Artigos e comentários a respeito da Doutrina Espírita e do Evangelho de Jesus - O Blog do Evangelho Miudinho
terça-feira, novembro 25, 2008
Kardec e a Bíblia
Em todos os tempos estudiosos se debruçaram sobre seus os textos para analisá-los. Textos estes que foram sempre motivos de muitas contradições e já geraram, e ainda hoje são, responsáveis por guerras de grandes conseqüências.
Sempre existiram aqueles que a interpretaram em seu sentido literal, outros ao contrário, viram em suas narrativas alegorias, e buscaram extrair destas alegorias um ensinamento moral mais profundo e de grande alcance. Há ainda os que sempre a tiveram por uma revelação divina escrita pelo próprio Criador de todas as coisas que assumira em vários momentos nomes distintos.
Hoje, historiadores e cientistas conseguem fazer um apanhado mais próximo da realidade e com o avanço da crítica textual definem autores, datas, e a origem de textos, com maior precisão e com menores chances de erro, porém, as polêmicas continuam porque o sentido velado destes mesmos textos, afirmam alguns, só podem ser percebidos com os olhos da alma, com a profunda integração dos estudiosos com as forças transcendentais da vida e com um estudo minucioso de cada palavra ali contida com um objetivo, mesmo que este, por origem divina, tenha passado despercebido até mesmo de seus autores físicos.
Este livro influenciou muitos povos, fez história, ergueu e destruiu impérios, marcou constituições e determinou atitudes políticas em todos os tempos.
Em nosso movimento espírita não têm sido menos polêmicos os estudos de seu conteúdo, e até com certa descrença alguns espíritas têm perguntado: “deve o espírita estudar a Bíblia?” Outros têm ido mais além respondendo que não, e há ainda aqueles, apesar de minoria, que não concordam nem mesmo com o estudo do Novo Testamento, dizendo que bastam as anotações do Codificador do espiritismo em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
A estes dirigimos estas linhas dizendo que estão eles em grande contradição com os próprios textos básicos de nossa literatura espírita, pois estes informam-nos claramente ser o espiritismo uma filosofia cristã, e que Jesus é o Guia e Modelo para todos nós que trilhamos o caminho evolutivo traçado por Deus desde a criação de todas as coisas.
O Evangelho Segundo o Espiritismo é uma obra ímpar, de grande importância, e de qualidade incontestável, porém não foi escrito com o objetivo de elucidar todo o conteúdo do Novo Testamento, seu propósito maior foi ampliar, explicando, o conteúdo moral do Evangelho de Jesus e fazer uma conexão deste com a revelação dos Espíritos Superiores.
Além de O Evangelho Segundo o Espiritismo, que é o livro mais conhecido da literatura espírita, Kardec responde a esta nossa questão de que se deve a Bíblia ser estudada pelos espíritas em vários outros textos contidos na codificação.
É preciso antes de tudo lembrar que Kardec foi um cientista, um educador e um sábio de seu tempo, e deste modo, e por fazer tudo isso com uma competência tal que o projetou para muito além de seus dias, não se viu impedido de aceitar desafios; desta feita estudou minuciosamente não só a Bíblia como textos sagrados de várias outras filosofias religiosas ponderando com saber e lógica sobre as contradições de cada um e de seu sentido espiritual mais profundo.
Já na questão 59 de O Livro dos Espíritos disserta sobre colocações bíblicas a respeito da Criação com considerações que devem ser ponderadas por todos nós.
Como introdução a estas questões, na pergunta de nº 50, questiona sobre o início da humanidade no orbe induzindo os Espíritos a falarem sobre o figura mítica de Adão, figura esta bem colocada para todos nós nos primeiros movimentos do livro Gênesis atribuído até então, a Moisés.
Os Espíritos informam a Kardec que Adão não foi o primeiro nem o único homem a povoar a Terra àquele tempo, e dizem mais:
“O homem, cuja tradição se conservou sob o nome de Adão, foi dos que sobreviveram, em certa região, a alguns dos grandes cataclismos que revolveram em diversas épocas a superfície do globo, e se constituiu tronco de uma das raças que atualmente o povoam. As leis da Natureza se opõem a que os progressos da Humanidade, comprovados muito tempo antes do Cristo, se tenham realizado em alguns séculos, como houvera sucedido se o homem não existisse na Terra senão a partir da época indicada para a existência de Adão."[2]
Como dissemos, na questão 59 Kardec amplia, fruto de seus estudos, os comentários sobre colocações bíblicas concernentes à Criação, dizendo que a Bíblia, se interpretada literalmente, erra não só quanto a Adão não ser o primeiro e único homem que originou a humanidade, como também comenta sobre a impossibilidade de ter sido criado o mundo em seis dias de vinte quatro horas apenas; e também sobre a questão do movimento da Terra, que, em determinada época, pareceu se opor aos textos bíblicos que a viam imóvel, além de outras questões importantes sobre quando se deu o início da criação, que o Gênesis situa há quatro mil anos antes de Cristo, e que a ciência mostra ser inverossímil esta data, pela anterioridade de fósseis encontrados que datavam de tempo muito anterior a este.
Depois de pormenorizados comentários a respeito deste tema e de outros, Kardec conclui perguntando:
Dever-se-á daí concluir que a Bíblia é um erro?
Ao que ele mesmo com a sabedoria e o bom senso que lhe eram peculiares responde:
"Não; a conclusão a tirar-se é que os homens se equivocaram ao interpretá-la."[3]
Mostrando para todos nós que deveríamos estudar a Bíblia, como ele fez, e que caberia aos espíritas reinterpretá-la às luzes da ciência espírita.
Mais adiante, no livro A Gênese, Kardec volta ao tema dizendo:
"De todas as Gêneses antigas, a que mais se aproxima dos modernos dados científicos, sem embargo dos erros que contém, postos hoje em evidência, é incontestavelmente a de Moisés. Alguns desses erros são mesmo mais aparentes do que reais e provêm, ou de falsa interpretação atribuída a certos termos, cuja primitiva significação se perdeu, ao passarem de língua em língua pela tradução, ou cuja acepção mudou com os costumes dos povos, ou, também, decorrem da forma alegórica peculiar ao estilo oriental e que foi tomada ao pé da letra, em vez de se lhe procurar o espírito."[4]
"Sobre alguns pontos, há, sem dúvida, notável concordância entre a Gênese moisaica e a doutrina científica; mas, fora erro acreditar que basta se substituam os seis dias de 24 horas da criação por seis períodos indeterminados, para se tornar completa a analogia. Não menor erro seria o acreditarse que, afora o sentido alegórico de algumas palavras, a Gênese e a Ciência caminham lado a lado, sendo uma, como se vê, simples paráfrase da outra."[5]
Na continuidade deste capítulo XII do mesmo livro A Gênese, Kardec faz uma detalhada comparação entre o que diz a ciência sobre os períodos geológicos de formação planetária e os seis dias da criação conforme as anotações mosaicas, vindo a dizer:
"Desse quadro comparativo, o primeiro fato que ressalta é que a obra de cada um dos seis dias não corresponde de maneira rigorosa, como o supõem muitos, a cada um dos seis períodos geológicos. A concordância mais notável se verifica na sucessão dos seres orgânicos, que é quase a mesma, com pequena diferença, e no aparecimento do homem, por último. É esse um fato importante.
Há também coincidência, não quanto à ordem numérica dos períodos, mas quanto ao fato em si, na passagem em que se lê que, ao terceiro dia, «as águas que estão debaixo do céu se reuniram num só lugar e apareceu o elemento árido». É a expressão do que ocorreu no período terciário, quando as elevações da crosta sólida puseram a descoberto os continentes e repeliram as águas, que foram formar os mares. Foi somente então que apareceram os animais terrestres, segundo a Geologia e segundo Moisés."[6]
Não é nosso objetivo neste texto singelo fazer comentários mais profundos sobre as considerações de Kardec, nem muito menos acrescentar algo como interpretação dos textos mosaicos, apenas mostrar que o Codificador estudava a Bíblia e nos ensinava como fazer. Deste modo, ele recorre aos termos originais do hebraico várias vezes para melhor compreender a essência do que queriam dizer os autores bíblicos, comenta outros textos como os do dilúvio, da perda do paraíso, nos mostrando ser possível fazer uma exegese fundamentada nos ensinamentos espíritas e assim muito aprender com esta literatura, que diga-se de passagem é de ótima qualidade.
E ainda neste mesmo capítulo de A Gênese reitera o que havia dito em O Livro dos Espíritos:
"Não rejeitemos, pois, a Gênese bíblica; ao contrário, estudemo-la, como se estuda a história da infância dos povos.
Trata-se de uma época rica de alegorias, cujo sentido oculto se deve pesquisar; que se devem comentar e explicar com o auxílio das luzes da razão e da Ciência. Fazendo, porém, ressaltar as suas belezas poéticas e os seus ensinamentos velados pela forma imaginosa, cumpre se lhe apontem expressamente os erros, no próprio interesse da religião. Esta será muito mais respeitada, quando esses erros deixarem de ser impostos à fé, como verdade, e Deus parecerá maior e mais poderoso, quando não lhe envolverem o nome em fatos de pura invenção."[7]
É sobre o Novo Testamento que Kardec mais se ocupa com interpretações de grande inteligência.
Na introdução de o Evangelho Segundo o Espiritismo mostra que esta obra priorizaria o conteúdo moral dos ensinamentos de Jesus, deixando para outros momentos temas mais polêmicos que podiam dividir as opiniões. Mesmo assim mostra-nos a importância de fazermos uma análise histórica, cultural e sociológica daquele período em que Jesus viveu, e vai mais além, tanto analisando algumas expressões idiomáticas do hebraico, como fazendo uma conexão entre as filosofias de Sócrates e Platão, com os ensinamentos de Jesus e com a Doutrina Espírita que surgia.
Nos livros A Gênese e em Obras Póstumas, obra publicada após o seu desenlace, volta ao tema desta vez analisando à luz do Espiritismo temas, como dissemos anteriormente, mais polêmicos.
No primeiro Kardec analisa os ditos “milagres” feitos por Jesus, como curas, ressurreições, profecias, entre outros. Mostrando-nos que o que foi chamado de milagre nada mais era do que um desconhecimento do homem sobre algumas leis da natureza. Jesus, por ser um Espírito de grande evolução, de alta hierarquia espiritual, tinha conhecimento destas leis e agia consoante a vontade do Pai atuando nas causas dos problemas, atingindo assim resultados incompreendidos pelo ser humano comum
Kardec teve a coragem de dizer sem perder entendimento em matéria de religiosidade, que a Lei Divina não pode ser derrogada nem por Jesus e nem mesmo por Deus, portanto não havia milagres, mas tudo se dava como fruto de ação consciente num nível mais profundo de espiritualidade.
Já no livro Obras Póstumas o Codificador faz um estudo minucioso sobre a natureza de Jesus, mostrando-nos, com maestria, baseado nas próprias palavras do Mestre e na opinião de suas testemunhas vivas, os apóstolos, que Jesus não era Deus, e esta crença que surgiu nos séculos posteriores do cristianismo não tinha fundamentação bíblica e era pura deturpação dos textos originais das escrituras.
Estes textos devem ser meditados e estudados por todos os espíritas como resposta àquela questão que comentamos no início, de que se deve ou não o espírita estudar a Bíblia. Servindo para outros irmãos ligados a outras crenças religiosas para mostrá-los que o Espiritismo além de ser uma filosofia cristã também se preocupa em estudar a Bíblia tendo por exemplo, o seu Codificador.
E mesmo outros estudiosos dos textos sagrados que realizam importantes comentários sobre as escrituras citando historiadores e profitentes de várias crenças, deviam conhecer um pouco mais de Kardec e a sua opinião sobre esta, que como dissemos no início, é uma das obras mais importantes da literatura mundial.
[1] Alguns autores dão como mais seis bilhões de exemplares vendidos e mais de dois mil idiomas em que foram traduzidos os originais.
[2] O Livro dos Espíritos, questão 51
[3] Ibidem, questão 59
[4] A Gênese, cap. IV item 5
[5] Gênese, cap. XII item 3
[6] Ibidem, item 6
[7] Ibidem, item 12
quinta-feira, outubro 18, 2007
Reencarnação
Singelos apontamentos sobre a teoria das vidas múltiplas.
A reencarnação é uma é uma crença antiga da humanidade, não foi o espiritismo nem os espíritas que a inventaram, desde todos os tempos o homem tem a intuição de sua realidade.
Entre os orientais, o Bhagavad Gita, o Tao te King, o Livro Tibetano dos Mortos já a divulgavam; na Grécia temos em Platão, em Pitágoras, entre outros, a mesma idéia palingenésica. A mesma crença já existia entre os egípcios, e mesmo entre os descendentes do povo hebreu ao tempo do Antigo Testamento haviam aqueles que defendiam a idéia da pluralidade das existências.
O que acontece é que todas essas crenças viam a idéia do retorno do espírito ao mundo físico de uma forma incompreensível, muito vaga. Só com o advento do espiritismo o tema foi estudado com clareza, com lógica e com rigor científico, ficando assim, o espiritismo, entre nós os ocidentais, marcado como o maior divulgador da idéia reencarnacionista.
Podemos dizer com muita segurança que não podemos penetrar nas questões máximas e últimas da vida se não tivermos a reencarnação como certeza absoluta, e mesmo a idéia de Deus se torna reduzida se não adotarmos a pluralidade das existências como lei universal.
Podem dizer que estamos radicalizando, porém não estamos, e pretendemos com lógica e bom senso discorrer nestas linhas sobre o tema de tal forma que não fique dúvida sobre o assunto.
Como ponto inicial podemos dizer que quanto à existência da alma1 há basicamente duas hipóteses a respeito: a sua existência e a não existência.
Os que defendem a não existência da alma, ou os que acreditam que tudo acaba quando termina esta vida física são os materialistas, e a estes não nos dirigiremos neste momento, não nos ocuparemos desta hipótese por não ser objetivo deste texto convencer a ninguém da idéia espiritualista.
Os que aceitam a existência da alma e a sua sobrevivência após a morte são os espiritualistas e é a estes que dirigimos nossas palavras sem nenhuma pretensão de fazer proselitismo ou de convencer quem quer que seja sobre nossas idéias filosóficas. O que queremos é avaliar entre as possíveis idéias sobre vida futura, qual a mais lógica e a que prima pelo maior bom senso.
Tendo por base a sobrevivência da alma após o fenômeno que denominamos morte, podemos dizer que só existem duas hipóteses a serem avaliadas, são elas a da unicidade da existência, e a da pluralidade das vidas, o que se dá com a hipótese da reencarnação.
Os que defendem a primeira possibilidade afirmam que Deus cria as almas no momento da fecundação, que elas têm uma vida na Terra a partir do nascimento e que depois da morte seguem, de acordo com o que tiverem feito, para um tormento eterno ou para o gozo eterno.
Temos já neste momento duas objeções que devem ser meditadas e que segundo pensamos torna mesmo impossível a idéia da unicidade da existência.
A primeira diz respeito ao pouco caso que os defensores desta idéia fazem de Deus. Deus segundo qualquer religião que nele crê é Onipotente, Onipresente, Todo Sábio, e detentor de todas as perfeições; se for ele imprevidente ou imperfeito em qualquer área que seja, já não é mais Deus. Se Deus criasse a alma no exato momento da fecundação perderia Ele um de seus atributos deixando assim de ser Onipotente, pois para criar uma alma ficaria na dependência do casal humano que o ajudaria, ou seja, se em cima da hora surgisse qualquer problema ao casal e este não mantivesse sua relação, haveria um ato falho e Deus teria que adiar aquela criação por simples falta de prevenção. Neste caso, os homens teriam tanta importância na criação de uma alma quanto o próprio Deus, pois este ficaria sempre na dependência daqueles.
É isso lógico? Seria isso possível? Cremos que não, mas fica aqui a idéia para que se pensem a respeito.
A outra objeção a esta idéia esta centrada na lei de causa e efeito. Diz a nossa ciência, que a todo efeito deve existir uma causa anterior. Diz o bom senso que causa e efeito devem ter uma relação que os ligue. Assim, uma causa inteligente gera um efeito inteligente, uma causa finita um efeito finito e assim por diante.
Ora uma existência física por maior que seja tem um tempo determinado, ou seja um dia acaba. É impossível, deste modo, que uma causa finita (vida física) gere um efeito infinito (eternidade). Não pode um curto espaço de tempo determinar uma conseqüência interminável, seja ela boa ou má.
Cremos que só estes argumentos já provam a impossibilidade da unicidade da existência por falta de argumentação lógica, porém, ainda vamos analisar outras situações.
Uma outra questão a ser analisada é a das aptidões inatas.
De acordo com a teoria da unicidade da existência a alma é criada no momento da fecundação, como já dissemos. Aí surge uma grande dúvida, se são criadas por Deus desta forma, por que tanta diversidade entre as mesmas? Por que têm os espíritos de muitas crianças aptidões tão diversas mesmo tendo recebido a mesma educação e procedendo de mesmos pais? Algumas têm grande tendência para a arte, se revelando às vezes grandes gênios, outras para a ciência, outras para os serviços manuais etc.. Existem crianças que desde pequenas revelam serem portadoras de grande maldade, enquanto outras são extremamente bondosas, tudo isso a despeito da educação que receberam ou das virtudes ou defeitos de seus pais.
Aqui não fica dúvida, estas almas são bem diferentes. E se assim são, de acordo com a teoria da criação da alma por ocasião do seu nascimento, é por que Deus as criou diferentes. Não seria um grande erro do Criador, até mesmo uma grande injustiça dar a uns maiores possibilidades que a outros? E aí, depois, ainda exigir que todos tenham que ser virtuosos do mesmo modo para que possam alcançar uma eternidade gloriosa? Será que aquele que tem tendências para os vícios não terá mais dificuldades do que aquele que desde pequenininho mostra-se ser uma alma virtuosa?
Diante da possibilidade de uma existência única estas são questões insolúveis, porém se trabalharmos os mesmos problemas sob a ótica das existências múltiplas tudo fica mais fácil e lógico.
Os Espíritos que mostram sabedoria desde novos, são aqueles que já trabalharam estes conhecimentos em vidas anteriores; o portador de virtudes é que já depurou-se e realizou reforma moral anteriormente, enquanto que o que tem tendência para aos vícios ainda precisa se dispor e realizar a mesma transformação.
Do mesmo modo que há homens maduros e outros imaturos, há entre os espíritos os que têm mais amadurecimento espiritual e os que são mais atrasados em seu processo evolutivo, há também almas infantis e almas amadurecidas.
Tudo isso fica muito claro se analisarmos os fatos à luz da teoria reencarnacionista.
Como dissemos anteriormente não temos a intenção de convencer ninguém, mas apenas de analisar a questão de forma lógica. Não estamos usando argumentos religiosos de uma forma específica, nem a opinião de guias ligados a nenhuma crença particular, partimos apenas do princípio da existência de Deus, da alma e de sua imortalidade, temas esses comuns a todas as religiões.
Muitos outros aspectos poderiam ser ainda por nós analisados, porém para encerrar este breve texto vamos refletir apenas sobre mais um tema para não nos tornarmos enfadonhos no discorrer sobre este assunto. Trata-se da questão levemente abordada anteriormente da justiça de Deus e suas conseqüências.
Como já abordamos Deus para ser Deus tem que ser ilimitado em todas as suas perfeições, se em apenas um item ele assim não for, existe a possibilidade de um outro ser, ser mais do que ele, e aí, este é que seria Deus.
Portanto, do ponto de vista da justiça, Deus é o Justo por excelência, ou dizendo melhor, Deus é a própria Justiça em seu grau máximo.
Deste modo respondamos algumas questões sob a ótica da unicidade, e depois, da pluralidade das existências.
Se nossa conduta numa única vida é que definirá nossa sorte futura, se tormento ou graça eterna, como deverá ser avaliado aquele que tem maiores facilidades em relação ao que tem só dificuldades em sua vida? Nosso mundo é um mundo de contradições, assim temos aqueles que têm plena saúde, outros que passam toda sua vida lutando com várias espécies de doenças, às vezes preso no leito durante toda sua encarnação. Uns têm grande poder econômico, outros são totalmente desprovidos de recursos. Existem ainda aqueles que não têm a mínima oportunidade de estudar e adquirir conhecimentos, outros freqüentam as melhores escolas conseguindo os maiores destaques.
Podemos ainda nos perguntar sobre as crianças que desencarnam na mais tenra idade sem ter a oportunidade de se mostrarem nem boas nem más. Teriam elas o céu sem nenhum esforço de progresso moral, ou estariam destinadas ao inferno sem maiores merecimentos?
Muitos outros exemplos poderiam ser aqui acrescentados mas julgamos desnecessário. O certo é que qualquer ser humano que tenha um pouco de bom senso percebe que de acordo com a proposta de uma vida única, tudo isto soa como grande injustiça. Sendo Deus a Soberana Justiça, estaria tudo isso de acordo com os Seus propósitos superiores? Cremos que não. E se Deus não está errado, a nossa interpretação da vida é que está. Coloquemos a lei das existências múltiplas na análise e tudo fica de acordo com a justiça Daquele que é todo Poder. Qualquer situação de carência atual, denota um anterior mau uso de determinado recurso; as possibilidades que temos são oportunidades de fixação de uma virtude através da boa utilização das mesmas. Essa é a Lei. Lei que está em pleno acordo com a moral, Lei que mostra a grandeza do Criador e nos descortina toda sua Sabedoria.
Dito tudo isso lançamos agora uma outra questão. Por que tudo isso é necessário? Por que tem o espírito após uma dura existência de voltar novamente a habitar uma veste física reiniciando sempre?
Allan Kardec pergunta aos espíritos a respeito e eles nos informam que não conseguindo o espírito atingir a perfeição em uma só existência ele reencarna tantas outras vezes quantas forem necessárias para atingir este objetivo.
Todavia, poderíamos insistir na pergunta, por que é necessário este modelo, não poderíamos evoluir no plano espiritual sem necessitar a volta ao corpo físico? Os espíritos respondem a Kardec que não, é necessário que haja novamente a encarnação, ou seja, a volta à vida física. Foi Pietro Ubaldi quem de forma mais lógica, explicou-nos este porquê, isto é, porque o modelo se dá deste modo.
Segundo este filósofo italiano, a criação original de Deus é puramente espiritual2. Tudo o que conhecemos como criação, ou seja, os mundos físicos, o espaço, o tempo, a forma de um modo geral, surgiu devido ao que ele chamou de “queda”, que aconteceu devido a insubordinação de um grupo inumerável de espíritos. A partir daí o espírito se aprisionou na matéria, tendo que realizar a volta ao estado de original, o que se dá pela evolução.
Esse é um tema polêmico e que não pretendemos discutir nestas poucas linhas, ele está muito bem desenvolvido na obra de Ubaldi, que devido à sua complexidade gastou aproximadamente dez mil páginas no desenvolvimento do tema, portanto, quem quiser elogiar ou criticar tal filosofia, que estude estas páginas. Aqui só pretendemos usar sua teoria para explicar o porquê da necessidade reencarnatória que é o tema deste artigo.
Esta “queda” se deu em dimensões altíssimas em que não temos a condição, com os recursos atuais que possuímos, de compreendê-la totalmente, porém, é fato, que o Sistema, que é a criação original, engloba o anti-sistema que foi o universo criado a partir da queda.
Vivemos segundo Ubaldi num universo que funciona por modelos únicos, em que a repetição do motivo fundamental da criação se dá ao infinito. Assim a queda original se repete em manifestações menores em nossa vida, onde podemos afirmar, inclusive, que isto passa a fazer parte de nosso processo evolutivo. Neste modelo segundo explica Ubaldi,
…a evolução não pode dar-se de forma ascendente contínua e retilínea, mas unicamente de acordo com o primeiro momento da queda, isto é, por um caminho interrompido por contínuos retornos ou descidas na matéria, a fim de nela completar um novo trecho de subida, conseqüência das etapas precedentes.3
Assim, a união do espírito com a matéria através do processo de encarnação, e a repetição deste fato, nada mais é do que a repetição do motivo original da criação da forma. Reencarnar-se é entrar novamente num processo de “queda”. No plano espiritual o espírito goza de liberdade, goza de maiores recursos, de uma memória mais ampla; quando encarna-se perde grande parte destes recursos devido a união com a matéria.
Diz Ubaldi,
Esta perda de consciência, no ato da descida na forma material, é um eco do primeiro motivo da queda, que volta e se repete a cada reencarnação4.
A cada existência a consciência desperta cada vez mais reconquistando os valores perdidos, na realidade quando Jesus no “Sermão do Monte” nos disse: resplandeça a vossa luz5, em verdade ele nos dizia da luz que possuímos em estado latente, que se apagou quando da queda. Essa conquista se dá com a evolução, onde a reencarnação é um instrumento essencial, como dissemos alhures, uma Lei Universal que se dá em toda natureza em nosso universo material.
1 Tomaremos neste artigo a palavra alma como sinônimo de espírito, ou seja, como individualidade extra física que sobrevive ao trespasse físico.
2 Esta afirmativa está em pleno acordo com a informação dos Espíritos a Kardec na questão 85 de “O Livro dos Espíritos”, quando nos informam as entidades superiores que o mundo espiritual preexiste e sobrevive a tudo.
3 Problemas Atuais, pág. 257
4 Idem, pág. 263
5 Mateus, 5: 16
quinta-feira, outubro 04, 2007
Ética Espírita
É comum nestes dias por que passamos, estarmos vivendo uma situação de ampla tranqüilidade, e uma notícia ou fato narrado por um noticiário nos deixar plenamente aborrecido ou até mesmo desequilibrado. Às vezes é um crime hediondo que nos deixa perplexo; outras vezes um ato de corrupção por parte de autoridades que deveriam ter por princípio a manutenção da ordem e dos bons costumes; ou até mesmo um acidente de grandes proporções envolvendo número enorme de pessoas.
Por que estas coisas acontecem na atualidade, quando pregamos que estamos em evolução, e que o planeta já está bem próximo do que denominamos “mundo de regeneração”? Não seriam estas atitudes de violência e de falta de caráter um retrocesso e um atraso na melhoria da humanidade?
Sem termos a pretensão de responder questão de tão grande complexidade, podemos afirmar que deste modo acontece, devido ao momento por que passa o orbe na atualidade. Sabemos que o planeta está passando por um momento de transição. Passamos de planeta de “provas e expiações” para o já citado mundo de regeneração, e por isso acontecem dois fatores que propiciam o quadro que citamos anteriormente e que muito incomoda a todos, indistintamente.
Neste grave momento por que passamos está sendo dado a oportunidade de reencarne a espíritos de grande comprometimento com a moral, e que encontram-se de há muito nas regiões inferiores do mundo espiritual; estes têm esta oportunidade para que possam realizar sua transformação moral, ou conquistarem em definitivo a condição de futuros exilados em mundos mais apropriados à sua pouca condição espiritual.
Outro fator que contribui para que estejamos na condição atual é que em momentos como o da atualidade é necessário que vivamos num clima de total liberdade, pois só assim os espíritos podem se manifestarem dando testemunho do que são e do que querem. Só há progresso se houver liberdade, pois sendo constrangido ninguém pode provar que está apto a ser aprovado ou reprovado diante das Leis Universais.
Estes dois fatores, o encarne em massa de espíritos comprometidos com a ordem, e a necessária liberdade para que cada um possa dizer quem é e a que veio, são sem dúvida decisivos para que estejamos na situação atual.
Vivemos assim várias crises que denominamos crise política, crise econômica, crise na educação, mas que na verdade é uma só, ou seja, vivemos uma grande crise ética, que mais corretamente pode ser chamada de “crise moral”.
Etimologicamente ética vem do grego ethos; em latim temos com o mesmo significado morale (de onde veio moral), ambas expressões significam conduta, ou relativo aos costumes. Podemos assim concluir que etimologicamente ética e moral são palavras sinônimas, porém não é bem assim.
Para alguns estudiosos do assunto, ética é princípio, moral são aspectos de condutas específicas; ética é permanente, moral temporal; ética é universal, moral é cultural; ética é regra, moral é conduta da regra.
Falando de forma mais simples podemos dizer que ética não é moral, mas que moral é o objeto do estudo da ética, ou seja, ética é a parte da filosofia que estuda a moral.
Concluindo temos que ética é então o regimento, a lei do que seja ato moral, o controle de qualidade da moral, por isso temos os códigos de ética que norteiam as diferentes sociedades.
Para nós espíritas estes conceitos mudam um pouco, pois conforme nos dizem os Espíritos na questão 629 de “O Livro dos Espíritos”, a moral funda-se na observância da Lei de Deus. Deste modo, se a Lei de Deus é imutável, em última instância, moral também é. Assim, moral não é um conceito temporal ou cultural, mas definitivo. Moral é então maior do que ética, pois a ética evolui, moral não. Em verdade, quando dizemos moral “disso”, ou moral “daquilo” estamos reduzindo o verdadeiro conceito de moral que como dissemos é imutável, pois fundamenta-se na observância da Lei de Deus como nos dizem os Espíritos superiores.
Só para exemplificar o que estamos dizendo, podemos lembrar que há algum tempo atrás era ético ter-se escravos no Brasil, todavia jamais foi uma atitude moral ter-se escravos em qualquer lugar ou época da humanidade. Em algumas sociedades a prática da poligamia é uma atitude ética, porém jamais será uma atitude moral pois é ato contrário à Lei de Deus.
E assim, com tranqüilidade podemos dizer que a ética espírita coincide perfeitamente com a moral, pois é o ajuste às Leis Universais o que qualifica a ética do ponto de vista espírita, por ser o espiritismo o Cristianismo redivivo.
No Evangelho de Jesus temos a prática mais perfeita de acordo com o nosso entendimento do que seja moral. Jesus como o mais alto representante do Criador na Terra nos deixou através de sua vivência o maior exemplo de como é estar em uníssono com as Soberanas Leis. Sendo, como dissemos anteriormente, repetindo as palavras dos Espíritos orientadores, o Espiritismo a revivência do Evangelho do Cristo, é conclusão acertada dizer que a ética espírita é a vivência pura e simples, e com muita naturalidade do Evangelho de Jesus. Esse é ponto fundamental de nossa querida doutrina, essa deve ser a filosofia espírita, e porque não dizer, a filosofia de vida de todo espírita.
Esta é a ética espírita, ética que o Cristo conseguiu magistralmente sintetizar em apenas um versículo do Evangelho anotado por João:
terça-feira, março 27, 2007
Sobre as Traduções do Evangelho
A obra de Pietro Ubaldi tem em alguns pontos desafiado a comunidade espírita de tal modo, que enquanto alguns espíritas ilustres, estudiosos da codificação kardequiana a apóiam, outros, não menos importantes, também estudiosos da literatura básica do espiritismo, a rejeitam, vendo nela importantes contradições doutrinárias.
Nós temos a nossa opinião a respeito, no entanto, aqui não nos manifestaremos visto não ser do interesse deste estudo, e também por que o que quer que seja que tenhamos a comentar não passará de opinião pessoal, e opinião pessoal tem sempre importância relativa.
Queremos apenas nos apropriar dos conceitos de dois termos usados por Ubaldi objetivando melhor nos expressar. São eles Sistema e Anti-Sistema.
Por Sistema entendemos o Universo original criado por Deus no primeiro instante; o Universo espiritual onde inexiste a matéria e vige exclusivamente a Unidade Divina que se expressa através da Lei Amor. Poderíamos como sinônimo de Sistema falar em Reino de Deus ou dos Céus, conforme o dizer de Jesus, ou ainda Mundo Espiritual como fala a codificação espírita.
Ao optarmos por usar Sistema ao invés dos outros termos aqui citados, é porque com o decorrer dos tempos estas expressões perderam seu significado original. Quando falamos em céu, a primeira coisa que comumente vem no pensamento da maioria das pessoas é a ociosidade, ou ainda, anjos privilegiados que vivem em imensa monotonia. Já Mundo Espiritual, expressão usada pela comunidade espírita, também pode ser confundida com “colônias espirituais” como Nosso Lar, Alvorada Nova, Novos Horizontes, entre outras tão comuns em nossa literatura sobre o mundo invisível.
Não é este também o conceito que queremos usar, pois nas colônias espirituais também existe matéria, mesmo que em diferentes dimensões, e por Sistema entendemos, como já dissemos, o Universo Imaterial inicialmente criado por Deus antes de ser criada a matéria e tudo que veio com o aparecimento desta.
Anti-Sistema é justamente o oposto de Sistema, é o Universo físico propriamente dito. Nele está presente com intensidade a dualidade, as contradições e os paradoxos inerentes à existência material. É o mundo em que vivemos.
Não temos na atualidade devido à nossa pouca evolução espiritual, condições de compreender o Sistema; sua realidade nos escapa pois situa-se em dimensões muito superiores àquela que conseguimos alcançar. Porém, não é por isso que vamos dizer que ele inexiste.
Feito este breve esclarecimento, podemos então entrar no tema de nosso estudo.
Muito temos sido questionado sobre as traduções do Evangelho. Por várias vezes nos perguntam sobre qual a melhor tradução dos textos canônicos, qual a que espelha de forma mais fiel o texto original.
Esta resposta é bem complexa, e nós não nos achamos em condições de respondê-la, pois apesar de nosso constantes estudos e pesquisas no campo do Evangelho, não somos conhecedores em profundidade nem do grego, que é o idioma original em que os evangelhos atuais foram escritos, nem muito menos do hebraico e do aramaico, em que foram vividos.
Deste modo, para que estes que nos questionam não ficassem sem resposta, fomos buscar em nosso orientador Emmanuel a resposta para esta questão.
No Livro o Consolador é feita a mesma pergunta para este iluminado Espírito, como citamos:
Pergunta 321 – Qual a edição dos Evangelhos que melhor traduz a fonte original?
Ao que Emmanuel com a sabedoria que lhe é peculiar inicia respondendo:
A grafia original dos Evangelhos já representa em si mesma, a própria tradução do ensino de Jesus considerando-se que essa tarefa foi delegada aos seus apóstolos...
Esta resposta só neste início, pois ela continua no livro citado, já é bem significativa...
O Evangelho é, ao nosso ver, a Carta Magna do Sistema. Jesus é um Espírito do Sistema e é segundo o dizer do próprio Emmanuel e de outros Espíritos superiores que nos orientam, o responsável espiritual pelo planeta Terra desde suas origens há alguns bilhões de anos atrás.
A Mensagem Crística do Evangelho está, deste modo, em uma dimensão muito acima do que podemos alcançar em matéria de entendimento, por isso dizemos que Jesus teve que adequar esta mensagem para nós Espíritos do Anti-Sistema.
Jesus foi, portanto, o primeiro tradutor do Evangelho, pois decodificou para nós o que não compreenderíamos sem Sua superior adequação.
Assim, o Evangelho que temos é o máximo que cada um de nós pode compreender da revelação definitiva do Céu de acordo com o estado evolutivo individual de cada um. Por isso existem tantas interpretações, tantas filosofias, tantas religiões, todas baseadas no mesmo Texto Sagrado.
A segunda tradução dos Evangelhos foi feita pelos próprios evangelistas, como nos lembra Emmanuel, visto que Jesus mesmo nada escreveu.
Deste modo, mesmo o os textos originais do Evangelho em seu idioma original já eram uma tradução. É Como se hoje após uma palestra de um orador qualquer, fôssemos transcrever sua palestra para o papel; por mais fiéis que fôssemos não conseguiríamos retratar exatamente o que foi dito pelo orador.
Quanto às versões atuais a questão se torna ainda mais complexa. Vejamos...
Jesus, ao que temos aprendido, em suas relações comuns com o povo, falava em aramaico, o que nos leva a crer que ele pensava em aramaico. Quando ele ia comentar as escrituras nas sinagogas o idioma usado era o hebraico, pois a leitura das escrituras só podia ser feita em hebraico. Se, portanto, ele quisesse se comunicar com o povo a respeito da Torá, tinha que ler em hebraico e já traduzir para o aramaico.
À exceção dos primeiros manuscritos de Mateus, escritos em aramaico, os Evangelhos que chegaram para nós, mesmo o de Mateus, foram escritos em grego; ou seja, os evangelistas tiveram que, já na origem traduzir os pensamentos e palavras de Jesus para outro idioma, neste caso o grego.
Àquele tempo não existia a imprensa mecânica, nem, muito menos, a editoração eletrônica, e para que os evangelistas dessem a conhecer a sua obra, não bastava dar um comando no computador para que fossem impressas milhares de cópias idênticas, todas no mesmo formato.
As reproduções tinham de ser feitas manualmente, por copistas nem sempre preparados para tal mister. Os textos eram escritos com palavras sem acentuação gráfica, sem pontuações, e até mesmo sem separação entre elas, o que dificultava em muito o ato de reproduzir cópias, aumentando bastante a chance de erro.
Imaginemos o que poderia acontecer, e o que aconteceu, quando um copista enganava-se no ato de copiar às vezes excluindo uma ou outra palavra, e esta cópia viesse a servir de matriz para inúmeras outras…
Acontecia ainda que alguns estudiosos dos manuscritos realizavam “notas explicativas” ou “notas laterais” nos manuscritos, o que hoje conhecemos como notas de pé de página. Muitas destas notas foram incorporadas ao texto como se fizessem parte dos manuscritos originais.
As reproduções aconteceram assim por séculos, até o surgimento da imprensa.
Mais tardes os textos vieram a ser traduzidos para o latim, e depois para o alemão, francês, inglês, português, etc.
Sem contar os erros ocasionais, ou os interesses de teologias diversas, cada idioma tem as suas características e as suas figuras de linguagem. Deste modo, perguntamos, pode haver uma tradução perfeita dos livros do Evangelho? E o que é mais importante, há como interpretar seus ensinamentos ao pé da letra?
A princípio muitos podem desanimar dos estudos do Evangelho e dizerem que estamos tirando a autoridade dos textos atuais, mas não estamos.
Continuemos lembrando Emmanuel em sua resposta à questão inicial:
Importa observar que os Evangelhos são roteiro das almas, e é com a visão espiritual que devem ser lidos…
Acontece que o Evangelho é uma revelação divina, e Deus para fazer chegar até nós suas Leis, tem prepostos perfeitos, Espíritos dedicados encarregados de inspirar os homens nos momentos certos as realizações certas.
Apesar do respeito e admiração que temos a outros reveladores como Moisés, Buda, Lao Tse, entre outros, particularmente achamos que o Evangelho é de todas a mais importante revelação, deste modo, Os Espíritos evangelistas não faltariam, como não faltaram, no auxílio para que o essencial da Mensagem Superior de Jesus não sofresse qualquer perda.
E para que entendamos e nos apropriemos desta Sua Superioridade, basta nos aproximarmos dele “com intenção sincera de aprender”, aumentando nossa vibração e sintonia com as correntes mentais superiores, para assim alcançarmos cada vez mais a compreensão das lições que dizem respeito ao Reino de Deus ou ao Sistema original para o qual fomos criados.
Assim, continuemos ouvindo Emmanuel:
Sendo razoável estimarmos, em todas as circunstâncias, os esforços sinceros, seja qual for o meio onde se desdobram, apenas considerarmos que, em todas as traduções dos ensinamentos do Mestre Divino, se torna imprescindível separar da letra o espírito.
sábado, agosto 26, 2006
No Princípio
Assim inicia o evangelista o quarto Evangelho. Enquanto outros iniciam apresentando-nos Jesus, a origem de sua família, seu nascimento e as ocorrências deste, o autor de João nos fala da origem profunda do Cristo. Em uma tradução mais fiel, “no princípio: o Logos”.
A expressão no princípio, em grego en arkê, em hebraico, beréshit, nos fala de uma origem; alguns analistas têm visto este princípio desvinculado de qualquer idéia de tempo, seria assim atemporal; Deus é eterno e incriado, deste modo a criação seria eterna, algo que jamais começou. Todavia podemos também entender este princípio como um momento escolhido no tempo para iniciar um relato. Dizemos assim, pois desta forma fica mais fácil a compreensão de algo que transcende o nosso entendimento: a origem de tudo.
Assim, temos o princípio de acordo com o estado evolutivo individual de cada um. Para uns a vida começa com o nascimento físico, outros aceitam com facilidade a pré-existência da alma. Entre estes últimos há os que crêem que a vida inteligente só acontece a partir do reino animal ou hominal, entretanto há aqueles que já vêem o princípio inteligente no mineral, ou até mesmo antes deste.
O evangelista escreveu em grego, todavia, pensava em hebraico, daí a importância de analisarmos este beréshit. De que princípio fala o texto, da origem do universo material? Das dimensões tempo e espaço? Ou simplesmente da fundação de nosso Orbe? Como dissemos, cabe a cada um analisar de acordo com a sua possibilidade evolutiva.
Os rabinos observam que a primeira letra do alfabeto hebraico é o “aleph”. Esta simbolizaria Deus em sua unidade; “beth”, a segunda, a inicial de beréshit representaria assim, a dualidade. Portanto, beréshit (princípio), seria a entrada do universo na dualidade, a criação do mundo corpóreo.
No princípio: o Logos. Logos é uma palavra grega que foi traduzida como verbo, ou palavra. Todavia, seu correspondente hebraico davar, significa também inteligência, informação criadora. Deste modo logos não é verbo ou palavra em seu sentido habitual, mas a palavra criadora, o poder criador. Seria o espírito de Deus manifesto na criação, o Deus imanente.
Assim podemos entender melhor o primeiro versículo deste inspirado Evangelho:
“No princípio era o Logos e o Logos estava em Deus e o Logos era Deus.”
Façamos agora uma analogia deste versículo com versículo inicial do Gênesis:
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (Gn, 1: 1)
No texto original temos o nome Elohîms para designar o Deus que hoje conhecemos. Deus é único, singular, absoluto; porém Elohîms é plural. Segundo Chouraqui (1995, pág.31)[1], nas línguas semíticas, Elohîms é o termo genérico para designar o conjunto de divindades. Seriam assim, dentro da terminologia espírita, os Espíritos Puros, aqueles que segundo André Luiz realizam uma Co-Criação em plano maior. Relata-nos o autor espiritual:
“Nessa substância original, ao influxo do próprio Senhor Supremo, operam as Inteligências Divinas a Ele agregadas, em processo de comunhão indescritível…”
“(…)Essas Inteligências Gloriosas tomam o plasma divino e convertem-no em habitações cósmicas, de múltiplas expressões, radiantes ou obscuras, gaseificadas ou sólidas, obedecendo a leis predeterminadas…” (Evolução em Dois Mundos, cap. 1, 1ª parte)
Emmanuel também nos esclarece a respeito:
“Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias.” (À Caminho da Luz cap. 1)
Estas anotações estão em pleno acordo com o que nos ensinam os Espíritos na Codificação, em O Livro dos Espíritos encontramos:
“Deus não exerce ação direta sobre a matéria. Ele encontra agentes dedicados em todos os graus da escala dos mundos.” (Questão 536 letra b).
Portanto, quem constrói e formam os mundos físicos e materiais são os Espíritos destacados pelo Senhor Supremo para esta função, e Elohîms, Cristos, Logos, na verdade são nomes que expressam esses “agentes dedicados” que servem a Deus desde o princípio dos tempos.
A partir das ideais expostas neste texto colocamos a seguinte questão:
Informa-nos O Livro dos Espíritos na questão 17 que não é dado ao homem conhecer o princípio das coisas, que isto tudo ainda é para ele um mistério. E esta palavra repete-se por várias vezes nesta obra mostrando nossa incapacidade de compreensão. Porém, já podemos questionar algumas coisas que nos parecem claras.
Deus é Uno, sua Lei é imutável e sua criação tem um modelo único, não sendo possível que sua Lei determine que uma ocorrência aconteça ora de um jeito ora de outro.
Se assim é não podemos conceber que em sua origem o espírito tenha sido criado simples e ignorante. É preciso refletir sobre isso, e os espíritas têm de discutir esta questão. Pensamos que quando os espíritos assim disseram na questão 115 de “O Livro dos Espíritos” não estavam se referindo à origem e sim ao início de um ciclo evolutivo. A prova de que esta pode ser a realidade é que eles mesmos repetem várias vezes que o princípio das coisas ainda é para o homem um mistério.
Uma outra prova desta impossibilidade é que se os espíritos fossem criados simples e ignorantes e tivessem necessidade de passar pelo mundo material para chegarem à condição de Espíritos Puros, quem seriam os “agentes dedicados”, os Cristos, ou Construtores dos primeiros mundos físicos? E estes quando criados seriam habitados por quem? Teria Deus operado diretamente sobre a matéria no início da Criação e só depois parado de assim o fazer? Particularmente cremos que não.
Este não é um artigo de contestação, sinceramente não temos esse objetivo. Não gostamos de polêmica. A nossa proposta é simplesmente levar os Espíritas atuais a pensar sobre o assunto e ajudar-nos no eterno questionamento:
Quem somos, de onde viemos, para onde vamos?
[1] No Princípio (Gênesis).
Sem Ele: Nada!
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (João, 1: 2 e 3)
O Verbo é o Poder Criador. A partir deste entendimento podemos ver a Trindade de uma outra forma.
Deus é Espírito[1], a Fonte da Luz, dEle tudo emana. O Poder Criador, a Ação Criadora, o processo construtivo da gênese é o Pai, o Verbo. A obra criada, a Criação, é o Filho, o terceiro momento da Trindade.
Assim temos: Espírito - Pai - Filho
Deus está em tudo, tudo está em Deus. “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos”.(Atos, 17: 28).
Depreendemos daí o princípio moral da Vida: Nada existe fora de Deus, e se Deus é amor nada existe fora do amor.
Tal princípio pode parecer uma filosofia essencialmente romântica, mas não é. Tudo o que não vibra de acordo com a Lei de amor é uma corrupção da criação original que emana de Deus, é fruto do livre arbítrio dos espíritos, que são os seres inteligentes da criação (Conf. O Livro dos Espíritos Q. 76). Se não foi criação de Deus é, portanto, transitório, em determinado ponto se esgota por si mesmo e tende a voltar às origens. Acha-se neste fato a gênese da dor.
“Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”.(2Coríntios, 3: 17)
Amor pressupõe liberdade, constrangimento e amor não combinam entre si. Conforme as palavras do apóstolo onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade; deste modo, os espíritos, que são criação de Deus, são livres para fazerem a opção pelo bem ou pelo mal. Os que seguem a trilha do bem são os que andam de acordo com a Lei do amor. Quando Jesus ensinou o amor aos semelhantes ensinou o princípio da ciência que liberta o Ser da escravidão do erro; conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (João, 8: 32), afirmou, mostrando-nos assim, que o amor é a verdade absoluta que impera na criação, é o Verbo do princípio sem o quê nada existe.
[1] João 4, : 24