sexta-feira, abril 02, 2010

Pluralidade dos Mundos Habitados e Plano Espiritual


Introdução

A Doutrina Espírita dá condição de ampliar em muito o entendimento do ensinamento de Jesus, quando nos disse : “Na casa de meu Pai há muitas moradas”[1].

É que, de acordo com a diversidade dos estados evolutivos da alma, esta encontra morada física ou espiritual apropriada às suas condições. Portanto, as “moradas da casa do Pai”, são os diferentes estados em que se encontra o Espírito após o desenlace.

E como a Codificação também informa ser a nossa evolução feita em vários mundos, e que o Universo é a reunião destes infinitos mundos, essas moradas podem ser entendidas também como cada planeta que forma este Universo, que é a Casa do Pai.

É por este prisma que procuramos estudar este tema, mostrando a lógica do pensamento kardequiano.

Diferentes Estados do Espírito Após o Desencarne

Se podemos dizer que há uma preocupação constante em todas as criaturas, esta preocupação é com o futuro da alma após a morte física.

Em todos os tempos, desde que foi desenvolvido no homem a faculdade do raciocínio, esta inquietação quanto ao seu vir a ser, é motivo de muitas dissensões. Segundo algumas religiões, há um lugar para aqueles que fizeram o bem, e outro para os que não o fizeram. Sendo que são eternos estes ambientes, e localizam-se na parte superior e inferior da Terra. Outros de nossos irmãos, entendem que após a morte, a alma fica aguardando o dia do juízo, em que será decidido o seu futuro de acordo com a forma como viveu.

A Doutrina Espírita ensina que no instante do desencarne, a alma volta ao plano espiritual, conservando sua individualidade, e que normalmente não reencarna logo depois de haver se separado do corpo. Esse estado do Espírito é chamado de erraticidade, isto é, estado do Espírito sem corpo físico enquanto aguarda a próxima encarnação.

O ensino dos Espíritos tem mostrado ainda que há no Universo inumeráveis mundos de constituição material ou menos material, e que de acordo com a condição em que se encontra o Espírito, este é recebido.

“As alegrias e as percepções do Espírito não procedem do meio que ele ocupa, mas de suas disposições pessoais e dos progressos realizados (…)”[2]


Isto significa que o “céu” ou o “inferno” acham-se dentro daquele que o possui. É que o Espírito envolvido por seu próprio magnetismo, cria para si um corpo fluídico que irá captar a essência de seu estado psíquico e vibracional. Isto significa que o “céu” ou o “inferno” acham-se dentro daquele que o possui. É que o Espírito envolvido por seu próprio magnetismo, cria para si um corpo fluídico que irá captar a essência de seu estado psíquico e vibracional.
Isso irá fazer com que as almas se agrupem de acordo com o grau de maior ou menor pureza que tenham atingido, no mundo espiritual a situação do Espírito está diretamente ligada à sua constituição fluídica, ou aliás, esta é que é definida por aquela.

Por isso Jesus afirmou:

“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu (…)” [3]

Portanto, não é um tribunal que julga, mas sim o Espírito que, conforme sua condição moral, determina a recompensa que receberá após o desencarne. Isso resulta na formação de verdadeiras sociedades no plano espiritual, cujo funcionamento é baseado na condição daqueles que as compõem.

Contrariamente ao que conhecíamos até então, a Codificação Espírita informa-nos que a vida do Espírito evoluído não é ociosa, mas extremamente ativa. O seu transporte é feito tendo por base sua condição mental. Seu corpo é de tal forma rarefeito, que se torna invisível aos Espíritos inferiores. Seus sentidos não são dados por órgãos materiais, mas por todo o seu Ser, sendo suas percepções mais precisas e reais que a dos encarnados ou mesmo dos desencarnados menos evoluídos.

Não têm necessidades alimentares ou de repouso, isto porque a matéria não os influencia.

Os Espíritos mais atrasados, ao contrário, levam consigo suas necessidades, seus vícios e suas preocupações. Não podendo abandonar seus problemas devido à sua materialidade, participam da vida do homem comum intrometendo em seus afazeres, e participando de seus prazeres. Suas paixões, determinando seus desejos, são alimentadas pelo contato com os valores transitórios, e devido à sua incapacidade de gerenciar tais sentimentos, sofrem pesadas torturas que os atrasam ainda mais.

Concluindo, temos então:

A situação do Espírito após o desencarne é definida por ele próprio quando encarnado.

Sua vivência, de acordo com os princípios evangélicos, o liberta.

A valorização das coisas materiais acima de suas necessidades o escraviza.

As coisas se dão desta forma, porque: 

“a alma enquanto encarnada, condiciona-se a fatores orgânicos que, por sua vez, estão sob o império de leis biológicas específicas. Fora do corpo, outras são as leis e, por conseguinte, outros elementos de equilíbrio e funcionamento.
Daí as naturais dificuldades com que, em novo mundo vibratório, bem diverso do nosso, aqui no plano físico, lutamos todos nós ao trocarmos a densidade da matéria (envoltório físico) pela fluidicidade dos planos espirituais.” [4]

Mundo Espiritual

Dentre as muitas revelações trazidas pelo Espiritismo, a existência de um mundo dos Espíritos, merece de nossa parte um maior destaque.

O mundo das inteligências incorpóreas, apesar de interpenetrar-se com o nosso (físico), é um mundo à parte. É vida em outra dimensão, caracterizada por organização e constituição diferente de tudo o que conhecemos por aqui.

Constitui-se na morada ou pousada dos Espíritos, formando colônias ou comunidades de transição, onde se reúnem de forma homogênea baseados em laços de afinidade. Afinidade caracterizada pela elevação moral dos elementos ali vinculados.

Através das informações obtidas via mediúnica, notamos a existência de várias esferas de vida no Mundo Maior, cada uma com sua vibração característica, formando assim mundos diferenciados em muitas faixas de elevação.

Alguns autores classificam várias delas denominando-as como: 

Abismo: Região de grandes sofrimentos, devido à recalcitrância no violar as Leis Divinas.

No livro “Memórias de um Suicida”[5], recebido mediunicamente por Ivonne do Amaral Pereira, o Espírito comunicante dá uma ideia do que seja esta região, e dos padecimentos pelos quais passou, devido à escolha que fez, usando o livre arbítrio e optando pelo autoextermínio.

Trevas: Esta é uma região do plano espiritual que, como o próprio nome diz, é desprovida de qualquer luminosidade.

Os Espíritos vinculados a ela acham-se envolvidos por vibrações malignas, e normalmente fazem o mal por prazer. O ponto que o diferencia do abismo, muitas vezes não percebemos, mas como acreditamos que o grau de culpa está diretamente ligado ao grau de conhecimento e de insistência no erro, acreditamos que no abismo encontram-se Espíritos que têm mais informações, e por isso mais culpados.

Como citação bibliográfica, o livro “Libertação”[6], de André Luiz, mostra vários lances desta esfera.

Crosta Terrestre: A Terra é um mundo ainda inferior habitado por Espíritos inferiores. Muitos desses Espíritos, quando desencarnados, ficam ligados ao planeta em busca da satisfação de seus vícios e apetites mais grosseiros, formando assim em volta do nosso orbe uma esfera espiritual caracterizada por vibrações altamente deletérias.

O livro “Nas fronteiras da Loucura”, ditado pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, narra episódios passados durante o período de carnaval, nos dando uma clara ideia dos acontecimentos espirituais que envolvem nossa Terra, nesta ocasião.

Umbral: “É uma região espiritual que começa na crosta terrestre, na qual se concentra tudo o que não tenha finalidade para a vida superior. É região de esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena.” [7]

No livro Nosso Lar, ditado mediunicamente por André Luiz, Lísias faz a seguinte afirmativa sobre o umbral:

É, portanto, uma região semitrevosa habitada por Espíritos revoltados de toda espécie e envoltos por tendências e desejos inferiores.

Zonas de Transição: São colônias Espirituais muitas vezes situadas no próprio Umbral. Funcionam como verdadeiros oásis nos desertos. Espíritos ainda vinculados a problemas conscienciais, mas já dignos de merecimentos são atendidos nestas colônias buscando refazimento com vistas ao reajuste que se faz necessário.

Nosso Lar, é uma destas colônias, e é muito bem descrita na obra de André Luiz, não só no livro de mesmo título, mas em toda série que o segue.

Devido à importância desta colônia para o melhor entendimento do que seja a vida no plano espiritual, citaremos parte do estudo feito pelos Espíritos André Luiz e Lúcius, no livro Cidade no Além.

A cidade espiritual “Nosso Lar”, segundo informação de André Luiz, foi fundada por portugueses desencarnados no Brasil, no século XVI. Está localizada sobre o estado do Rio de Janeiro, entre as cidades do Rio de Janeiro, Campos e Itaperuna.

Na época em que nosso Amigo Espiritual nos brindou com esta magnífica obra, a cidade contava com cerca de um milhão de habitantes.

Sua administração é feita pela Governadoria, órgão central, e está assessorada por seis ministérios, a saber: Ministério da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina, que atuam nas áreas definidas pelo próprio nome, sendo cada Ministério dirigido por doze ministros.

Os trabalhadores de “Nosso Lar” moram sempre perto de seu trabalho, de tal forma que quando um trabalhador é transferido de ministério, é também transferido de residência.

Como se trata de uma colônia espiritual, a justiça se manifesta em maior intensidade. Veja a questão da moeda. O bônus-hora é como se fosse a moeda de “Nosso Lar”. Para cada hora trabalhada, o trabalhador recebe um bônus, e é com o acúmulo de bônus que os bens são adquiridos.

Poderíamos aqui enumerar muitas outras características desta colônia, mas o mais importante é sabermos que, do outro lado da vida, não existe a ociosidade para aqueles que querem evoluir; que há uma hierarquia espiritual que pela afinidade somos atraídos, e que, acima de tudo, a vida continua.

Esferas Superiores: São regiões espirituais caracterizadas pela felicidade e pelo trabalho em favor do próximo. Como consequência, estas regiões são habitadas por Espíritos de grande elevação moral, ou seja, os bons Espíritos e os Espíritos Superiores.

André Luiz em suas obras, muitas vezes fala de Espíritos destas regiões, que foram visitar “Nosso Lar”, mas para que tal fato ocorresse, tiveram que adensar o perispírito.

Esferas Resplandecentes: “Regiões espirituais onde imperam a bondade, a confiança e a felicidade verdadeira”. No livro Renúncia, ditado pelo Espírito Emmanuel ao médium Francisco Cândido Xavier, assim é descrita a paragem espiritual a que estava vinculado o Espírito Alcíone:

“Pouco depois, ei-la que aporta em portentosa esfera, inconfundível em magnificência e grandeza. O espetáculo maravilhoso de suas perspectivas excedia a tudo que pudesse caracterizar a beleza, no sentido humano. A sagrada visão do conjunto permanecia muito além da famosa cidade dos santos, idealizada pelos pensadores do Cristianismo. Três Sóis rutilantes despejavam no solo arminhoso oceanos de luz mirífica, em cambiâncias inéditas, como lampadários celestes acesos para edênico festim de gênios imortais. Primorosas construções, engalanadas de flores indescritíveis, tomavam a forma de castelos talhados em filigrana dourada, com irradiações de efeitos policromos. Seres alados iam e vinham, obedecendo a objetivos santificados, num trabalho de natureza superior, inacessível à compreensão dos terrícolas.”[9]

Referências Evangélicas - Existem muitas referências evangélicas que tratam do tema que ora estudamos: “O Mundo Espiritual.”

Além da já citada neste estudo, em que Jesus nos afirma que “há muitas moradas na Casa do Pai”[10] gostaríamos de citar a Carta de Paulo aos Efésios.

Nesta carta o apóstolo dos gentios usa a palavra grega “epouranios” por cinco vezes. Alguns tradutores a traduzem como “céus”.

Céus em grego é “ouranos”. Em Efésios temos “epouranos = epo + ouranos donde epi= sobre + ouranos = céus, significando nos lugares celestiais”[11]

Em cada vez que Paulo usa esta expressão ela tem um significado podendo ser compreendida como morada de Deus e do Cristo, morada dos Espíritos redimidos, dos seres angelicais de todas as ordens, etc.

Era uma crença do judaísmo a existência de vários céus. “A palavra ‘Céus’ em hebraico é plural, Shamaim. Assim, é que Paulo fala em II Coríntios, 12: 2 e 3 que foi arrebatado ao terceiro Céu.”[12]

Até aí nada de novo, pois em todas estas situações a teologia cristã vê “epouranios” como sinônimo de céus. Todavia, em Efésios, 6: 12 Paulo fala em “seres espirituais malignos” que habitam as “regiões celestiais” (epouranios). Ou seja, se são “seres malignos” não podiam habitar os céus.

Portanto, podemos concluir que “epouranios” significa o que hoje no vocabulário espírita entendemos como “mundo espiritual”, “plano espiritual”; e como é sabido por todo aquele que estuda a Doutrina dos Espíritos, conforme mostramos neste estudo, vários são os níveis deste “plano espiritual”.

Como vemos, Paulo de Tarso e os judeus do tempo de Jesus já sabiam da existência do mundo dos Espíritos e a Bíblia comprova em vários pontos esta realidade.

 

Conclusão

“O ensino dos Espíritos sobre a vida de além-túmulo faz-nos saber que no espaço não há lugar algum destinado à contemplação estéril, à beatitude ociosa. Todas as regiões do espaço estão povoadas por Espíritos laboriosos. Por toda parte, bandos, enxames de almas sobem, descem, agitam-se no meio da luz ou na região das trevas.
Em certos pontos, vê-se grande número de ouvintes recebendo instruções de Espíritos adiantados; em outros, formam-se grupos para festejarem os recém-vindos. Aqui Espíritos combinam os fluidos, infundem-lhes mil formas, mil coloridos maravilhosos, preparam-nos para os delicados fins a que foram destinados pelos Espíritos superiores; ali ajuntamentos sombrios, perturbados, reúnem-se ao redor dos globos e os acompanham em suas revoluções, influindo, assim, inconscientemente, sobre os elementos atmosféricos.
Espíritos luminosos mais velozes que o relâmpago, rompem essas massas para levarem socorro e consolação aos desgraçados que os imploram. Cada um tem o seu papel e concorre para a grande obra, na medida de seu mérito e de seu adiantamento. O Universo inteiro evolui. Como os mundos, os Espíritos prosseguem seu curso eterno, arrastados para um estado superior, entregues a ocupações diversas. Progressos a realizar, ciência a adquirir, dor a sufocar, remorsos a aclamar, amor, expiação, devotamento, sacrifício, todas essas coisas os estimulam, os aguilhoam, os precipitam na obra; e, nessa imensidade sem limites, reinam incessantemente o movimento e a vida. A imobilidade e a inação é o retrocesso. É a morte. Sob o impulso da Grande Lei, seres e mundos, almas e sóis, tudo gravita e move-se na órbita gigantesca traçada pela vontade divina.” [13]

Diferentes Categorias de Mundos Habitados

 

Quando questionamos a possibilidade de vida em outros planetas, somos obrigados a raciocinar com a lógica e o bom senso.

Analisando os atos de um homem de bem, vemos que ele não toma nenhuma atitude ao acaso, mas tudo o que faz é elaborado de acordo com os seus princípios. Se assim age um simples homem de bem, como então agiria o Criador em relação à sua própria obra? Seria fruto do acaso, ou haveria em tudo, planejamento?

O bom senso nos mostra que o acaso não existe, e que a criação foi e é obra de um rigoroso planejamento.

Se analisarmos o Universo só sob o ponto de vista de existência da nossa galáxia, a Via Láctea, chegaremos à conclusão que só em números de Sóis podemos contar aproximadamente 40 bilhões. E os planetas relativos a esses sóis, quantos serão ao todo? E isto estamos falando só da nossa galáxia, e se aventarmos às “bilhões” de galáxias? Por que então, o Criador que nada fez ou faz ao acaso, iria criar tantos ambientes planetários?

Desta forma, chegamos à conclusão que seria menosprezar demais a capacidade de Deus, se supuséssemos somente a nossa minúscula Terra habitada.

É raciocinando desta maneira, que a Doutrina Espírita pode afirmar serem todos os globos que se movem no espaço, habitados. [14]


“É a mesma a constituição física dos diferentes globos?” Kardec fez esta pergunta aos Espíritos, ao que eles nos responderam:

“Não; de modo algum se assemelham.” [15]

E, é fácil de entender o porquê. Se somos Espíritos, cada qual no seu estágio evolutivo, não temos todos as mesmas necessidades. Se não as temos iguais, logicamente vivemos em ambientes diferentes. Assim sendo, os mundos são diferentes, porque diferentes são os que os habitam

Devido à infinidade de mundos, não podemos classificá-los quanto à sua evolução de uma maneira absoluta, mas Kardec oferece uma divisão, que nos permite entender melhor o assunto:

Mundos Primitivos - São os mundos destinados aos Espíritos em sua infância, ou seja, no início de sua evolução.

 

“Os seres que os habitam são, de alguma sorte, rudimentares: eles têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza; seus instintos não são temperados por nenhum sentimento de delicadeza ou de benevolência, nem pelas noções do justo e do injusto(…)” [16]

A justiça, conforme a conhecemos hoje, não faz parte do entendimento deles, o que impera é a lei do mais forte.

Além da falta de desenvolvimento moral, temos como nenhum o desenvolvimento científico e intelectual.

Mundos de Expiações e Provas - Nestes mundos a característica básica é ainda o predomínio do mal sobre o bem. A superioridade da inteligência de alguns homens mostra que este não é um mundo primitivo. Mas essa inteligência é muitas vezes usada como forma de dominação e de desvirtuamento.

As qualidades inatas são provas que estes Espíritos já viveram antes, realizando muitas vezes em outros mundos, seu progresso. Mas são ainda bastante imperfeitos, e por isso estão sujeitos a provas e expiações, como forma de atingir a meta desejada: a perfeição.

A Terra, como sabemos, é um destes planetas de provas e expiações. É conforme o dizer de Emmanuel, “uma abençoada escola, onde se regenera o Espírito culpado e onde ele se prepara, demandando glorioso porvir.”[17]

Mas a Misericórdia Divina não desampara seus filhos. Periodicamente reencarnam nesses mundos, missionários do bem, Espíritos encarregados de vivenciar a moral em toda sua plenitude como forma de fixar o bem na intimidade das criaturas.

Mundos Regenerados - Os mundos regenerados servem de transição entre os inferiores e os superiores. Nesses mundos os Espíritos reencarnantes, apesar de acentuados progressos, ainda se acham sujeitos a provas, mas sem as angústias das expiações. Sendo o homem ainda materializado, essas provas vão trabalhando nele a desmaterialização que se faz necessária para entrada em mundos mais evoluídos.

Há nestes mundos, por parte de sua Humanidade, o desejo da prática do bem. Livre que está dos Espíritos ligados ao mal, o homem acha-se desanuviado, e o clima psíquico é bem tranquilo.

“Contemplai, pois, à noite, à hora do repouso e da prece, a abóbada azulada e, das inúmeras esferas que brilham sobre as vossas cabeças, indagai de vós mesmos quais as que conduzem a Deus e pedi-lhe que um mundo regenerador vos abra seu seio, após a expiação na Terra.”

Santo Agostinho [18]

Mundos Superiores - Nesses mundos, as condições de vida moral e material são bens diversas às da Terra. O corpo não é material como o nosso. O “Modus Vivendi” dos Espíritos ali vinculados faz com que eles não estejam sujeitos nem às doenças, nem às deteriorações da matéria.

A infância nestes mundos é menor ou quase nula; a vida é proporcionalmente mais longa, a morte já não causa medo, e a linguagem é feita pela transmissão do pensamento. “O homem não procura elevar-se acima do homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se.”[19]

O melhor é saber que viver num destes mundos não é privilégio dos eleitos, mas destino de todos nós, assim que nos purificarmos pelo trabalho e serviço ao próximo. Vivenciando, deste modo, aquele mandamento de Jesus, quando disse:

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós.”[20]

Final dos Tempos – Visão Espírita

Há por parte de grande parcela da Humanidade, incluindo a classe dos espíritas, a preocupação com as previsões catastróficas baseadas nos textos bíblicos e em próprias comunicações espíritas, sob o fim do mundo.

O que diz a Doutrina Espírita sobre isto? A Humanidade corre o risco de desaparecer da Terra? O mundo em que vivemos desaparecerá? E o juízo final? E a volta de Jesus, como se dará?

Os Espíritos são claros: Antes dizíamos: aproximam-se os tempos, agora dizemos: Os tempos são chegados.

Kardec, no livro “Obras Póstumas”, transcreve algumas comunicações dos Espíritos, em que eles falam deste assunto, e eles são claros em dizer que tudo o que está nos Evangelhos terá de cumprir-se, e já está se cumprindo. O que temos de ter é discernimento para tirarmos o espírito da letra na interpretação dos textos sagrados.

Como já dissemos anteriormente, toda a Criação Divina segue um programa pré-estabelecido, e as Leis de Deus consequentemente não serão subvertidas.

Não haverá fim do mundo material, pelo menos por agora, como muitos têm anunciado, o que acontecerá é o fim de uma era, de uma etapa do processo evolutivo. O que se prepara é o fim do mundo amoral, aquele em que os interesses mundanos vêm à frente dos interesses definitivos do Espírito.

Essa mudança não será brusca, e nem acontecerá no ano dois mil e doze, ela já está acontecendo e continuará ainda por muitos anos. O processo é gradual como toda transformação da Natureza, não haverá cataclismos nem revoluções capazes de exterminar a Criação Divina. Haverá uma transformação que conduzirá a Terra, de mundo

de provas e expiações, a mundo de regeneração, mas estas não serão simplesmente transformações externas, mas sim no interior dos próprios homens. A luta no campo das ideias, nos conflitos do relacionamento interpessoal, criará uma nova ética baseada na Verdadeira Moral, e esta será a tônica do novo mundo. O que fará haver mais ou menos dor, é a própria conduta do homem diante das mudanças que se fazem necessárias, ou seja, será diretamente proporcional à sua aceitação ou à sua rebeldia.

Mas podemos perguntar, como se fará a substituição desta geração por outra mais virtuosa?

Para que haja felicidade na Terra, é preciso que os Espíritos que a habitam sejam afinados com o Bem, portanto, é preciso que aconteça uma limpeza em nosso orbe, ou seja, que os Espíritos recalcitrantes no mal sejam levados para outros mundos que se acham mais atrasados em relação ao nosso, onde expiarão seus erros e aprenderão com o “suor do seu rosto”, a não mais transgredir às Leis Divinas.

Entretanto, esse transporte não será via discos voadores ou planeta chupão, como muitos apregoam, eles serão transportados por meios espirituais e de forma natural.

Só para ilustrar, lembremos de que isto já aconteceu com relação à Terra, no entanto, ela, no momento, estava em condição de receptora destes espíritos, conforme narra Emmanuel:

“Há muitos milênios um dos orbes da Capela, que guarda afinidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um dos seus extraordinários ciclos evolutivos. (…)
(…) Alguns milhões de Espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas daqueles povos cheios de piedade e virtudes, mas uma ação de saneamento geral os alijaria daquela humanidade (…)
As grandes comunidades espirituais, diretoras do Cosmos, deliberaram, então, localizar aquelas entidades, que se tornaram pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua, onde aprenderiam a realizar, na dor e nos trabalhos penosos do seu ambiente, as grandes conquistas do coração (…)” [21]

Desta forma, podemos afirmar que o tempo é de tranquilidade e de construção de um novo Ser baseado nos ensinamentos evangélicos. O juízo final não é acontecimento de um dia, mas de todos os instantes em que se faz necessário o autoconhecimento, e a elaboração por nós mesmos do caminho a seguir.

Não nos inquietemos, devemos sempre lembrar de que neste planeta há governo, e que este condutor não é ninguém mais nem menos que Jesus, o Cristo de Deus.

 





[1] João, 14: 2
[2] DENIS, Léon. Depois da Morte, 18a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1994, cap. XXXIII
[3] Mateus, 18: 18
[4]PERALVA, Martins. O Pensamento de Emmanuel. 5a ed., Brasília, FEB, 1994, cap. 5
[5] PEREIRA Yvonne do Amaral. Memórias de Um Suicida, Rio de Janeiro, FEB, 1955
[6] XAVIER, Francisco C./André Luiz. Libertação, Rio de Janeiro, FEB, 1949.
[7] O Reformador Agosto de 1996, artigo de Gil Restani de Andrade
[8]XAVIER, Francisco C./André Luiz. Nosso Lar. 41a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1994, cap. 12
[9] XAVIER Francisco C./ Emmanuel (Espírito). Renúncia, Rio de Janeiro, FEB, 1942,  pg. 25 e 26
[10] João, 14: 2
[11] Nota de Severino Celestino em E mail trocado com o autor do presente texto.
[12] Idem.
[13] (DENIS Léon, Depois da Morte, 18ª ed. 1994), cap. XXXIV
[14] (KARDEC 1980),questão 55
[15] (KARDEC 1980), questão 56
[16] KARDEC Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, 104ª ed., Rio de Janeiro, FEB, 1991, cap. 3
[17] (XAVIER/Emmanuel [Espírito] 1991), cap XVI
[18](KARDEC, O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104ª ed. 1991), cap. 3
[19] (KARDEC, O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104ª ed. 1991), cap. 3
[20] João, 13: 34
[21] (XAVIER/Emmanuel [Espírito] 1980)cap. III

quarta-feira, março 03, 2010

Reencarnação

Reencarnação - Conceito e Visão de Outras Doutrinas Espiritualistas

Reencarnar quer dizer encarnar outra vez, ou seja, tomar de novo um corpo de carne.

Só pode aceitar a reencarnação quem aceita a existência do Espírito e a vida futura, porque aquele que duvida de uma destas duas afirmativas, não pode jamais aceitar a volta do Espírito a um outro corpo de carne. Logo para tratarmos deste assunto, pressuporemos que todos com quem estamos tratando, sejam defensores destas duas idéias.
Usa-se também o termo palingenesia para designar tal fato. Esta palavra é etimologicamente originária do grego: palin = de novo, e gênesis = geração; ou seja, nascer de novo.
A reencarnação é assunto tão antigo, que vários povos já a tinham como realidade, não só nos setores religiosos, mas também nos da Filosofia.
Podemos seguramente afirmar que a história da reencarnação se confunde com a própria história da evolução do pensamento religioso.

“Na Índia, desde remotíssima antigüidade, de que nos dão notícias os Vedas e o Bhagavad-Gitâ, o conhecimento da reencarnação era sobejamente divulgado através dos cantos imortais da formação moral e cultural do homem.” [1]
O Bramanismo e o Budismo nela se inspiraram.
Encontramos no Mazdeismo, antiga religião Persa, o Espírito encontrando a bem aventurança final, não sem ter antes passado por uma purificação progressiva através de provas expiatórias.
No Egito, a doutrina das transmigrações também era conhecida. Ao nascer, o egípcio era representado por duas figuras, uma era a sua personalidade e a outra seu duplo. Durante a vigília, as duas se confundem, mas durante o sono, ao passo que uma descansa, a outra se lança no mundo dos sonhos.
Na cultura grega, foi Pitágoras quem a introduziu após suas viagens realizadas junto aos egípcios e persas. Vamos encontrá-la ainda nos poemas órficos, em Sócrates, Platão, Empédocles etc.. Ela é afirmada com clareza no último livro da “República”, em “Fedra”, em “Timeu” e em “Fédon”.
“É certo que os vivos nascem dos mortos e que as almas dos mortos tornam a nascer” (Fedra).
“Alma é mais velha que o corpo. As almas renascem incessantemente do Hades para tornarem à vida atual.” (Fédon)
Sófocles como Aristófones também adotaram a mesma crença.
Virgílio, Ovídio e Cícero, pensadores romanos, infiltraram-na em suas lições. Virgílio, na “Eneida”, assevera que a alma, mergulhando no Letes, perde a lembrança das suas existências passadas.
Os druídas apoiavam toda a sua filosofia na justiça palingenésica.
A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição. A Bíblia dá reiteradas confirmações disto. Somente os Saduceus, que eram os materialistas da época, não criam nela. Mas as idéias dos judeus sob este ponto não eram muito claras. Acreditavam eles que o homem que vivera, podia renascer, mas não sabiam precisar como.
Os primeiros padres da Igreja, como Orígenes e S. Clemente de Alexandria, eram adeptos da idéia reencarnacionista. S. Gregório de Nysse chega a afirmar que há necessidade natural para a alma imortal de ser curada e purificada e que, se ela não o foi em sua vida terrestre, a cura se opera pelas vidas futuras e subsequentes. Todavia, a Igreja não podia conciliar seus dogmas e artigos de fé, armas imprescindíveis que eram para o poder desta instituição, com a justiça da doutrina reencarnacionista.
Assim sendo, no Concílio de Constantinopla em 553, os maiorais da Igreja tiraram definitivamente a idéia da reencarnação, toda aceita entre os primeiros Cristãos, de seu corpo doutrinário.
Com isto, o que a Igreja fez foi afastar ainda mais os homens de bom senso, do Criador, porque ao invés de uma doutrina simples e clara a respeito da imortalidade da alma e da vida futura, edificou todo um complexo conjunto de dogmas, lançando o homem na obscuridade e no completo desconhecimento de seu destino.
Desta forma, a reencarnação desaparece temporariamente das cogitações filosóficas ocidentais, ainda que alguns pensadores medievais tenham tido o atrevimento de entregar-se aos estudos destes conceitos. O que lhes valeram pela intolerância e ignorância religiosa, muitas vezes, a perda da própria vida.
Apesar da idéia reencarnacionista, como vimos, ser de todos os tempos, foi só nos meados do século XIX, com a Codificação Espírita, que tal doutrina recebeu uma explicação lógica e um inegável bom senso. A partir dos estudos dos pioneiros do Espiritismo, pudemos entender melhor sua fundamentação, sua justiça, seu mecanismo, e a comprovação bíblica deste misericordioso artigo da Grande Lei.

Justiça da Reencarnação

Em que se fundamenta? - Segundo os Espíritos codificadores, na resposta da questão 171 de O Livro dos Espíritos, a doutrina reencarnacionista se fundamenta na própria Justiça Divina.
Na análise do conteúdo desta resposta, verificamos que se não fosse a oportunidade reencarnatória, Deus estaria privado de um de seus atributos: a justiça, e consequentemente já não seria Deus.
Para facilitar o nosso raciocínio, citamos a seguir um texto em que Kardec disserta sobre a lógica da pluralidade das existências:
“Se não há reencarnação, só há, evidentemente, uma existência corporal. Se a nossa atual existência corpórea é única, a alma de cada homem foi criada por ocasião do seu nascimento, a menos que se admita a anterioridade da alma, caso em que caberia perguntar o que era ela antes do nascimento, e se o estado em que se achava não constituía uma existência sob forma qualquer. Não há meio termo: ou a alma existia, ou não existia antes do corpo. Se existia, qual a sua situação? Tinha ou não consciência de si mesma? Se não o tinha, é quase como se não existisse. Se tinha individualidade, era progressiva ou estacionária? Num e noutro caso, a que grau chegara ao tomar o corpo? Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, ou, o que vem a ser o mesmo, que antes de encarnar, só dispõe de faculdades negativas perguntamos:

1º Porque mostra a alma aptidões tão diversas e independentes das idéias que a educação lhe fez adquirir?

2º Donde vem a aptidão extra normal que muitas crianças em tenra idade revelam, para esta ou aquela arte, para esta ou aquela ciência, enquanto outras se conservam inferiores ou medíocres durante a vida toda?

3º Donde, em uns, as idéias inatas ou intuitivas, que noutros não existem?
4º Donde em certas crianças, o instinto precoce que revelam para os vícios ou para as virtudes, os sentimentos inatos de dignidade ou baixeza, contrastando com o meio em que elas nasceram?
5º Por que abstraindo-se da educação, uns homens são mais adiantados do que outros?
6º Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes de um menino hotentote recém-nascido e o educardes nos nossos melhores liceus, fareis dele algum dia um Laplace ou um Newton? (…)” [2]
Através deste raciocínio kardequiano, vimos acima de tudo que a reencarnação é fundamentada na justiça divina, e que assenta na mais perfeita lógica e no maior bom senso.

Provas da Reencarnação

Mas que provas podemos ter da reencarnação, além destas explícitas neste raciocínio?
Podemos dividir estas provas em duas categorias: provas filosóficas e provas experimentais.
Filosóficas - Como entender a justiça divina, sem aceitar o princípio reencarnatório? Por que nascem uns pobres e outros ricos? Uns desfrutam da maior saúde, outros lutam a vida toda com várias doenças. Há os que vivem muitos anos, e os que vivem poucos meses ou dias. E como a justiça divina irá julgar estes que não tiveram tempo para serem nem bons nem maus. Irão para o céu ou para o suplício eterno?
Há também a questão do progresso. Por que a humanidade de hoje é mais adiantada intelectual e cientificamente do que a passada? Poderão dizer que a sociedade é que faz o homem assim. Mas como explicar a diferença brutal que existia entre a capacidade de um homem primitivo e a do homem atual, se ambos fossem criados no instante do nascimento, e suas conquistas para nada servissem?
Nos dêem explicações melhores para estes e outros questionamentos e abandonaremos nossas certezas reencarnatórias.
Experimentais - Entre as provas experimentais, podemos citar a fenomenologia mediúnica com todas as suas nuanças. A comunicação dos Espíritos por si só prova a imortalidade da alma e, consequentemente, a possibilidade reencarnatória, mas é o conteúdo destas comunicações que nos dizem da certeza desta doutrina.
Temos ainda o aspecto relacionado com a regressão da memória, hoje bastante difundido nos meios cientificistas e não espíritas. A partir desta possibilidade vemos a incursão do ser em muitos momentos de suas existências pregressas.
E para finalizar as questões das provas, podemos ainda falar das lembranças de outras vidas, faculdade bastante rara, mas que já aconteceu com muitas pessoas.
Sobre este assunto indicamos a leitura do livro A Reencarnação de Gabriel Delanne, do qual tiramos, para ilustração, a narrativa abaixo, dentre tantas outras existentes nesta obra:

“Há cinqüenta anos, duas crianças nasceram em uma aldeia chamada Okshitgon, um rapaz e uma menina. Vieram ao mundo no mesmo dia, em casas vizinhas, cresceram juntos, brincaram juntos, amaram-se.
Casaram-se e fizeram uma família (…)
A morte os levou no mesmo dia; enterraram-nos fora da aldeia, depois os esqueceram (…)
Nesse ano, após a tomada de Mandalay, a Birmânia inteira sublevou-se (…) Tristes tempos para os homens pacíficos, e muitos, fugindo de suas habitações, refugiavam-se nos lugares mais habitados (…)
Okshitgon estava nos centros de um dos distritos mais castigados; grande números de seus habitantes fugiram, e entre eles um homem chamado Maung Kan e sua jovem mulher. Eles se estabeleceram em Kabyn. Tiveram dois filhos gêmeos, nascidos em Okshitgon, pouco antes de abandonarem o lar. O mais velho chamava-se Maung-Gyi, isto é, Rapaz Grande. As crianças cresceram em Kabu e começaram logo a falar. Seus pais notaram com espanto que, durante os brinquedos, chamavam-se, não Maung-Gyi e Maung-Ngé, mas Maung San Nyein e Ma-Gyroin; este último é nome de mulher; Maung Kan e a esposa lembraram que assim se chamavam os cônjuges falecidos em Okshitgon, na época em que as crianças nasceram.
Eles pensavam, pois, que as almas daqueles defuntos haviam entrado no corpo dos filhos, e os levaram a Oksitgon, para os experimentar. As crianças conheceram toda Okshitgon, estradas, e casas e pessoas; chegaram a reconhecer as roupas que vestiam na vida anterior.
Não havia dúvidas. Um deles, o mais moço, lembrou-se de ter tomado emprestado duas rupias a um certo Ma-Thet, sem que seu marido o soubesse, quando era Ma-Gyroin, e essa dívida não fora saldada. Ma-Thet vivia ainda. Interrogaram-no e ele se lembrava, com efeito, de haver emprestado esse dinheiro. (…)
(…) O menino mais velho (…) é um bom burguês, gordo rechonchudo, mas o gêmeo cadete é menos forte e tem uma curiosa expressão sonhadora. Contaram-me muitas coisas da vida passada. Disseram que, depois da morte, viveram, algum tempo, sem corpo nenhum, errando no espaço, ocultando-se nas árvores, e isso por causa dos pecados; e, alguns meses depois, nasceram gêmeos (…)” [3]
Objetivo da Reencarnação

Já sabemos que o Espírito reencarna, e que a reencarnação se fundamenta na Justiça Divina. Mas por que o Espírito reencarna? Com que fim?
Allan Kardec também perguntou isto aos Espíritos. Porém, pela sua capacidade didática, fez duas perguntas:

132 - Qual o objetivo da encarnação?
167 – Qual o fim objetivado com a reencarnação?

A primeira foi assim respondida: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns é expiação; para outros missão. (…)” [4]

E a segunda, assim: “Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isto, onde a justiça?” [5]

Analisando o conteúdo destas duas respostas temos: o objetivo principal da encarnação dos Espíritos, ou da reencarnação, é a evolução: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição”. Acontece que em uma vida só não dá para cumprir tal objetivo. O que representa sessenta ou oitenta anos para uma pessoa, em matéria de aprendizado de todas as coisas para que ela chegue à perfeição?
Assim sendo, reencarnando inúmeras vezes, quantas forem necessárias, o Espírito atinge o objetivo primordial de sua existência.
Desta forma, entendemos que expiar não é o objetivo da reencarnação, mas pode vir a ser se o Espírito não quiser evoluir pelo caminho natural do bem.
Trocando em miúdos: o Espírito só passa pela expiação quando quer, ou seja, quando não quer seguir as Leis Divinas.
Como já vimos anteriormente, a evolução também é uma Lei de Deus; portanto o Espírito tem de evoluir, consciente ou inconscientemente. Quando ele entende isso e busca esta evolução por conta própria, ele a faz sem dor. A expiação só entra na história, quando a rebeldia fala mais alto, quando ele, sabendo qual caminho a seguir, escolhe outro.
Assim, provocando sofrimento em seus semelhantes, o ser estaciona. Como ele tem de evoluir, passa pelo sofrimento como que para despertar a centelha divina que existe dentro de si, que o induz ao aperfeiçoamento.
É aí que entendemos a misericórdia que é a oportunidade reencarnatória; não é à toa que Emmanuel nos afirma:

“Cada encarnação é como se fora um atalho nas estradas da ascensão. Por esse motivo, o ser humano deve amar a sua existência de lutas e amarguras temporárias, porquanto ela significa uma bênção divina, quase um perdão de Deus.”[6]
Reencarnação na Bíblia

A reencarnação acha-se claramente expressa nos textos bíblicos. Muitas são as passagens do Velho e Novo Testamento que nos servem para elucidar tal afirmativa.
Podemos ainda dividi-las em partes que nos mostrem seu caráter provacional, evolutivo, missionário e, acima de tudo, como Lei Divina.
A seguir analisamos algumas passagens:
“Os teus mortos viverão, os teus mortos ressuscitarão; despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho será como o orvalho das ervas, e a terra lançará de si os mortos.” [7]

A crença nos renascimentos era vista entre os judeus sob o nome de ressurreição. Por isso o Profeta usa este termo, mas no fundo quer dizer a mesma coisa, ou para ser mais preciso, no seu sentido de renovação para uma nova vida, logo, a ressurreição é um objetivo da reencarnação.
Isaías diz que os mortos viverão, isto não pode ser entendido como viverão após a vida terrena, porque senão ele diria: ainda vivem. O termo viverão quer dizer tornar a viver; e para completar, e a terra lançará de si os mortos, nos dá claramente a idéia de voltar ao corpo de carne.

“E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus
Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?
Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espirito.
Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabe donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
Nicodemos respondeu, e disse-lhe: Como pode ser isso?
Jesus respondeu, e disse-lhe: Tu és mestre em Israel, e não sabes isto? (…)” [8]
Esta é a passagem clássica em que o texto evangélico mostra a reencarnação com o objetivo de chegar à perfeição; aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.
Jesus não podia ser mais claro no sentido de afirmar a necessidade reencarnatória. E diante da ignorância de Nicodemos, Ele explica: “nascer da água e do Espírito (…)”

A água sempre foi tida como o início da vida. “Na Cabala hebraica, a água era a matéria primordial; o elemento frutificador.” [9]
Na Gênese mosaica, o autor diz que no princípio, “o Espírito de Deus se movia sobre as águas.” [10]
E este ensinamento é também dado por Emmanuel:

“O protoplasma foi o embrião de todas as organizações do globo terrestre (…) Os primeiros habitantes da Terra, no plano material, são as células albuminóides, as amebas e todas as organizações unicelulares, isoladas e livres, que se multiplicam prodigiosamente na temperatura tépida dos oceanos.” [11]

“Os modernos conhecimentos científicos atestam que as primeiras formas de vida, desde a concepção, se fazem no ambiente aquoso, seja a própria constituição do gameta feminino como o masculino, de cuja fusão (água) nasce o novo corpo, que adquirindo personalidade diversa da que possuía antes (espírito), recomeça o cadinho purificador, expungindo males e sublimando experiências para entrar no reino do Céus.” [12]

E é por isso já ser conhecido dos judeus daquela época , que Jesus diz: “Tu és mestre em Israel, e não sabes isto?”

“E passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?
Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.” [13]


“E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Por que dizem então os escribas que é mister que Elias venha primeiro?
E Jesus, respondendo, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas; mas digo que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do homem.
Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista.” [14]

Mas existe também em seu processo reencarnatório um caráter expiatório.

“Considerando a severidade com que Elias tratara os adoradores do deus Baal, mandando-os passar a fio de espada, pela espada padeceu, ao impositivo das paixões de Herodíades e do terrível medo do reizete Herodes.” [15]


Mecanismos da Reencarnação

Podemos tratar este tema sob dois aspectos: científico e filosófico.
O aspecto científico vai requerer um maior aprofundamento, e um maior conhecimento das ciências biológicas e da física, o que não é o objetivo deste texto. Portanto, trataremos aqui somente do aspecto filosófico.
Tomaremos como roteiro o capítulo 13 do livro “Missionários da Luz” de André Luiz. Não é que todos os processos reencarnatórios sejam desta forma, mas acreditamos que este capítulo fala de uma forma geral e bastante completa da programação e da assistência espiritual realizada, quando este processo está em vias de execução
Para iniciar, André Luiz esclarece que irá visitar em companhia do instrutor Alexandre, o lar de Adelino e Raquel, onde se verificaria a reencarnação de Segismundo.
Numa encarnação anterior, Adelino tinha sido vítima de Segismundo. Este o tinha assassinado, e no momento presente havia sido programado para ambos uma reencarnação de reajuste em bases de perdão.
Notamos no princípio um momento de angústia por parte do reencarnante, o que é natural no instante que antecede o processo reencarnatório. Para melhores esclarecimentos, recomendamos a leitura do capítulo 47 do livro Nosso Lar, “A volta de Laura”, do mesmo autor espiritual.
Mas o instrutor Alexandre o tranqüiliza: “Tenha coragem. O ensejo próximo é divino para o seu futuro espiritual. Organizaremos as coisas; não tenha receio.” [16]
A condição espiritual de Adelino, o pai, não era das melhores. Apesar das promessas no plano espiritual, este não tinha trabalhado o perdão em sua intimidade, e toda vez que Segismundo aproximava-se espiritualmente, a aflição era o sentimento que o dominava.
É digno de destaque, a assistência espiritual recebida pelo casal, quando este sintoniza com as determinações do Alto, dando assim condição para que se execute o programa traçado na espiritualidade. Além de Alexandre e André Luiz, existiam vários outros Espíritos a amparar toda a família neste momento.
Havia ali naquele ambiente, não obstante a proteção espiritual, uma grande dificuldade de execução do programa, devido aos conflitos vibratórios causados pela incompreensão das criaturas envolvidas no processo.
Dessa forma, os Espíritos que realizavam a proteção do lar de nossos irmãos programaram um momento de contato entre eles durante o sono físico, a fim de que algumas arestas pudessem ser aparadas.
Não foi fácil; a princípio houve uma grande aversão entre pai e filho. “É que a aproximação de Segismundo despertava em Adelino reencarnado as reminiscências do passado sombrio”, nos esclarece o autor, e continua: “Ele, a vítima de outro tempo, não conseguia localizar os fatos vividos, mas experimentava, no plano emotivo, as recordações imprecisas dos acontecimentos, cheias de ansiedades dolorosas.”[17] Mas como prova de que o amor é mais forte em todos os cantos do universo, a interseção de Alexandre trabalhando o perdão entre ambos, promoveu uma paz momentânea entre os dois.
Poderíamos perguntar, por que a necessidade do pai de aceitar o filho. Não poderia a espiritualidade impor a reencarnação sem maiores embaraços?
Informa Alexandre que:

“O pensamento envenenado de Adelino destruía a substância de hereditariedade, intoxicando a cromatina dentro da própria bolsa seminal. Ele poderia atender aos apelos da Natureza, entregando-se à união sexual, mas não atingiria os objetivos sagrados da Criação, porque pelas disposições lamentáveis de sua vida íntima, estava aniquilando as células criadoras, ao nascerem, e, quando não as aniquilasse por completo, intoxicava os genes do caráter, dificultando-nos a ação (…)” [18]

Passados os primeiros momentos, em que o equilíbrio entre os elementos envolvidos no processo era o mais importante, os mentores do Plano Maior passaram a trabalhar diretamente no processo de ligação do Espírito às suas necessidades reencarnatórias.
Mas antes de tratarmos com maiores detalhes sobre a ligação do Espírito com o corpo, lembremos da afirmativa de Alexandre de que nem todas as criaturas passam por esse instante, de uma forma consciente:

“(…) A maioria dos que retornam à existência corporal na esfera do globo é magnetizada pelos benfeitores espirituais, que lhe organizam novas tarefas redentoras, e quantos recebem semelhante auxílio são conduzidos ao templo maternal de carne como crianças adormecidas.(…). São inúmeros os que regressam à Crosta nessas condições, reconduzidos por autoridades superiores de nossa esfera de ação, em vista das necessidades de certas almas encarnadas, de certos lares e determinados agrupamentos.”[19]


“Não é necessária a nossa presença ao ato de união celular. Semelhantes momentos do tálamo conjugal são sublimes e invioláveis nos lares em bases retas. Você sabe que a fecundação do óvulo materno somente se verifica algumas horas depois da união genesíaca. O elemento masculino deve fazer extensa viagem, antes de atingir o seu objetivo. Temos tempo (…)” [20]


“Os Espíritos Construtores começaram o trabalho de magnetização do corpo perispirítico, no que eram amplamente secundados pelo esforço do abnegado orientador, que se mantinha dedicado e firme em todos os campos de serviço.
Sem que me possa fazer compreendido, de pronto, pelo leitor comum, devo dizer que ‘alguma coisa da forma de Segismundo estava sendo eliminada’. Quase que imperceptivelmente, à medida que se intensificavam as operações magnéticas, tornava-se ele mais pálido. Seu olhar parecia penetrar outros domínios. Tornava-se vago, menos lúcido.
A certa altura, Alexandre falou-lhe com autoridade:
Segismundo, ajude-nos! Mantenha clareza de propósitos e pensamento firme!
Tive a impressão que o reencarnante se esforçava por obedecer.
Agora, continuou o instrutor, sintonize conosco relativamente à forma pré infantil. Mentalize sua volta ao refúgio maternal da carne terrestre! Lembre-se da organização fetal, faça-se pequenino! Imagine sua necessidade de tornar a ser criança para aprender a ser homem!
Compreendi que o interessado precisava oferecer o maior coeficiente de cooperação individual para o êxito amplo. Surpreendido, reconheci que, ao influxo magnético de Alexandre e dos Construtores Espirituais, a forma perispiritual de Segismundo tornava-se reduzida.
A operação não foi curta, nem simples. Identificava o esforço geral para que se efetuasse a redução necessária.
Segismundo parecia cada vez menos consciente. Não nos fixava com a mesma lucidez e suas respostas às nossas perguntas afetuosas não se revelavam completas.
Por fim, com grande assombro meu, verifiquei que a forma de nosso amigo assemelhava-se à de uma criança.” [21]
Quando é dito que o corpo espiritual de Segismundo foi reduzido para o tamanho de uma criança, precisamos analisar esta palavra num sentido mais amplo.
A que tamanho terá sido restringido o perispírito de Segismundo? O instrutor pediu ao reencarnante: “Lembre-se da organização fetal, faça-se pequenino”. Particularmente, entendemos que aqui o corpo espiritual fica exatamente do tamanho da célula-ovo.
Em seguida, os Espíritos construtores analisam os mapas cromossômicos e concluem que está tudo bem, à exceção do tubo arterial na parte a dilatar-se para o mecanismo do coração. Mas nos informam ainda que se o reencarnante souber valorizar as oportunidades do futuro, possivelmente conquistará o equilíbrio do aparelho circulatório. É a aplicação da máxima evangélica: “O amor cobre a multidão de pecados”[22].
Através desta obra, ficamos sabendo também que o trabalho torna-se mais atuante por parte da espiritualidade até os sete anos de idade do Espírito reencarnante, época em que o processo reencarnacionista estará consolidado.
Chegado o momento, era necessário realizar o ato de ligação inicial, em sentido direto, de Segismundo com a matéria orgânica.

“Logo após penetrávamos o aposento conjugal, onde o espetáculo íntimo era divinamente belo (…)
Os amigos invisíveis do lar, companheiros de nosso plano, haviam enchido a câmara de flores de luz (…)
Mais de cem amigos se reuniam ali, prestando-lhe afetuosa homenagem (…)
O quadro era lindo e comovedor (…)
Valendo-me daquele instante (…), perguntei:
Nosso irmão reencarnante apresentar-se-á, mais tarde, entre os homens, tal qual vivia entre nós? Já que suas instruções se baseiam na forma perispiritual preexistente, terá ele a mesma altura, bem como as mesmas expressões que o caracterizavam em nossa esfera?
Alexandre respondeu sem titubear:
Raciocine devagar, André! Falamos da forma preexistente, nela significando o modelo de configuração típica ou, mais propriamente, o uniforme humano. Os contornos e minúcias anatômicas vão se desenvolver de acordo com os princípios de equilíbrio e com a lei da hereditariedade (…) Adicione porém, a esse fator primordial, a influência dos moldes mentais de Raquel, a atuação do próprio interessado, o concurso dos Espíritos Construtores (…), e poderá fazer uma idéia do que vem a ser o templo físico que ele possuirá, por algum tempo, como dádiva da Superior Autoridade de Deus (…)
Segismundo terá então, insisti, uma forma física eventual, imprecisa, por enquanto, ao nosso conhecimento?
O instrutor esclareceu sem demora:
Se estivéssemos diretamente ligados ao caso dele, estaríamos de posse de todas informações referentes ao porvir, nesse particular, mas a nossa colaboração neste acontecimento é transitória e sem maior significação no tempo. Os orientadores de Segismundo, porém, nas esferas mais altas, guardam o programa traçado para o bem do reencarnante. Note que me refiro ao bem e não ao destino.” [23]
Devido a importância deste esclarecimento, continuamos com Alexandre:

“Os contornos anatômicos da forma física, disformes ou perfeitos, longilíneos ou brevilíneos, belos ou feios, fazem parte dos estatutos educativos (…) Pormenores anatômicos imperfeitos, circunstâncias adversas, ambientes hostis, constituem, na maioria das vezes, os melhores lugares de aprendizado e redenção para aqueles que renascem (…). Em vista disso, o mapa alusivo a Segismundo está devidamente traçado, levando-se em conta a cooperação fisiológica dos pais, a paisagem doméstica e o concurso fraterno que lhe será prestado por inúmeros amigos daqui. (…)” [24]
Finda esta conversa instrutiva, Alexandre atendendo o pedido dos Espíritos Construtores, realiza uma prece, para depois entregarem o reencarnante aos braços maternais.


É quando André Luiz nos informa:

“Segismundo ligara-se a ela como a flor une à haste. Então compreendi que, desde aquele momento, era alma de sua alma aquele que seria carne de sua carne.”[25]

E dando continuidade, Alexandre disse:

“Agora, auxiliemos nosso amigo no primeiro contato com a matéria mais densa. (…)
(…) Auxiliado pelo concurso magnético do mentor querençoso, passei a observar as minúcias do fenômeno da fecundação.
Através dos condutos naturais, corriam os elementos sexuais masculinos, em busca do óvulo (…). Surpreendido, reconheci que o número deles se contava por milhões e que seguiam, em massa, para a frente, em impulso instintivo, na sagrada competição.
(…) Segundo depreendi, ele (Alexandre) podia ver as disposições cromossômicas de todos os princípios masculinos em movimento, depois de haver observado, atentamente, o futuro óvulo materno, presidindo ao trabalho prévio de determinação do sexo do corpo a organizar-se.
Após acompanhar, profundamente absorto no serviço, a marcha dos minúsculos competidores que constituíam a substância fecundante, identificou o mais apto, fixando nele o seu potencial magnético, dando-me a idéia de que o ajudava a desembaraçar-se dos companheiros para que fosse o primeiro a penetrar a pequenina bolsa maternal. O elemento focalizado por ele ganhou nova energia sobre os demais e avançou rapidamente na direção do alvo. (…) Sempre sob o influxo luminoso magnético de Alexandre, o elemento vitorioso prosseguiu a marcha, depois de atravessar a periferia do óvulo, gastando pouco mais de quatro minutos para alcançar o seu núcleo. Ambas as forças, masculina e feminina, formavam agora uma só, convertendo-se ao meu olhar em tenuíssimo foco de luz (…).
Depois de prolongada aplicação magnética, que era secundada pelo esforço dos Espíritos Construtores, Alexandre aproximou-se de mim e falou: Está terminada a operação inicial de ligação. Que Deus nos proteja.”[26]
Após esta operação, André Luiz diz que estava boquiaberto com o que vira, e podemos dizer: nós também!
Através destas breves narrativas, quisemos simplesmente mostrar algo a respeito do mecanismo da reencarnação (que não termina aqui), e que durante todo o processo reencarnatório há uma linda programação a ser executada.
É claro que nem todos os casos são tratados desta forma, mas como sabemos que Deus é Justiça, podemos seguramente dizer que Ele, através de Seus prepostos, de uma forma ou de outra, preside todos os movimentos palingenésicos.


Notas:
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[1] FRANCO, Divaldo P. / Joanna de Ângelis (Espírito). Estudos Espíritas, 5a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1991, cap. 8
[2] (KARDEC 1980), questão 222
[3] DELANNE, Gabriel. A Reencarnação. 9a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1994, cap. XI
[4] (KARDEC 1980), questão 132
[5] (KARDEC 1980), questão 167
[6]XAVIER, Francisco C. / Emmanuel. Emmanuel, 15a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1991, cap. 5
[7] Isaías, 26:19
[8] João, 3: 1 a 10
[9] DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo, 10a Ed., Rio de Janeiro, FEB, 1994, cap. IV
[10] Gênesis, 1: 2
[11] XAVIER, Francisco C. / Emmanuel. A Caminho da Luz, 10a ed., Rio de Janeiro, FEB,1980..
cap. II
[12] (FRANCO / Joanna de Ângelis [Espírito] 1991), cap. 8
[13] João, 9: 1 a 3
[14] Mateus, 17: 10 a 13
[15] (FRANCO / Joanna De Ângelis [Espírito]1991), cap. 8
[16] XAVIER Francisco C. / André Luiz (Espírito). Missionários da Luz. 24a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1993, pag. 182
[17] (XAVIER / André Luiz [Espírito] 1993), pag. 194
[18] Idem, ibidem, pag. 197
[19] Id., ib., pag. 206
[20] (XAVIER / André Luiz [Espírito] 1993), pag. 207
[21] (XAVIER / André Luiz [Espírito] 1993), pags. 214 e 215
[22] I Pedro, 4: 8
[23] (XAVIER / André Luiz [Espírito] 1993), pag. 226
[24] Id., ib., pag. 227
[25] (XAVIER / André Luiz [Espírito] 1993), pag. 230
[26] Op. Cit., pg. 231 a 233

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Livre Arbítrio e Lei de Causa e Efeito

Livre Arbítrio e Lei de Liberdade


Livre Arbítrio - Atingido o patamar evolutivo que permite ao Espírito integrar-se ao reino humano, conquista ele a faculdade do livre arbítrio, ou seja, passa a ter a liberdade de escolha, e torna-se, a partir de então, artífice do seu próprio destino.
Como conseqüência natural do poder escolher, temos a responsabilidade pela escolha como característica básica deste momento evolutivo. Por isso, essa faculdade só pode ser conquistada pelo ser pensante no momento em que ele se acha maduro para tal.
O livre arbítrio é sempre proporcional à condição evolutiva do ser. Nos primeiros momentos de humanidade, o Espírito quase não o tem. Está mais sujeito ao determinismo, porque não tem conhecimento nem experiência para avaliar melhor sua escolha. É como aquela criança a quem não permitimos realizar determinadas ações, por ela não conhecer ainda os perigos que corre.
Nesta fase, o Criador, em sua infinita misericórdia, permite que Espíritos mais elevados tracem-lhe o caminho a seguir, como forma de suprir-lhe a falta de experiência.
O Espírito de média evolução tem menos restrita esta faculdade. É como o jovem, que após passar pela disciplina necessária do momento infantil, tem mais possibilidades de decisão.
O Espírito evoluído é como o homem maduro em que as provações e os corretivos já formaram sua personalidade, e como conseqüência sua liberdade é maior.

“Um dia, no curso dos milênios, o nosso livre-arbítrio se harmonizará plenamente com a verdade total, com as deliberações superiores. Nesse dia saberemos executar, com fidelidade, o pensamento do Cristo, Mestre e Senhor Nosso”[1]

E aí repetiremos com Jesus, “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar sua obra” (João, 4: 34)

Lei de Liberdade - A liberdade é condição básica para que o Espírito se realize. Deus o criou de tal forma que, por natureza, ele busque sempre se libertar, mesmo que de forma inconsciente.
Essa liberdade, porém, não é absoluta, porque a necessidade que tem ele de viver em sociedade, o condiciona a respeitar determinadas normas, porque este direito é dado também a cada um de seus semelhantes.
Com isto não queremos dizer que há a necessidade de uma pessoa se sujeitar à outra por completo, isto seria contrário à lei de Deus.
A escravidão, tenha ela qualquer codinome, é e sempre foi amoral, por isso a necessidade do entendimento da verdade cristã: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará[2]”, para que não escravizemos ninguém e nem sejamos escravos de nossas próprias imperfeições.
Muitas vezes a desigualdade das aptidões tem sido desculpa para o domínio dos fracos, isto porque esquecemos a Caridade Cristã, que nos define como dever, auxiliar o nosso semelhante naquilo que temos possibilidade, conforme sua necessidade.
São os Espíritos quem dizem: “É contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem (...)”[3]
Portanto temos que a liberdade legítima, decorre da legítima responsabilidade, não podendo triunfar sem esta.

Liberdade de Pensar - Só no pensamento, goza o homem de total liberdade.
A espontaneidade e a criatividade, como fatores espirituais que são, devem sempre estar presentes no pensamento da criatura. É por aí que o Espírito se identifica, evitando que a criatura se robotize, apenas repetindo em circuito fechado o que lhe imprimem, através dos modernos meios de massificação. Como conseqüência, a criatura é sempre responsável pelos seus pensamentos, e pela faixa mental em que se encontra.

Liberdade de Consciência - Por ser a liberdade de consciência corolário da liberdade de pensar, é um dos caracteres da verdadeira civilização e do progresso.

“Assim como os homens, pelas suas leis, regulam as relações de homem para homem, Deus, pelas leis da natureza, regula as relações entre ele e o homem.”[4]

De acordo com a questão 621 de O Livro dos Espíritos, a Lei de Deus está gravada na consciência de cada um. Desta forma, identificamos o porquê da liberdade de consciência, e da sua progressividade à medida que a realizamos em nós.

Fatalidade e Destino - Segundo a codificação Espírita, fatalidade só pode ser entendida como um componente da lei de liberdade, isto é, quando tomamos uma certa atitude, determinamos uma conseqüência, que será boa ou má, de acordo com o conteúdo da ação.[5]
Para elucidar melhor, colhemos as seguintes considerações de André Luiz:

“Ninguém nasce destinado ao mal, porque semelhante disposição derrogaria os fundamentos do Bem Eterno sobre os quais se levanta a Obra de Deus.
O Espírito renascente no berço terrestre traz consigo a provação expiatória a que deve ser conduzido ou a tarefa redentora que ele próprio escolheu de conformidade com os débitos contraídos.
(...)Desse modo, ninguém recebe do Plano Superior a determinação de ser relapso ou vicioso, madraço ou delinqüente(…). Padecemos, sim, nesse ou naquele setor da vida, durante a recapitulação de nossas próprias experiências, o impulso de enveredar por esse ou aquele caminho menos digno, mas isso constitui a influência de nosso passado em nós, instilando-nos a tentação, originariamente toda nossa, de tornar a ser o que já fomos, em contraposição ao que devemos ser.”[6]

A esse mecanismo denominamos “Lei de Causa e Efeito”, e estudaremos suas particularidades, a seguir.

Lei de Causa e Efeito

Isaac Newton foi, sem dúvida, um dos maiores expoentes do mundo científico: grande matemático, exímio físico e destacado astrônomo, revolucionou sua época com inúmeras descobertas. Em uma delas, denominada a terceira lei de Newton, diz o seguinte: “a toda ação corresponde uma reação, de igual intensidade e de sentido contrário”.
No campo físico, podemos comprová-la inúmeras vezes. Só para exemplificar, vejamos:
O empuxo fornecido pelos motores a jato, nada mais é do que a reação dos gases que são expelidos em alta velocidade (ação). Observemos nesse exemplo os sentidos das duas forças, ação e reação, sempre contrárias.
Quando o esportista praticante do “tiro ao alvo” experimenta o “coice” ao dar um tiro, aí identificamos igualmente a lei de ação e reação.
No campo espiritual, essa lei determina o equilíbrio de toda a criação.
Deus é amor, não existe nada fora de Deus, portanto deduzimos que não existe nada fora do amor. O que é contrário à lei de Deus, na realidade não existe de forma absoluta; podemos afirmar que o seu existir tem caráter simplesmente transitório.
Ao atuarmos de acordo com a lei do Criador, entramos em Seu campo vibratório, e passamos a desfrutar da nossa herança, que é a vida em toda sua plenitude. “Eu vim para que tenham vida…” nos disse Jesus, e complementa: “…e a tenham com abundância.”[7]
Quando com nossas ações contrariamos a Lei, na realidade não desequilibramos nada a não ser nós mesmos. Vejamos que as criaturas vivem em desequilíbrio, mas apesar de tudo, o mesmo não acontece com a Criação, que é sempre equilibrada. Isto é devido à atuação da lei de causa e efeito, que age na intimidade da criação.
Ao escolher, o homem, fazendo uso de seu livre arbítrio, o caminho do erro, determina em si uma ação de igual intensidade e em direção contrária, que anula no mesmo instante o desequilíbrio no geral, ficando somente a anomalia em sua própria intimidade, até que pela lei do retorno volte ele ao equilíbrio refazendo o caminho percorrido em sentido contrário, e entrando novamente no campo de ação determinado pelo Amor.
Esse voltar à Lei, pode ser mais ou menos rápido, de acordo com a conscientização da criatura, e a sua vontade de corrigir o erro. Assim temos Espíritos que se arrependem rapidamente, e consertam o passo; outros insistem na rebeldia, e vão gerando erros em cima de erros, demorando séculos e mais séculos no resgate dos mesmos.
Segundo André Luiz, o centro coronário, atuando como um diretor em relação aos outros, é o órgão responsável pela implementação desta lei no Espírito:

“(…) Dele parte, desse modo, a corrente de energia vitalizante formada de estímulos espirituais com ação difusível sobre a matéria mental que o envolve, transmitindo aos demais centros da alma os reflexos vivos de nossos sentimentos, idéias e ações, tanto quanto esses mesmos centros, interdependentes entre si, imprimem semelhantes reflexos nos órgãos e demais implementos de nossa constituição particular, plasmando em nós próprios os efeitos agradáveis ou desagradáveis de nossa influência e conduta.
A mente elabora as criações que lhe fluem da vontade, apropriando-se dos elementos que a circundam, e o centro coronário incumbe-se automaticamente de fixar a natureza da responsabilidade que lhes diga respeito, marcando no próprio ser as conseqüências felizes ou infelizes de sua movimentação consciencial no campo do destino.” [8]

Como se vê, o homem só é verdadeiramente livre antes de pensar ou de agir, porque a partir do instante em que já emitiu uma ação em determinada direção, fica condicionado a um retorno, que mais cedo ou mais tarde se manifestará.
A lei de causa e efeito tem por objetivo o bem da criatura. Ela não tem, como muitos pensam, um caráter punitivo, mas sim uma ação educadora, no sentido de fazer o ser reconhecer o seu erro, e indicar-lhe o caminho mais curto do acerto. Quando o apóstolo Pedro, diz em sua epístola: “O amor cobre a multidão de pecados”[9], quer nos ensinar que não é preciso sofrer para resgatarmos uma “dívida”, mas através da vivenciação do amor, podemos atingir o mesmo alvo de uma forma mais ampla e sem dor. Isto porque, como já dissemos, o objetivo da lei de causa e efeito, não é punir. Se pela vivenciação dos ensinamentos cristãos, o ser se redime, então não é preciso sofrer.
Vimos então que a ação da lei, do ponto de vista espiritual, não tem uma forma absoluta de se manifestar. Pode o homem pelo seu livre arbítrio acrescentar novas forças no sentido de abrandá-la ou de agravá-la.
Para melhor entendimento do assunto, sugerimos a análise de dois casos em que esta lei atua.
O primeiro fala sobre a possibilidade de abrandamento da lei, quando o elemento “amor” atua.

“Saturnino Pereira sofre um acidente na fábrica onde trabalha, vindo a perder o polegar direito. Seus colegas e amigos comentam a injustiça da ocorrência, dada a grande dedicação de Saturnino ao bem de todos. Comparecendo à reunião mediúnica em que colabora regularmente, um benfeitor espiritual espontaneamente lhe esclarece que, em existência anterior, foi poderoso sitiante que, num momento de crueldade, puniu barbaramente um pobre escravo, moendo-lhe o braço direito no engenho. Com o despertar de sua consciência, atrozes remorsos torturam-no no além túmulo. Deliberou então impor-se rigoroso aprendizado, programando um acidente para futura encarnação, na qual perderia o braço. No entanto, sua renovação para o bem, testemunhada por suas ações, possibilitou que o acidente apenas lhe ocasionasse a perda de um dedo.[10]

No segundo, vemos a lei atuando de maneira mais rigorosa:
André Luiz estudava, junto de amigos no plano espiritual, o caso de Laudemira, uma irmã que padecia muitas dificuldades no instante de dar à luz um filho muito importante para o seu processo evolutivo.
Envolta que estava por fluidos anestesiantes que lhe eram desfechados por perseguidores do plano invisível, durante o sono, tinha a vida uterina prejudicada por extrema apatia. Como conseqüência, talvez fosse necessária a intervenção cirúrgica. Mas a cesariana neste caso não seria aconselhável, porque a prejudicaria outras gravidezes que iriam se fazer necessárias.
Imbuídos que estavam de estudar os mecanismos da lei de causa e efeito, foi permitido a eles informação sobre o passado de nossa irmã, conforme veremos a seguir:

“(…) As penas de Laudemira, na atualidade, resultam de pesados débitos por ela contraídos, há pouco mais de cinco séculos. Dama de elevada situação hierárquica na corte de Joana II, Rainha de Nápoles, de 1414 a 1435, possuía dois irmãos que lhe apoiavam todos os planos loucos de vaidade e domínio. Casou-se, mas sentindo na presença do marido um entrave ao desdobramento das leviandades que lhe marcavam o caráter, acabou constrangendo-o a enfrentar o punhal dos favoritos, arrastando-o para a morte. Viúva e dona de bens consideráveis, cresceu em prestígio, por haver favorecido o casamento da rainha, então viúva de Guilherme, Duque da Áustria, com Jaime de Bourbon, Conde de la Marche. Desde aí, mais intimamente associada às aventuras de sua soberana, confiou-se a prazeres e dissipações, nos quais perturbou a conduta de muitos homens de bem, e arruinou as construções domésticas, elevadas e dignas, de várias mulheres do seu tempo. Menosprezou sagradas oportunidades de educação e beneficência que lhe foram concedidas pela Bondade Celeste, aproveitando-se da nobreza precária para desvairar-se na irreflexão e no crime. Foi assim que ao desencarnar, no fastígio da opulência material nos meados do século XV, desceu a medonhas profundezas infernais, onde padeceu o assédio de ferozes inimigos que não lhe perdoaram os delitos e deserções. Sofreu por mais de cem anos consecutivos nas trevas densas, conservando a mente parada nas ilusões que lhe eram próprias, voltando à carne por quatro vezes sucessivas, por intercessão de amigos do Plano Superior, em cruciantes problemas expiatórios, no decurso dos quais, na condição de mulher, embora abraçando novos compromissos, experimentou pavorosos vexames e humilhações da parte dos homens sem escrúpulos que lhe asfixiavam todos os sonhos (…)”[11]

Hilário, amigo de André nesses estudos, perguntou ao instrutor, se de cada vez que se retirava da carne, nessas quatro existências, Laudemira continuava ligada às sombras. Ele responde que sim:

“Ela naturalmente entrava pela porta do túmulo e saía pela porta do berço, transportando consigo desajustes interiores que não podia sanar de momento para outro. E continua (…) Nossa irmã, com o amparo de abnegados companheiros, voltou ao pagamento parcelado das suas dívidas (…)”[12]

Silas, o instrutor de nossos amigos na espiritualidade, informa ainda que estava previsto para ela receber nesta encarnação outros filhos:

“(…) Deve agora receber cinco de seus antigos cúmplices na queda moral, para reergue-lhes os sentimentos, na direção da luz, em abençoado e longo sacerdócio materno.” E complementa “Do seu êxito no presente, dependerão as facilidades que espera recolher do futuro, para a liberação definitiva das sombras que ainda ofuscam o Espírito, pois, se conseguir formar cinco almas na escola do bem, terá conquistado enorme prêmio, diante da Lei amorosa e justa.”

Concluindo então, temos que a lei de causa e efeito é um artifício da Misericórdia Divina para nos fazer retornar às origens, ou seja, ao Amor.

Influência do Meio e Livre Arbítrio

É preocupação de todos os tempos, a questão da influência do meio na formação do caráter do homem. Filósofos chegaram a afirmar ser o homem produto do meio. O Espiritismo, em seu caráter filosófico, também tem neste questionamento muita contribuição para dar, e ainda vai além, porque estuda não só a influência do meio, mas também do organismo, na manifestação do Espírito.
São os próprios Espíritos quem nos afirmam:

“É inegável que sobre o Espírito exerce influência a matéria (…). Daí vem que, nos mundos onde os corpos são menos materiais do que na Terra, as faculdades se desdobram mais livremente. Porém, o instrumento não dá a faculdade (…) Tendo o homem instinto do assassínio, seu próprio Espírito é, indubitavelmente, quem possui esse instinto e quem lho dá; não são seus órgãos que lho dão.”[13]

“A matéria é apenas o envoltório do Espírito, como o vestuário o é do corpo. Unindo-se a este, o Espírito conserva os atributos da natureza espiritual.”[14]

Com isso temos que realmente tanto a matéria como o meio podem dificultar ou auxiliar no desenvolvimento espiritual, mas jamais determinar a situação de queda ou de elevação.
Tanto o meio como o corpo são atributos conquistados pela própria evolução espiritual. Na verdade, é o Espírito quem determina, pelas suas vinculações, o corpo ou o meio em que irá renascer. Se fosse impossível subtrair-lhe a sua influência, como conseguiria ele o progresso?
Temos também o caso em que o corpo ajuda ao Espírito, porque o esconde de seus inimigos. É comum vermos histórias de Espíritos que retornaram ao corpo físico como forma de esconder de seus obsessores. Outras vezes o corpo nos livra de situações embaraçosas da lei de atração: no estado de vigília superamos determinada tendência, mas quando no estado de desprendimento do perispírito, através do sono, nos achamos diante desta mesma tendência, não conseguimos nos livrar de sua influência. Neste caso, o corpo funciona como defesa.
O livre arbítrio é sempre o que fala mais alto. Sem ele, qual o mérito ou demérito do Ser em processo de evolução?
O que o homem procura é justificar seus erros através da má interpretação do texto evangélico, quando Jesus nos afirma: “Na verdade o Espírito está pronto, mas a carne é fraca.”[15]. O que Jesus quis dizer é que temos que nos vigiar, porque todas as vezes que nos deixamos levar pelos interesses imediatistas (da carne), entramos em processo de queda, ou seja, fraquejamos.

“Segundo a doutrina vulgar, de si mesmo tiraria o homem todos os seus instintos, que, então proviriam, ou da sua organização física, pela qual nenhuma responsabilidade lhe toca, ou da sua própria natureza, caso em que lícito lhe fora procurar desculpar-se consigo mesmo, dizendo não lhe pertencer a culpa de ser feito como é. Muito mais moral se mostra, indiscutivelmente, a Doutrina Espírita. Ela admite no homem o livre arbítrio em toda a sua plenitude e, se lhe diz que, praticando o mal, ele cede a uma sugestão estranha e má, em nada lhe diminui a responsabilidade (…) Assim de acordo com a Doutrina Espírita, não há arrastamento irresistível: o homem pode sempre cerrar ouvidos à voz oculta que lhe fala no íntimo, induzindo-o ao mal (…)”[16]

Para melhor entendimento do mecanismo de vigilância, que se faz necessário para o bom desenvolvimento de nosso evoluir, sugerimos o estudo do capítulos I e II do livro “Pensamento e Vida” do nosso bondoso Espírito Emmanuel.
Ele mostra a questão nos seguintes moldes:

“O reflexo esboça a emotividade.
A emotividade plasma a idéia.
A idéia determina a atitude e a palavra que comanda as ações.”[17]
No capítulo seguinte temos:

“Comparando a mente humana a um grande escritório, subdividido em diversas seções de serviço, temos aí o departamento do Desejo, em que operam os propósitos e as aspirações”.[18]

Relacionando o ensinamento deste capítulo com o anterior, temos o desejo como gerador da idéia (pensamento), sendo esta determinadora da ação.
Assim temos:

DESEJO -> PENSAMENTO -> AÇÃO

Portanto, moralizemos nosso desejo, e moralizaremos nossas ações.Mas como moralizar nossos desejos, se eles são frutos da nossa longa experiência reencarnatória?
Segundo Emmanuel, neste mesmo capítulo, temos na mente os departamentos do desejo, da inteligência, da imaginação, da memória, mas “acima de todos eles, porém, surge o Gabinete da Vontade”.
E prossegue:

“A Vontade é a gerência esclarecida e vigilante, governando todos os setores da ação mental (…)
(…) A eletricidade é energia dinâmica.
O magnetismo é energia estática.
O pensamento é força eletromagnética.
Pensamento, eletricidade e magnetismo conjugam-se em todas as manifestações da Vida Universal, criando gravitação e afinidade, assimilação e desassimilação, nos campos múltiplos da forma que servem à romagem do espírito para as Metas Supremas, traçadas pelo Plano Divino.
A vontade, contudo, é o impacto determinante.
Nela dispomos do botão poderoso que decide o movimento ou a inércia da máquina.”

Portanto, podemos dizer que o Espírito é forte o suficiente para vencer as dificuldades impostas pelo meio, e pelo organismo. Para isso basta usar a força chamada: VONTADE.

Tudo me é lícito, mas nem tudo edifica

É muito comum no meio espírita a pergunta: O Espiritismo proíbe “isso”? e “aquilo”? Será que podemos fazer esta “coisa”?
Para respondê-la, lembramos da instrução do apóstolo Paulo, em sua 1ª epístola aos Coríntios:

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.” [19]

Ao analisar esta proposição formulada pelo “Apóstolo dos Gentios”, devemos nos situar no significado da palavra lícito.
Segundo o dicionário Aurélio, “lícito” “é tudo que é conforme a lei, tudo que é legal”.
Normalmente, quando fazemos ou tentamos responder esta pergunta, não estamos preocupados com as coisas humanas. Estas nós sabemos como conduzir. A preocupação normalmente é com as questões espirituais. Com isso entendemos que esta pergunta deveria ser formulada assim:

“- De acordo com as leis divinas podemos fazer isto? E aquilo?”

E a resposta seria: É lícito perante as leis divinas? Se a resposta for afirmativa, então, é; de outro modo, não.
Essa forma de pensar parece que contradiz a afirmativa de Paulo, porque ele diz que todas as coisas são lícitas. Em nosso modo de compreender Paulo não pensava na lei divina ao usar a palavra lícita, mas pensou ao dizer: “mas nem todas as coisas convêm”, “nem todas as coisas edificam”. E tudo isso é bastante coerente com outro ensinamento de sua autoria:

“Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.[20]”

Sabemos que a lei divina é revelada aos homens na medida da condição evolutiva de cada um, isto nos leva a raciocinar que de acordo com esta condição evolutiva da criatura é que ela vai analisar o que é justo ou não.
A Doutrina Espírita não proíbe nada, um dos seus princípios básicos é o “livre arbítrio” (todas as coisas são lícitas), assim sendo ela não é proibitiva, mas é educativa, no sentido de mostrar a verdade, e ensinar o caminho para conseguí-la (mas nem todas as coisas edificam).
O apóstolo, com este seu ensinamento, mostra sua capacidade de síntese e consegue fechar todo o tema que ora estudamos: “Livre Arbítrio e Causa e Efeito”. Com a afirmação de que “tudo me é lícito”, ele mostra o livre arbítrio, mas é taxativo ao afirmar: “nem todas as coisas edificam”, ou seja, nem todas as coisas nos conduzem para o caminho do Senhor, e é aí que a lei de causa e efeito atua de maneira a fazer voltar o ser à direção correta.
Outra coisa a ser analisada é qual o nosso objetivo diante da vida. Ela nos oferece muitos prazeres de caráter transitório, mas se o nosso objetivo maior é a nossa evolução espiritual, temos que buscar algo mais duradouro: o tesouro que o ladrão não rouba, nem a traça corrói[21].
Quando Jesus conversava com as irmãs de Lázaro, deixou um grande ensinamento:

Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a melhor parte, a qual não lhe será tirada.[22]

Portanto quando estivermos em dúvida sobre qual o caminho a seguir, usemos o nosso discernimento, e busquemos pensar se não estamos trocando:

“O divino, pelo humano
O transcendente, pelo rotineiro
O que redime, pelo que cristaliza
O espiritual, pelo material
Os prazeres do Céu, pelas alegrias da Terra”[23]

E lembremos sempre o que Ele, que é o Mestre dos mestres nos disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim.”[24]


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Notas:

[1] PERALVA, Martins. Estudando o Evangelho. 6a Ed., Rio de Janeiro, FEB, 1992..cap. 30
[2] João, 8: 32
[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 50a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1980, questão 829
[4] Idem, ibidem, questão 836
[5] Id, ib, questão 851
[6] XAVIER, Francisco C./ Vieira, Waldo/Luiz, André. Evolução em Dois Mundos, 13a Ed., RJ, FEB, 1993, 2a parte cap XVIII
[7] João, 10:10
[8](XAVIER/Waldo Vieira/André Luiz, 1993), 1a parte, cap. II
[9] I Pedro, 4: 8
[10] XAVIER, Francisco C./Hilário Silva. A vida Escreve, Rio de Janeiro, FEB, 1960, II Parte, cap XX
[11] XAVIER, Francisco C./André Luiz. Ação e Reação, 6a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1978, cap. 10
[12] Idem, ibidem
[13] (KARDEC 1980), questão 846
[14] Idem, ibidem, questão367
[15] Mateus, 26: 41
[16] (KARDEC 1980), questão 872
[17] XAVIER, Francisco C./Emmanuel (Espírito). Pensamento e Vida, 9a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1991, cap. I
[18] Idem, ibidem, cap. II
[19] I Coríntios, 10:23
[20] Romanos, 2: 12
[21] Cf. Mateus, 6: 19 e 20
[22] Lucas, 10: 41
[23] (PERALVA 1992), cap. 48
[24] João, 14:6