quarta-feira, janeiro 21, 2026

A Prece da Salve Rainha: Uma Visão Espírita


A Prece de Um Capelino
Introdução Histórica
A oração Salve Rainha (Salve Regina) é uma das mais antigas expressões da espiritualidade cristã ocidental. Sua origem remonta ao século XI, atribuída ao monge beneditino Hermann Contratu (1013–1054), cuja vida marcada pelo sofrimento físico se reflete no tom pungente da prece. A célebre expressão "vale de lágrimas" traduz não apenas sua dor pessoal, mas também o sentimento coletivo de uma sociedade medieval assolada por pestes e guerras.
No século XII, São Bernardo de Claraval teria acrescentado espontaneamente as invocações finais — "Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria" — reforçando o caráter afetivo da oração. Com o tempo, a Salve Rainha integrou a liturgia oficial da Igreja e se difundiu em procissões, irmandades e até nas grandes navegações.
Mais do que uma oração mariana, tornou-se um hino universal de súplica e esperança. Termos como "advogada", "degredados filhos de Eva" e "vale de lágrimas" revelam o imaginário medieval de exílio e intercessão, mas também oferecem chaves simbólicas que dialogam com leituras espirituais contemporâneas — como a visão espírita que será explorada neste estudo.

Latim (Texto Original)Português (Tradução Literal)
Salve, Regina, Mater misericordiæ,Salve, Rainha, Mãe de misericórdia,
vita, dulcedo, et spes nostra, salve.vida, doçura e esperança nossa, salve.
Ad te clamamus, exsules filii Hevæ.A vós clamamos, os exilados filhos de Eva.
Ad te suspiramus, gementes et flentesA vós suspiramos, gemendo e chorando
in hac lacrimarum valle.neste vale de lágrimas.
Eia ergo, advocata nostra,Eia, pois, nossa advogada,
illos tuos misericordes oculos ad nos converte.esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
Et Jesum, benedictum fructum ventris tui,E Jesus, bendito fruto do vosso ventre,
nobis post hoc exsilium ostende.a nós, depois deste exílio, mostrai.
O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria.Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria.

Análise Espírita Verso por Verso
"Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve."
Maria é evocada como Rainha e Mãe de Misericórdia. No espiritismo, "Rainha" não é título de poder terreno, mas símbolo da soberania espiritual do amor. Humberto de Campos, em Boa Nova, relata que Jesus a recebeu no plano espiritual e a designou como Rainha dos Anjos, confirmando sua missão de amparo.
Na cruz, ao dizer a João "Eis aí tua mãe" (Jo 19:26-27), Jesus universalizou a maternidade de Maria, tornando-a mãe de todos os seguidores. Kardec, em O Livro dos Espíritos (Q 886), lembra que a verdadeira caridade é benevolência e indulgência; Maria personifica essa caridade em sua forma mais elevada.
"A vós bradamos, os degredados filhos de Eva."
No catolicismo, refere-se ao pecado original. No espiritismo, pode ser lido como símbolo dos espíritos exilados de Capela, conforme Emmanuel em A Caminho da Luz. O "brado" é o clamor intenso do exilado, revelando sua saudade de mundos mais elevados e sua busca por misericórdia.
Kardec, em A Gênese, explica que os Espíritos rebeldes são encaminhados a mundos inferiores para se regenerarem. Este verso confirma a leitura da oração como prece do exilado.
"A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas."
O "vale de lágrimas" é metáfora da Terra como mundo de expiação. Emmanuel descreve que os capelinos, ao serem desterrados, viveram a dor da separação de sua pátria espiritual.
No espiritismo, o sofrimento não é castigo, mas consequência natural das imperfeições e oportunidade de aprendizado. Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. V), ensina que a dor é remédio que purifica. Este verso mostra o desabafo da alma que, mesmo em meio às lágrimas, mantém viva a esperança de reencontro com a luz.
"Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei."
Maria é chamada de advogada, não no sentido jurídico moderno, mas como intercessora espiritual que suaviza o peso da justiça divina. Kardec, em O Livro dos Espíritos, explica que os Espíritos superiores influenciam o mundo material e inspiram os homens ao bem.
Esse título pode ser entendido como uma participação de Maria nas promessas do Cristo feitas aos capelinos antes do desterro. Emmanuel, em A Caminho da Luz, explica que o Cristo prometeu amparo e enviaria missionários ao longo dos milênios. Maria, como ministra e parceira do Cristo, estaria junto dele desde essa época, assumindo a missão de acompanhar os exilados da Terra.
Os "olhos misericordiosos" simbolizam essa atenção constante: o olhar compassivo que nunca abandona os que sofrem, sustentando-os em suas provas e lembrando que, mesmo no desterro, há sempre amparo espiritual.
"E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, o bendito fruto do vosso ventre."
O "desterro" é a condição do espírito em mundos inferiores. Para os capelinos, é o afastamento de sua pátria espiritual. O pedido para "mostrar Jesus" é o anseio pelo reencontro com o Cristo, não apenas como visão física, mas como integração espiritual.
Jesus é o "fruto bendito" não apenas do ventre físico de Maria, mas de sua maternidade espiritual, que se estende a toda a humanidade. Emmanuel lembra que todos os povos esperavam o Cristo, e Maria foi o canal escolhido para trazê-lo ao mundo.
"Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria."
Este fecho concentra três atributos que definem a grandeza de Maria: clemência, piedade e doçura. Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XV), afirma que a caridade é fundamental para evolução moral. Maria é lembrada como espírito de altíssima hierarquia, cuja missão é irradiar ternura e amparo à humanidade.
Para os exilados, é a certeza de que, mesmo em meio às lágrimas, há sempre um olhar compassivo que os conduz ao Cristo.
Maria como Ministra do Cristo
Na leitura espírita, Maria não é apenas a mãe física de Jesus, mas um Espírito de altíssima hierarquia, cuja missão se estende muito além da Palestina do século I.
  • Humberto de Campos, em Boa Nova: descreve que, após sua desencarnação, Maria foi recebida por Jesus e designada como Rainha dos Anjos, confirmando sua função de liderança espiritual.
  • Emmanuel, em A Caminho da Luz: explica que o Cristo sempre contou com colaboradores fiéis e ministros dedicados para executar o plano divino na Terra. Maria pode ser vista como uma dessas colaboradoras, cuja missão é irradiar amor e misericórdia.
  • Kardec, em O Livro dos Espíritos, lembra que os Espíritos superiores são enviados para guiar a humanidade. Maria representa o arquétipo do amor materno universal, sendo um dos canais mais poderosos da misericórdia divina.
Assim, quando a oração a invoca como Rainha e Mãe de Misericórdia, podemos compreender que não se trata apenas de um título devocional, mas do reconhecimento de sua missão cósmica: acolher os exilados, sustentar os peregrinos da Terra e conduzi-los ao Cristo.
Conclusão
A Salve Rainha, sob a ótica espírita, pode ser lida como a prece do exilado. Cada verso traduz o drama espiritual dos espíritos que, afastados de mundos mais elevados, vivem na Terra como campo de provas e expiações.
Maria surge como mãe universal, Rainha do amor e da misericórdia, cuja missão transcende religiões e se estende ao amparo da humanidade inteira. Como ministra do Cristo, ela é presença viva das promessas divinas, acompanhando os exilados e conduzindo-os à esperança e à luz.
 
REFERÊNCIAS
  • KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Brasília: FEB, 2007.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 127. ed. Brasília: FEB, 2008.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 91. ed. Brasília: FEB, 2009.
  • XAVIER, Francisco Cândido. A caminho da luz: história da civilização à luz do Espiritismo. Pelo Espírito Emmanuel. 37. ed. Brasília: FEB, 2009.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 36. ed. Brasília: FEB, 2008.
 
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