Para ver o primeiro estudo da série clique aqui 👉 O Jugo de Jesus: A Pedagogia do Coração e a Educação do Sentimento
...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração (Mateus 11: 29)
Mansidão e Humildade como Leis
No Capítulo IX de O Evangelho Segundo o Espiritismo Kardec explica que a mansidão e a humildade não são sinais de fraqueza, mas de força espiritual.
- Humildade: É o reconhecimento das nossas imperfeições e da grandeza de Deus, o que aniquila o orgulho, o maior obstáculo à nossa evolução.
A humildade é a virtude soberana, pois atua como o alicerce de todas as outras. Sem ela, qualquer qualidade se converte em orgulho, transformando o que seria um mérito do Espírito em mera vaidade por possuí-lo.
"o veneno das virtudes".
Se a caridade, a inteligência ou a própria mansidão não estiverem alicerçadas na humildade, elas se tornam instrumentos do Ego. O Espiritismo confirma exatamente isso: a humildade é a "chave de abóbada" (a pedra que sustenta o arco) de todas as outras qualidades.
Veja como essa sua ideia se encaixa na visão doutrinária:
O Orgulho da Própria Virtude
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo (Cap. XVII item 8) temos uma mensagem do Espírito François-Nicolas-Madeleine.: "Não é virtuoso aquele que faz ostentação da sua virtude, pois que lhe falta a qualidade principal: a modéstia, e tem o vício que mais se lhe opõe: o orgulho. A virtude, verdadeiramente digna desse nome, não gosta de estadear-se."
- Quando alguém diz: "Eu sou muito caridoso", a caridade morre e nasce o orgulho.
- No momento em que nos sentimos "superiores" a alguém por sermos mais calmos ou mais bondosos, essa virtude perde o seu valor espiritual, pois a sua motivação passou a ser a comparação e a vaidade.
A Humildade como Proteção
A humildade é a única virtude que não pode ser "ostentada", porque quando alguém tenta ostentar humildade, ela deixa de existir. Ela funciona como um escudo:
- A Caridade com Humildade: É o "não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa direita". É o bem anônimo.
- A Inteligência com Humildade: É o conhecimento a serviço do próximo, sem arrogância intelectual.
- A Fé com Humildade: É a confiança em Deus, sem o fanatismo de achar que se é o "eleito".
Jesus: O Exemplo Máximo
Ao dizer "aprendei de mim que sou manso e humilde", Jesus — o Espírito mais puro que já passou pela Terra — não estava se vangloriando. Ele estava descrevendo um estado de ser. Ele, que tinha todo o poder sobre a matéria, nasceu em uma manjedoura, lavou os pés dos discípulos.
Para o Espiritismo, a humildade de Jesus é a prova de sua grandeza, pois quem é verdadeiramente grande não precisa que os outros se sintam pequenos.
A humildade de Jesus não diminui sua grandeza; ao contrário, é a prova de que o verdadeiro poder se manifesta no serviço e no amor.
A Humildade no Processo de Evolução
Como somos espíritos em evolução (muitos de nós ainda no estágio de "expiações e provas"), a humildade é o que nos permite aceitar nossas quedas e recomeçar. Sem ela, o erro vira culpa paralisante ou revolta. Com ela, o erro vira aprendizado.
Mansidão (Afabilidade e Doçura)
É o controle da cólera e da violência. O Espírito verdadeiramente pacífico é aquele que, mesmo em meio a provas, mantém a serenidade porque confia na justiça divina e no futuro.
Embora já possamos exercitar a caridade e a benevolência de forma ativa e planejada, a mansidão encontra o seu verdadeiro teste na reação. Enquanto as ações de bondade são escolhas conscientes que fazemos, a mansidão é posta à prova na nossa resposta espontânea ao que vem de fora. Ela revela quem somos de fato nos momentos de passividade e confronto, agindo como o termômetro real da nossa transformação íntima.
O Descanso para a Alma
O "descanso" prometido por Jesus não é a ociosidade, mas a paz de consciência. Para o Espiritismo, as aflições da Terra são pesadas para quem duvida do futuro, mas tornam-se leves para quem compreende a lei de causa e efeito e a imortalidade da alma.
Como ensina o espírito Lázaro em uma das instruções de O Evangelho Segundo o Espiritismo, o homem não permanece vicioso senão porque quer; a vontade de se tornar manso é o primeiro passo para a nossa felicidade real.
Para a Doutrina Espírita, a diferença entre a virtude real e a aparência social é uma questão de identidade entre o que se sente e o que se faz. Isto é abordado com muita clareza no cap. XVII, já citado, de o ESE.
Aqui está a distinção que os Espíritos nos propõem:
A Falsa Afabilidade (O Verniz Social)
Muitas vezes, o que chamamos de "educação" é apenas uma camada superficial para facilitar a convivência.
- O "Tirano Doméstico": É o exemplo clássico. São pessoas que, em sociedade, são gentis, doces e prestativas, mas, dentro de casa, são déspotas e impacientes com seus familiares.
- A Motivação: Esse comportamento não nasce do amor, mas do orgulho e da vaidade. A pessoa quer ser admirada por estranhos, mas não faz o esforço da reforma íntima onde ninguém a vê.
- O Risco: É uma forma de hipocrisia. Como diz o texto, "não basta que dos lábios manem leite e mel" se o coração não estiver associado.
A Mansidão Verdadeira (O Fruto do Amor)
A verdadeira afabilidade e doçura são filhas da benevolência para com o próximo.
- Constância: O verdadeiro manso não se desmente; ele é a mesma pessoa tanto em público quanto na intimidade do lar.
- Força, não fraqueza: diferente do que o mundo pensa, a mansidão espírita não é passividade ou covardia. É, na verdade, autodomínio. É a capacidade de receber a agressividade alheia e não devolvê-la, transformando o mal em bem através da força moral.
- Respeito Real: Envolve respeitar a opinião do outro mesmo quando discordamos, mantendo a polidez sem sacrificar a verdade.
Como saber se estamos sendo sinceros?
O Espiritismo sugere o autoconhecimento (Questão 919 de O Livro dos Espíritos) como ferramenta. Se a nossa paciência acaba rápido com aqueles que amamos, mas sobra para os estranhos, estamos apenas usando a "máscara" do verniz social. A reforma íntima exige que a doçura comece no pensamento e na intenção, antes mesmo de chegar à palavra.
Veja como podemos analisar essa sua ideia sob a ótica da Doutrina:
A Ação é o "Caminho", a Reação é o "Termômetro"
- Na Ação (Caridade/Benevolência): Nós detemos o controle. É possível exercer a caridade por dever, por disciplina ou até por hábito, sem que isso exija uma transformação completa do nosso íntimo naquele momento.
- Na Reação (Mansidão): É o teste do reflexo. Quando somos contrariados, ofendidos ou injustiçados, não temos tempo para "preparar" a máscara. O que sai é o que está transbordando no coração. Por isso, como você disse, a mansidão se revela na reação: ela é o termômetro da nossa evolução real.
A Mansidão como "Resistência Espiritual"
No livro Justiça Divina, psicografado por Chico Xavier (pelo espírito Emmanuel), aprendemos que a paciência e a mansidão são a "caridade que não faz barulho".
- Se alguém nos agride e nós reagimos com violência, nivelamos nossa vibração à do agressor.
- A mansidão na reação é a capacidade de interromper o ciclo do mal. É não permitir que o veneno do outro encontre eco em nós.
O Espiritismo vai além: a reação não é apenas a palavra que dizemos, mas o sentimento que nutrimos enquanto somos atacados.
A mansidão não consiste apenas em não dizer palavras ásperas, mas em não as pensar.
Se por fora nos calamos (reação externa), mas por dentro desejamos o mal ou nutrimos o ódio (reação interna), ainda estamos no estágio do "verniz" que conversamos antes. A verdadeira mansidão ocorre quando a nossa primeira reação mental já é de indulgência e compreensão da ignorância do outro.
Por que é tão difícil?
Porque a reação mexe com o nosso orgulho. A ofensa alheia só nos fere porque ainda temos "feridas abertas" de vaidade. Quando Jesus diz "sou manso e humilde", ele mostra que a humildade é o escudo: quem é verdadeiramente humilde não se sente ofendido, logo, sua reação é naturalmente mansa.
Referências
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo espírito Emmanuel. 28. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010.
XAVIER, Francisco Cândido. Justiça divina. Pelo espírito Emmanuel. 14. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2008.
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