucificação.

  • Calendário judaico: A Páscoa judaica naquele ano caiu em uma sexta-feira, o que coincide com os relatos de que Jesus foi crucificado no "dia da preparação" para o sábado.
  • Evangelho de João: Indica que Jesus morreu no dia em que os cordeiros pascais eram sacrificados, reforçando a data de 3 de abril.
  • Evangelhos sinóticos: Embora pareçam indicar outra sequência, a hipótese da Última Ceia na quarta-feira resolve a aparente contradição entre os relatos.

Data
Dia da Semana
Evento Principal
1o de abril
Quarta-feira
Última Ceia com os apóstolos
2 de abril
Quinta-feira
Prisão e julgamento diante do Sinédrio
3 de abril
Sexta-feira
Crucificação e morte no Calvário
5 de abril
Domingo
Ressurreição no terceiro dia

A hipótese da Última Ceia na quarta-feira não invalida a tradição litúrgica, mas propõe uma revisão histórica que busca maior precisão cronológica. Essa abordagem concilia os relatos bíblicos com dados astronômicos e o calendário judaico da época.

A reconstrução histórica e astronômica dos eventos da Paixão de Cristo aponta para a crucificação em 3 de abril de 33 d.C. Essa data é amplamente aceita por estudiosos que buscam unir fé, história e ciência, e reforça a visão de que Emmanuel estava correto ao afirmar essa cronologia.


quarta-feira, abril 01, 2026

"A Herança de Jesus: Por que não existe Ressurreição sem Crucificação"



"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me." Lucas, 9: 23

Muitas vezes buscamos a herança de Cristo focando apenas nas promessas de paz e vitória. Mas você já parou para pensar que a cruz também faz parte do testamento?
Contexto:
Pouco antes, Jesus pergunta aos discípulos: "Quem dizeis que eu sou?" Lucas 9:20. Pedro responde corretamente: "O Cristo de Deus". Até ali, os discípulos esperavam um Messias político e conquistador que expulsaria os romanos.
Logo após a confissão de Pedro, Jesus dá um "balde de água fria" nas expectativas de poder dos discípulos. Ele revela que o Messias não iria para um trono, mas para o sofrimento e a morte Lucas 9:22. Ele redefine o que significa ser o Cristo: vencer através do sacrifício, não da força militar.
É nesse cenário de choque que Jesus diz o versículo 23. Ele deixa claro que, se o Mestre vai para a cruz, o discípulo não pode esperar um caminho de flores. Jesus estava ensinando que a identidade do seguidor deve ser moldada pela mesma disposição ao sacrifício que o próprio Jesus estava prestes a demonstrar. 
Curiosidade: Lucas é o único evangelista que adiciona a expressão "tome sua cruz cada dia"(ou "cotidianamente") Isso mostra que, para Lucas, o discipulado não é um heroísmo de um momento só, mas uma persistência silenciosa na rotina.
Renunciar (do grego aparneomai) carrega um peso jurídico de renunciar a direitos ou posses sobre a própria vida
"A cruz de cada dia" deixa claro que o sacrifício não é um sofrimento opcional, mas algo que acompanha a caminhada do discípulo de forma intrínseca. Esta é a herança de Jesus.
Paulo confirma a ideia de que a cruz é intrínseca. Ele coloca uma condição: somos herdeiros da glória, desde que sejamos herdeiros do sofrimento (a cruz diária). Não se recebe uma parte da herança sem a outra.
A palavra "coerdeiro" significa que você não carrega a cruz sozinho; você a carrega com Ele. A "herança de Jesus" é o pacote completo: a entrega na sexta-feira e a vitória no domingo. Não há ressurreição sem crucificação.[1]  
Enquanto o mundo vê o sofrimento como um erro, para o discípulo (na visão de Paulo), ele é a evidência da filiação. Você só carrega a cruz porque é herdeiro.
Essa compreensão transforma a nossa visão sobre a dor. Se a cruz é o custo do discipulado em Lucas, em Romanos ela é o selo da nossa filiação. Não carregamos um fardo vazio, mas uma 'herança de glória' que ainda está em processo de revelação. Portanto, a cruz diária não é o fim da história, mas o pré-requisito para a vitória. Como o próprio Cristo não permaneceu no madeiro, o discípulo entende que a crucificação de seus próprios desejos é, na verdade, o único solo fértil onde a vida da ressurreição pode germinar. Afinal, a glória do Domingo de Páscoa é inseparável da obediência da Sexta-feira Santa.
No mundo contemporâneo, onde o "eu" é o centro de todas as atenções e a autogratificação é a regra, carregar a cruz adquire contornos de uma contracultura radical. Se o mundo moderno prega a felicidade a qualquer custo, Jesus propõe a fidelidade acima de tudo. Hoje, carregar a cruz manifesta-se em atitudes concretas:
Portanto, a cruz moderna não é feita de madeira, mas de decisões. Ela é o "não" que dizemos aos nossos impulsos mais baixos para podermos dizer "sim" ao Reino de Deus. Essa é a nossa herança intrínseca: participamos da dor de ser diferentes para, no final, participarmos da glória de sermos plenamente d'Ele.
A cruz não é um peso que nos esmaga, mas a ferramenta que nos molda à imagem do Herdeiro Principal.
Hoje, enquanto o mundo silencia diante da crucificação, lembramos que esta não é apenas uma história do passado, mas a herança viva que carregamos dia a dia. Que a sexta-feira da Paixão nos ensine a morrer para nós mesmos, para que o Domingo de Páscoa nos encontre prontos para a verdadeira vida.
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sexta-feira, março 27, 2026

O Livro Selado e o Cordeiro Imolado Uma leitura espiritual, prática e inter-religiosa do Apocalipse



Introdução
O Apocalipse, último livro do Novo Testamento, é uma obra marcada por símbolos, visões e revelações que atravessam séculos de interpretações. Longe de ser apenas um relato profético sobre o futuro da humanidade, ele se apresenta como um convite à transformação interior e à maturidade espiritual.
No capítulo 5, encontramos uma das cenas mais impactantes: o livro selado com sete selos e o Cordeiro imolado. Essa visão não apenas descreve o destino coletivo da humanidade, mas também revela o caminho íntimo de cada discípulo diante dos desafios da fé, da renúncia e da fidelidade a Deus.
O Capítulo 5 do Apocalipse: 

1. O Livro Selado: Mistério e Revelação
João descreve um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos, na mão direita de Deus.
  • Simbolismo do livro: não é um códice moderno, mas um rolo, como os usados na Antiguidade. O fato de estar escrito em ambos os lados sugere plenitude da revelação, abrangendo passado, presente e futuro.
  • Sete selos: número da perfeição e dos ciclos evolutivos. Cada selo representa uma etapa de compreensão espiritual que só pode ser aberta por quem alcançou autoridade moral.
  • Aplicação prática: no século XXI, os "selos" podem ser entendidos como barreiras interiores — orgulho, egoísmo, materialismo, intolerância, medo, vaidade e apego. Rompê-los é tarefa cotidiana do discípulo que busca maturidade espiritual.
2. Quem é Digno?
Um anjo poderoso proclama: "Quem é digno de abrir o livro e romper seus selos?".
  • Autoridade moral: não se trata de poder intelectual, mas de vivência plena do amor divino.
  • Rompimento como libertação: o termo grego luo significa desatar, libertar. Abrir os selos é libertar cada um de nós — e, assim, a humanidade — de seus nós espirituais.
  • Comparação inter-religiosa: no budismo, romper os "véus da ignorância" é condição para a iluminação; no hinduísmo, os registros akáshicos só se revelam ao espírito purificado. O Apocalipse dialoga com essa ideia universal de que o conhecimento profundo exige transformação interior.
3. O Choro de João
João chora porque ninguém é encontrado digno de abrir o livro.
  • Símbolo da limitação humana: mostra nossa incapacidade de compreender os desígnios divinos sem maturidade espiritual.
  • Choro como frustração: representa a dor de não acessar a revelação plena. É também metáfora de nossas próprias lamentações diante da vida, quando não entendemos os propósitos de Deus.
4. O Consolo do Ancião
Um dos anciãos consola João: "Não chores! Eis que o Leão da tribo de Judá, o Rebento de Davi, venceu para abrir o livro".
  • Leão da tribo de Judá: símbolo de força e vitória, expressão da autoridade messiânica que nasce da perfeição moral.
  • Rebento de Davi: cumprimento da tradição judaica, raiz espiritual que conecta Jesus à promessa de Israel.
  • Vitória de Cristo: Jesus venceu o mundo pela fidelidade absoluta ao Pai, tornando-se digno de abrir os selos.
  • Inter-religioso: no judaísmo, o Messias esperado era um rei político; o Apocalipse redefine essa expectativa, mostrando que a vitória não é militar, mas espiritual.
5. O Cordeiro Imolado
João vê o Cordeiro de pé, como que imolado, com sete chifres e sete olhos.
  • Cordeiro como símbolo de Jesus: docilidade, sacrifício e entrega. Apesar da morte, está de pé, vivo, triunfante.
  • Sete chifres: plenitude de poder espiritual.
  • Sete olhos: plenitude de conhecimento e discernimento, simbolizando onisciência relativa.
  • Sete Espíritos de Deus: legião de espíritos santificados que cooperam com Cristo na condução da humanidade. Emmanuel explica que o "Espírito Santo" é essa comunidade de espíritos elevados.
  • Aplicação prática: no mundo contemporâneo, onde o "eu" é exaltado, o Cordeiro nos ensina que a verdadeira vitória está na entrega e no serviço.
6. A Entrega do Livro
O Cordeiro recebe o livro da mão direita de Deus.
  • Outorga divina: Cristo é investido da missão de conduzir o destino humano.
  • Cristo como guia planetário: segundo Emmanuel, Jesus já havia recebido essa missão desde a formação da Terra.
  • Segunda vinda interior: a volta de Cristo não será física, mas espiritual, quando o Evangelho for plenamente vivido em nós.
7. O Louvor Celestial
Ao receber o livro, os seres vivos e os anciãos se prostram diante do Cordeiro, entoando cânticos de louvor.
  • Cântico novo: celebra a vitória do amor e da redenção.
  • Taças de ouro com incenso: representam as orações dos santos, mostrando que a espiritualidade superior integra louvor e intercessão.
  • Universalidade: "toda criatura no céu, na terra e sob a terra" proclama louvor. Isso simboliza que a revelação não é exclusiva de um povo ou religião, mas da humanidade inteira.
Conclusão: O Apocalipse como Chamado à Maturidade
O Capítulo 5 nos ensina que:
  • O livro selado é a revelação da vida, que só se abre com maturidade espiritual.
  • O Cordeiro imolado mostra que a vitória está na renúncia e no amor, não na força.
  • O louvor celestial revela que toda criação participa da redenção.
No século XXI, esse capítulo nos desafia a viver uma espiritualidade autêntica, rompendo os selos do ego e assumindo a cruz cotidiana como caminho de fidelidade. Ele também nos convida a reconhecer que o Cristo é universal, dialogando com diversas tradições e conduzindo a humanidade rumo à plenitude.
Este artigo é baseado no capítulo 5 do livro Segredos do Apocalipse, em que exploramos o simbolismo de todo Apocalipse sob uma visão reeducativa. O Apocalipse não revela apenas o futuro da humanidade, mas o caminho interior de cada discípulo: romper os selos do ego e seguir o Cordeiro.
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quinta-feira, março 19, 2026

Mansidão e Humildade: Virtudes da Reforma Íntima na Ótica Espírita






Para ver o primeiro estudo da série clique aqui  👉 O Jugo de Jesus: A Pedagogia do Coração e a Educação do Sentimento

...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração (Mateus 11: 29)

Mansidão e Humildade como Leis
No Capítulo IX de O Evangelho Segundo o Espiritismo Kardec explica que a mansidão e a humildade não são sinais de fraqueza, mas de força espiritual.
  • Humildade: É o reconhecimento das nossas imperfeições e da grandeza de Deus, o que aniquila o orgulho, o maior obstáculo à nossa evolução.
A humildade é a virtude soberana, pois atua como o alicerce de todas as outras. Sem ela, qualquer qualidade se converte em orgulho, transformando o que seria um mérito do Espírito em mera vaidade por possuí-lo.
"o veneno das virtudes".
Se a caridade, a inteligência ou a própria mansidão não estiverem alicerçadas na humildade, elas se tornam instrumentos do Ego. O Espiritismo confirma exatamente isso: a humildade é a "chave de abóbada" (a pedra que sustenta o arco) de todas as outras qualidades.
Veja como essa sua ideia se encaixa na visão doutrinária:
O Orgulho da Própria Virtude
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo (Cap. XVII item 8) temos uma mensagem do Espírito François-Nicolas-Madeleine.: "Não é virtuoso aquele que faz ostentação da sua virtude, pois que lhe falta a qualidade principal: a modéstia, e tem o vício que mais se lhe opõe: o orgulho. A virtude, verdadeiramente digna desse nome, não gosta de estadear-se."
  • Quando alguém diz: "Eu sou muito caridoso", a caridade morre e nasce o orgulho.
  • No momento em que nos sentimos "superiores" a alguém por sermos mais calmos ou mais bondosos, essa virtude perde o seu valor espiritual, pois a sua motivação passou a ser a comparação e a vaidade.
A Humildade como Proteção
A humildade é a única virtude que não pode ser "ostentada", porque quando alguém tenta ostentar humildade, ela deixa de existir. Ela funciona como um escudo:
  • A Caridade com Humildade:  É o "não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa direita". É o bem anônimo.
  • A Inteligência com Humildade: É o conhecimento a serviço do próximo, sem arrogância intelectual.
  • A Fé com Humildade: É a confiança em Deus, sem o fanatismo de achar que se é o "eleito".
Jesus: O Exemplo Máximo
Ao dizer "aprendei de mim que sou manso e humilde", Jesus — o Espírito mais puro que já passou pela Terra — não estava se vangloriando. Ele estava descrevendo um estado de ser. Ele, que tinha todo o poder sobre a matéria, nasceu em uma manjedoura, lavou os pés dos discípulos.
Para o Espiritismo, a humildade de Jesus é a prova de sua grandeza, pois quem é verdadeiramente grande não precisa que os outros se sintam pequenos.
A humildade de Jesus não diminui sua grandeza; ao contrário, é a prova de que o verdadeiro poder se manifesta no serviço e no amor.
A Humildade no Processo de Evolução
Como somos espíritos em evolução (muitos de nós ainda no estágio de "expiações e provas"), a humildade é o que nos permite aceitar nossas quedas e recomeçar. Sem ela, o erro vira culpa paralisante ou revolta. Com ela, o erro vira aprendizado.
Mansidão (Afabilidade e Doçura)
É o controle da cólera e da violência. O Espírito verdadeiramente pacífico é aquele que, mesmo em meio a provas, mantém a serenidade porque confia na justiça divina e no futuro.
Embora já possamos exercitar a caridade e a benevolência de forma ativa e planejada, a mansidão encontra o seu verdadeiro teste na reação. Enquanto as ações de bondade são escolhas conscientes que fazemos, a mansidão é posta à prova na nossa resposta espontânea ao que vem de fora. Ela revela quem somos de fato nos momentos de passividade e confronto, agindo como o termômetro real da nossa transformação íntima.
O Descanso para a Alma
O "descanso" prometido por Jesus não é a ociosidade, mas a paz de consciência. Para o Espiritismo, as aflições da Terra são pesadas para quem duvida do futuro, mas tornam-se leves para quem compreende a lei de causa e efeito e a imortalidade da alma.
Como ensina o espírito Lázaro em uma das instruções de O Evangelho Segundo o Espiritismo, o homem não permanece vicioso senão porque quer; a vontade de se tornar manso é o primeiro passo para a nossa felicidade real.
Para a Doutrina Espírita, a diferença entre a virtude real e a aparência social é uma questão de identidade entre o que se sente e o que se faz. Isto é abordado com muita clareza no cap. XVII, já citado, de o ESE.
Aqui está a distinção que os Espíritos nos propõem:
A Falsa Afabilidade (O Verniz Social)
Muitas vezes, o que chamamos de "educação" é apenas uma camada superficial para facilitar a convivência.
  • O "Tirano Doméstico": É o exemplo clássico. São pessoas que, em sociedade, são gentis, doces e prestativas, mas, dentro de casa, são déspotas e impacientes com seus familiares.
  • A Motivação: Esse comportamento não nasce do amor, mas do orgulho e da vaidade. A pessoa quer ser admirada por estranhos, mas não faz o esforço da reforma íntima onde ninguém a vê.
  • O Risco: É uma forma de hipocrisia. Como diz o texto, "não basta que dos lábios manem leite e mel" se o coração não estiver associado. 
A Mansidão Verdadeira (O Fruto do Amor)
A verdadeira afabilidade e doçura são filhas da benevolência para com o próximo. 
  • Constância: O verdadeiro manso não se desmente; ele é a mesma pessoa tanto em público quanto na intimidade do lar.
  • Força, não fraqueza: diferente do que o mundo pensa, a mansidão espírita não é passividade ou covardia. É, na verdade, autodomínio. É a capacidade de receber a agressividade alheia e não devolvê-la, transformando o mal em bem através da força moral.
  • Respeito Real: Envolve respeitar a opinião do outro mesmo quando discordamos, mantendo a polidez sem sacrificar a verdade. 
Como saber se estamos sendo sinceros?
O Espiritismo sugere o autoconhecimento (Questão 919 de O Livro dos Espíritos) como ferramenta. Se a nossa paciência acaba rápido com aqueles que amamos, mas sobra para os estranhos, estamos apenas usando a "máscara" do verniz social. A reforma íntima exige que a doçura comece no pensamento e na intenção, antes mesmo de chegar à palavra. 
Veja como podemos analisar essa sua ideia sob a ótica da Doutrina:
A Ação é o "Caminho", a Reação é o "Termômetro"
  • Na Ação (Caridade/Benevolência): Nós detemos o controle. É possível exercer a caridade por dever, por disciplina ou até por hábito, sem que isso exija uma transformação completa do nosso íntimo naquele momento.
  • Na Reação (Mansidão): É o teste do reflexo. Quando somos contrariados, ofendidos ou injustiçados, não temos tempo para "preparar" a máscara. O que sai é o que está transbordando no coração. Por isso, como você disse, a mansidão se revela na reação: ela é o termômetro da nossa evolução real.
A Mansidão como "Resistência Espiritual"
No livro Justiça Divina, psicografado por Chico Xavier (pelo espírito Emmanuel), aprendemos que a paciência e a mansidão são a "caridade que não faz barulho".
  • Se alguém nos agride e nós reagimos com violência, nivelamos nossa vibração à do agressor.
  • A mansidão na reação é a capacidade de interromper o ciclo do mal. É não permitir que o veneno do outro encontre eco em nós.
O Espiritismo vai além: a reação não é apenas a palavra que dizemos, mas o sentimento que nutrimos enquanto somos atacados.
A mansidão não consiste apenas em não dizer palavras ásperas, mas em não as pensar.
Se por fora nos calamos (reação externa), mas por dentro desejamos o mal ou nutrimos o ódio (reação interna), ainda estamos no estágio do "verniz" que conversamos antes. A verdadeira mansidão ocorre quando a nossa primeira reação mental já é de indulgência e compreensão da ignorância do outro.
Por que é tão difícil?
Porque a reação mexe com o nosso orgulho. A ofensa alheia só nos fere porque ainda temos "feridas abertas" de vaidade. Quando Jesus diz "sou manso e humilde", ele mostra que a humildade é o escudo: quem é verdadeiramente humilde não se sente ofendido, logo, sua reação é naturalmente mansa.

 
Referências
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo espírito Emmanuel. 28. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010.
XAVIER, Francisco Cândido. Justiça divina. Pelo espírito Emmanuel. 14. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2008.

                               Espiritismo e Evangelho: Jesus e a Mulher Samaritana - João, 4: 5 a 12
                               Espiritismo e Evangelho: Jesus e a Mulher Samaritana - Final
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