terça-feira, junho 26, 2012

Estudo Minucioso do Evangelho - O Endemoninhado Gadareno


E navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte da Galiléia.
E, quando desceu para terra, saiu-lhe ao encontro, vindo da cidade, um homem que, desde muito tempo, estava possesso de demônios e não andava vestido nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros.
E, quando viu a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando e dizendo com alta voz: Que tenho eu contigo Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes.
Porque tinha ordenado ao espírito imundo que saísse daquele homem; pois já havia muito tempo que o arrebatava. E guardavam-no preso com grilhões e cadeias; mas, quebrando as prisões, era impelido pelo demônio para os desertos.
E perguntou-lhe Jesus, dizendo: Qual é o teu nome? E ele disse: Legião; porque tinham entrado nele muitos demônios.
E rogavam-lhe que os não mandasse para o abismo.
E andava pastando ali no monte uma manada de muitos porcos; e rogaram-lhe que lhes concedesse entrar neles; e concedeu-lho.
E, tendo saído os demônios do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se de um despenhadeiro no lago e afogou-se.
E aqueles que os guardavam, vendo o que acontecera, fugiram e foram anunciá-lo na cidade e nos campos.
E saíram a ver o que tinha acontecido e vieram ter com Jesus. Acharam, então, o homem de quem haviam saído os demônios, vestido e em seu juízo, assentado aos pés de Jesus; e temeram.
E os que tinham visto contaram-lhes também como fora salvo aquele endemoninhado.
E toda a multidão da terra dos gadarenos ao redor lhe rogou que se retirasse deles, porque estavam possuídos de grande temor. E, entrando ele no barco, voltou.
E aquele homem de quem haviam saído os demônios rogou-lhe que o deixasse estar com ele; mas Jesus o despediu, dizendo:
Torna para tua casa e conta quão grandes coisas te fez Deus. E ele foi apregoando por toda a cidade quão grandes coisas Jesus lhe tinha feito.1


E navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte da Galiléia.
E navegaram para a terra dos gadarenos que está defronte da Galiléia - Gadarenos ou gerasenos, era o nome dado aos naturais, ou habitantes da Gadara, que o historiador Josefo diz ser a metrópole da Peréia, cidade grega, opulenta e rica.1
Há muita polêmica sobre onde se deu realmente este acontecimento, alguns comentaristas preferem o termo geraseno referindo-se aos habitantes de Gerasa situada na Decápolis
O termo gergesenos, constante do evangelho de Mateus, segundo algumas versões, foi introduzido por Orígenes, porque acreditava este, que a cidade em que se deu tal passagem seria outra, cujo o nome era Gergesa.
O Espírito Amélia Rodrigues, conforme a psicografia de Divaldo Pereira Franco, nos fala em Gerasa, nos dando importantes características desta região. Segundo sua informação, o solo desta província era ingrato onde nada medra, à exceção de espinheiros e cardos silvestres2; sua economia se destacava pelo comércio de porcos.
Decápolis era um distrito que continha dez cidades, entre elas Gadara e Gerasa. Era povoada por gregos após a conquista de Alexandre.
Jesus e os discípulos se dirigiram a esta região, nos ensinando que o “mar da vida”, muitas vezes nos leva a navegar por terras áridas, onde corações endurecidos não entendem a noção de espiritualidade que trazemos.
Ele, o Mestre dos mestres, tinha por missão divulgar a verdade do Reino a todas as criaturas; portanto, não perdia a oportunidade de estar sempre semeando, mesmo sabendo que muitas sementes caindo nos pedregais, o Sol iria queimá-las. Tempo viria em que as terras improdutivas seriam fertilizadas pela dor, e aí então, aquelas sementes, que são imortais, produziriam frutos dignos de servirem de alimento a todos.
Assim, devemos nós também fazer, afinal foi Ele quem disse:
Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura.3 …Ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado…4
E, quando desceu para terra, saiu-lhe ao encontro, vindo da cidade, um homem que, desde muito tempo, estava possesso de demônios e não andava vestido nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros.
E, quando desceu para terra… - A divulgação doutrinária tem sido a nossa preocupação a todo instante. Para que tal objetivo se dê, reuniões e estudos visando o melhor entendimento do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo têm sido incentivados em todo o movimento Espírita; desta forma, temos não só compreendido melhor as Leis Morais que regem o Universo, como também, aumentado a nossa capacidade de vibrar em sintonia com as Forças Criativas da Espiritualidade. As questões da Imortalidade da Alma, da Reencarnação, da Mediunidade, da Lei de Evolução têm sido bastante discutidas entre todos, e isto é muito bom, pois abre perspectivas de caminhada mais segura.
Se estar entre os afins é algo gratificante; se elevar-nos através da discussão de filosofia sadia é sempre proveitoso; não podemos deixar de seguir o exemplo do Mestre, que desceu para a terra… mostrando-nos a necessidade de atuarmos em favor do próximo, junto dele; estarmos entre os desafetos aumentando a nossa capacidade de compreensão; auxiliar não só os que nos alegram com as respostas positivas, mas principalmente os que têm dificuldades a serem superadas. Afinal, foi Ele mesmo quem disse:
Os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.5
saiu-lhe ao encontro, vindo da cidade… - Sair ao encontro de Jesus é a atitude necessária; afinal, são os Espíritos Superiores quem afirmam ser Ele, o Guia e Modelo da Humanidade6. Entretanto, como tudo na vida, é imperioso avaliar a maneira em que este ir-Lhe ao encontro se dá. Pois podemos buscá-Lo com o coração aberto a fim de segui-lo, ou para rechaçá-lo através de nossas posturas anticristãs.
A cidade é onde moramos. Se nela encontramos os recursos necessários ao nosso bem viver, é também onde nos defrontamos com os desafetos, com situações não resolvidas, com sentimentos que despertam em nós tendências e imperfeições a serem superadas. Portanto, ao entrarmos na cidade, ao tomarmos contato com o centro dos interesses que salteiam o nosso íntimo, tomemos cuidado com o que pode vir de lá; não esqueçamos a lição anotada pelo evangelista que diz:
Olhai, vigiai e orai, porque não sabeis quando chegará o tempo.7
um homem que, desde muito tempo, estava possesso de demônios… - Entre os enormes bens feitos à Humanidade pela Doutrina Espírita, está o melhor entendimento do vocábulo demônio. Antes do aparecimento desta, o termo demônio era entendido como seres vinculados eternamente ao mal. Por terem se revoltado contra o Criador, tornaram-se rivais Deste, e o que é pior, para todo sempre. Assim, aqueles que eram apanhados por estes diabólicos seres, perdiam a condição de filhos de Deus, e passavam também a fazer parte da sociedade eterna do mal.
Com o esclarecimento trazido pelos Espíritos Codificadores, passamos a ver nestes infelizes seres, apenas Espíritos que, afastados provisoriamente do Bem, tentam perverter a Ordem do Universo; mas que na medida em que forem crescendo em sabedoria e verdade, vão se desvinculando do mal e se libertando no Bem, que por excelência, é o fim de todos.
Há homens que estão vinculados a ideias enganosas, devemos nos acautelar destes; mas há outros que estão muito mais comprometidos com a desordem – desde muito tempo -, estes são mais perigosos ainda. É sobre um destes que a narrativa evangélica nos fala: um homem que, desde muito tempo, estava possesso de demônios.
A expressão desde muito tempo, nos fala do comprometimento daquele homem com seus obsessores; pois este processo que muitas vezes se inicia simples, agrava-se com o decorrer do tempo.
Hoje é um pingo de sombra, amanhã linha firme, para, depois, fazer-se um painel vigoroso…8
É importante notar ainda, que aquele homem estava, segundo os registros do evangelista, possesso de demônios, ou seja, de muitos.
O termo possesso, do latim possessu, quer dizer possuído. Este tipo de obsessão é qualificada como uma das mais graves que podem acontecer a qualquer um de nós; ela é estudada por Kardec no Livro dos Médiuns sob o nome de subjugação. O iluminado Codificador do Espiritismo prefere esta palavra para definir tal anomalia, por achar que ela explica melhor o acontecimento, mas no fundo querem dizer a mesma coisa, conforme demonstra André Luiz no capítulo 9 do livro Nos Domínios da Mediunidade.
Segundo o Dr. Osvaldo Hely Moreira, a subjugação é um quadro mais grave, pois o obsessor tem um conhecimento técnico mais avançado, dominando assim o cérebro do encarnado.9
e não andava vestido. – Uma das características deste grave processo obsessivo é a perda por parte do encarnado do controle de suas ações. Este enfermo, que ora estudamos, já tinha perdido a noção do real, pois não andava vestido.
O vestido ou veste, é a nossa proteção exterior; define a nossa aparência. Com o agravamento da influenciação espiritual, ficamos desprotegidos, porque já não é a nossa vontade que comanda e sim a do desencarnado; nossa aparência muda pois reflete nossa desorganização mental. Não andar vestido da vigilância que se faz necessária, nos leva a situações que podem inclusive nos desarmonizar fisicamente, pois a atuação do Espírito pode enfraquecer-nos fisicamente atrapalhando o nosso sistema imunológico, sendo assim caminho para enfermidades piores.
nem habitava em qualquer casa… - Tal situação é ainda mais grave; não habitar qualquer casa, é perder por completo a referência, é estar totalmente sem identidade.
Jesus ao nos ensinar a orar, recomendou que entrássemos em nosso aposento íntimo e em silêncio nos dirigíssemos ao Pai; não habitar em qualquer casa, é perder esta sintonia com o eu profundo, com o Deus em nós.
mas nos sepulcros. – Há Espíritos que, em desencarnando ficam ainda presos ao mundo físico ignorando o que lhes está acontecendo; há outros, ainda piores, que necessitando de fluidos mais materializados, vampirizam elementos recém desencarnados em busca da vitalidade destes.
André Luiz relata um caso destes no livro Obreiros da Vida Eterna, nos fazendo a seguinte observação:
não pude sofrear o espanto que me tomou o coração. As grades da necrópole estavam cheias de gente da esfera invisível, em gritaria ensurdecedora. Verdadeira concentração de vagabundos sem corpo físico apinhava-se à porta. Endereçavam ditérios e piadas à longa fila de amigos do morto…
ante a minha estranheza, Hipólito considerou:
- Não é para admirar. O Evangelho, descrevendo o encontro de Jesus com endemoninhados, refere-se a Espíritos perturbados que habitam entre os sepulcros.
Nos cemitérios costuma congregar-se compacta fileira de malfeitores, atacando vísceras cadavéricas, para subtrair-lhes resíduos vitais.10
Desta forma, notamos a realidade da existência destes Espíritos, e que mais uma vez a Doutrina Espírita nos auxilia na compreensão do Evangelho; este enfermo atendido por Jesus, não era mais do que um obsidiado, segundo a linguagem Espírita; o os obsessores, ao invés de serem almas eternamente perdidas, eram espíritos desencarnados que ainda não teriam encontrado o caminho do Bem.
Não podemos deixar de citar ainda, os “mortos espirituais”. Sendo vida, o dom dado por Deus à criatura, morte é tudo o que contraria a Vontade do Todo Sábio. Assim, toda vez que alguém contraria a vontade Deus por causa do “pecado”, acha-se morto espiritualmente falando. São estes, verdadeiros sepulcros ambulantes, os que mais devem ter cuidado, pois o Evangelho é claro:
e não andava vestido nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros.
(Leia o texto completo no Site Espiritismo e Evangelho)

1 Dicionário da Bíblia pág. 247
2 Primícias do Reino pág. 122
3 Marcos, 16: 15
4 Mateus, 28: 20
5 Marcos, 2: 17
6 Ver O Livro dos Espíritos questão 625
7 Marcos, 13: 33
8 Pensamento e Vida, pág. 126
9 Porque Adoecemos, pág. 127
10 Obreiros da Vida Eterna, pág. 231


1 Lucas, 8: 26 a 39

sexta-feira, junho 22, 2012

Estudo Minucioso do Evangelho - 2º Programa da FEB na TV CEI

Mediunidade e Evangelho - Fé e Dons de Curar (1 Coríntios, 12: 9)


e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar...
A é uma faculdade de origem divina; ela é imanente no ser, mesmo o ateu a possui. Porém, ela existe em graus diversos tantos quantos são os estados evolucionais das criaturas. Parafraseando Léon Denis, ela dorme na pedra, sonha na planta, agita-se no animal e desperta no homem; e vamos mais além, acha-se plena no anjo.
Paulo diz que ela é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem.1
Aquele que tem o dom de curar tem fé relativa ao seu ministério, porém o que tem fé como conquista da alma tem um dom ainda mais fantástico, o de não adoecer jamais.
Há Espíritos que trazem pela palavra, a . São mensagens que de acordo com a ressonância que encontra na criatura rende seus frutos. Naqueles em que ela ainda não despertou, a palavra nem sequer é entendida, são os imaturos para as questões espirituais. Há por sua vez aqueles que ouvindo não fazem ainda conexão com suas possibilidades mais profundas, nestes ela promete frutos, porém não vingam. Há ainda aqueles que ouvindo compreendem, mas os apelos do mundo e de sua transitoriedade sufocam toda possibilidade positiva na raiz, e os frutos ainda ficam para outras estações. Mas aqueles que já há possuem em condições de produzir, e seja, pela faculdade da razão ou da intuição, da justiça ou do amor, fazem com que os frutos superabundem , pois quando em conexão com o Eterno a fé pode realizar maravilhas.
E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar... Os dons de curar também são amplos na criatura. Essa é uma mediunidade que todos possuímos, pois qualquer um de nós pode, através da boa vontade e do preparo adequado, aplicar passes e este dom é, sob a orientação dos Espíritos superiores, valioso instrumento em que os prepostos do Senhor utilizam para minorar os sofrimentos e curar fisicamente aqueles que para tal se acham preparados.
Jesus através deste recurso despertou muitos para a cura definitiva; seus primeiros discípulos da mesma forma também fizeram; nós também, segundo as próprias orientações do Senhor, podemos. O que estamos aguardando?
Não esqueçamos o que disse o apóstolo a seus seguidores da cidade de Corinto:
e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar...

1 Hebreus, 11: 1

terça-feira, junho 19, 2012

Estudo Minucioso do Evangelho por José Damasceno Sobral


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Evangelho Minucioso por José Damasceno Sobral Vol. 1


Evangelho Minucioso por José Damasceno Sobral Vol. 2

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Introdução ao Estudo do Evangelho


O Dogma do Pecado Original à Luz do Espiritismo



Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.1

A palavra pecado tanto em grego quanto em hebraico que são os idiomas bíblicos tem o sentido de “errar o alvo”; como alguém que atira uma flecha e erra o alvo. Outra ideia que tem mais ou menos o mesmo sentido é a de “desviar-se do rumo”.
De qualquer modo depreendemos de tal conceituação que o homem tem um alvo, isto é um objetivo, um rumo, existe um plano para ele. Quando ele se desvia deste caminho ele erra ou peca conforme dizem as religiões.
Assim, conclui-se que o homem não foi feito para pecar, se ele assim o fez foi por vontade própria fazendo uso de seu livre arbítrio.
Em sentido mais amplo podemos dizer que existe uma Lei no Universo que é a Lei de Deus que gerencia e regula toda a criação de um modo geral, quando infringimos ou transgredimos esta Lei, pecamos.
Pecado Original
Contrariamente ao que parece a origem do dogma do pecado original não é judaica, o judaísmo não o apoia.
Segundo um artigo publicado por Kardec na Revista Espírita de Novembro de 18682, artigo este tirado de um jornal israelita dirigido pelo Rabino Benjamin Mossé, o dogma do pecado original está longe de estar entre os princípios do Judaísmo.
Segundo o articulista…

O dogma do pecado original toma pela letra o relato da Gênese, do qual se desconhece o caráter lendário, e que, partindo desse ponto de vista errado, aceitam-se cegamente todas as consequências que dele decorrem, sem se importar com a sua incompatibilidade com a natureza humana e com os atributos necessários e eternos que a razão reporta à natureza divina.

Depreendemos assim, que o dogma do pecado original tem origem no catolicismo e foi adotado também pela escola protestante.
Mas o que diz este dogma?
Que o primeiro casal de humanos – Adão e Eva – tentado pelo Diabo na figura da Serpente, desobedeceram uma ordem divina que dizia que eles não poderiam comer da árvore da ciência do bem e do mal, e que a partir desta transgressão, que foi um ato de rebeldia em relação a Deus, eles atraíram para si e para toda humanidade, inclusive para a que viesse a partir de então, uma maldição do Céu, maldição esta que implicaria em toda sorte de males e dores, de erros, de crimes e tudo quanto fosse de ruim.
Através deles, teria entrado o pecado no mundo, e com o pecado o mal e com o mal, as doenças, a morte e todo tipo de aberração, inclusive da natureza.
Ou seja, tudo o que existe de ruim no mundo é culpa do pecado, e este é culpa de Adão e de Eva que se deixaram seduzir pela Serpente.
A situação é mais ou menos assim, nós já nascemos no erro, somos pecadores, temos o DNA da transgressão e tudo por causa deste casal primeiro.
Há injustiça no mundo? Crianças nascem defeituosas? Existe guerra, fome, tragédias, e muito mais? Culpa do pecado, culpa de Adão e Eva.
O mais interessante disto tudo, é que tanto católicos quanto protestantes dizem seguir a Bíblia literalmente, e que se algo está em contradição com o Texto Sagrado, este algo ou esta doutrina deve ser condenada, pois a Bíblia é a Palavra de Deus.
Não discutimos quanto à superioridade da doutrina moral da Bíblia, esta é mesma de origem divina. Entretanto, parece que nossos irmãos ainda não leram o capítulo XVIII do livro de Ezequiel, pois nele encontramos as seguintes colocações:
1A palavra de Iahweh me foi dirigida nestes termos: 2Que vem a ser este provérbio que vós usais na terra de Israel: "Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados"? 3Por minha vida, oráculo do Senhor Iahweh, não repetireis jamais este provérbio em Israel. 4Todas as vidas me pertencem, tanto a vida do pai, como a do filho. Pois bem, aquele que pecar, esse morrerá. 5Se um homem é justo e pratica o direito e a justiça, 6não come sobre os montes e não eleva os seus olhos para os ídolos imundos da casa de Israel, nem desonra a mulher do seu próximo, nem se une com uma mulher durante a sua impureza, 7nem explora a ninguém, se devolve o penhor de uma dívida, não comete furto, dá o seu pão ao faminto e veste ao que está nu, 8não empresta com usura, não aceita juros, abstém-se do mal, julga com verdade entre homens e homens; 9se age de acordo com os meus estatutos e observa as minhas normas, praticando fielmente a verdade: este homem será justo e viverá, oráculo do Senhor Iahweh. 10Contudo se tiver um filho violento e sanguinário, que pratique uma destas coisas, 11quando ele não cometeu nenhuma, isto é, um filho que chegue a comer nos montes, que desonre a mulher do seu próximo, 12que explore o pobre e o necessitado, que cometa furto, que não devolva o penhor, que eleve os seus olhos para os ídolos imundos e cometa abominação, 13que empreste com usura e aceite juros, certamente não viverá, por ter praticado todas estas abominações: ele morrerá e o seu sangue cairá sobre ele. 14Mas se este, por sua vez, tiver um filho que vê todos os pecados cometidos pelo seu pai, os vê, mas não os imita, 15isto é, não come sobre os montes e não eleva os seus olhos para os ídolos impuros da casa de Israel, não desonra a mulher do seu próximo, 16não explora ninguém, não exige penhor e não comete furto, antes, dá o seu pão ao faminto e veste aquele que está nu, 17se abstém da injustiça, não aceita usura nem juros, observa as minhas normas e anda nos meus estatutos, este não morrerá pelas iniquidades de seu pai, antes, certamente viverá. 18O seu pai, visto que agiu com violência e praticou o furto, visto que não se comportou bem no seio do seu povo, este, sim, morrerá por causa da sua iniquidade. 19E vós dizeis: "Por que o filho não há de levar a iniquidade de seu pai?" Ora, o filho praticou o direito e a justiça, observou todos os meus estatutos e os praticou! Por tudo isso, certamente viverá. 20Sim, a pessoa que peca é a que morre! O filho não sofre o castigo da iniqüidade do pai, como o pai não sofre o castigo da iniqüidade do filho: a justiça do justo será imputada a ele, exatamente como a impiedade do ímpio será imputada a ele3. (Grifos nossos)
Portanto, baseado neste texto que diga-se de passagem é dos mais expressivos, e como disse S. Jerônimo, a verdade não pode estar em coisas que se contradizem, a Bíblia não apoia a ideia da transferência de responsabilidade, cada um é responsável por si. Como nos ensinou Jesus, a cada um segundo as suas obras4. Deste modo, voltando a citar o artigo do Rabino Benjamin Mossé:

Se Adão e Eva pecaram, só a eles pertence a responsabilidade de sua ação má; só a eles sua queda, sua expiação, sua redenção por meio de seus esforços pessoais para reconquistar a sua nobreza.5

Todavia existe neste dogma algo de verdade, realmente todo mal existente em nosso Universo é fruto do pecado, é devido às nossas transgressões que temos a necessidade de nascer e morrer, pois o Espírito Puro não precisa mais do ciclo dos renascimentos. Daí, entendemos que todas as desigualdades da vida, as guerras, as enfermidades, e a morte de um modo geral, tudo isto é devido mesmo ao pecado. Então, como conciliar e harmonizar esta questão, o que a doutrina espírita pode nos esclarecer quanto ao chamado pecado original?
Este é mais um tema em que à luz da reencarnação e da preexistência da alma tudo fica esclarecido com muita naturalidade.
Deixamos a palavra com Kardec:

Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não seria somente inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só, seria também um contrassenso, e tanto menos justificável quanto, segundo essa doutrina, a alma não existia na época a que se pretende fazer que a sua responsabilidade remonte. Com a preexistência, o homem traz, ao renascer, o gérmen das suas imperfeições, dos defeitos de que se não corrigiu e que se traduzem pelos instintos naturais e pelos pendores para tal ou tal vício. É esse o seu verdadeiro pecado original, cujas consequências naturalmente sofre, mas com a diferença capital de que sofre a pena das suas próprias faltas, e não das de outrem; e com a outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, animadora e soberanamente equitativa, de que cada existência lhe oferece os meios de se redimir pela reparação e de progredir, quer despojando-se de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos e, assim, até que, suficientemente purificado, não necessite mais da vida corporal e possa viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada.6

Assim, entendemos. O Espírito reencarna muitas vezes na Terra ou em outros Orbes realizando seu aperfeiçoamento. Ele, Espírito, inicia sua evolução no estado de “simples e ignorante” e tem por destinação a Perfeição Moral que é característica dos Espíritos Puros.
É ainda Kardec quem nos elucida:

O Espírito tem por destino a vida espiritual, porém, nas primeiras fases da sua existência corpórea, somente a exigências materiais lhe cumpre satisfazer e, para tal, o exercício das paixões constitui uma necessidade para o efeito da conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Mas, uma vez saído desse período, outras necessidades se lhe apresentam, a princípio semimorais e semimateriais, depois exclusivamente morais. É então que o Espírito exerce domínio sobre a matéria, sacode-lhe o jugo, avança pela senda providencial que se lhe acha traçada e se aproxima do seu destino final. Se, ao contrário, ele se deixa dominar pela matéria, atrasa-se e se identifica com o bruto.
Nessa situação, o que era outrora um bem, porque era uma necessidade da sua natureza, transforma-se num mal, não só porque já não constitui uma necessidade, como porque se torna prejudicial à espiritualização do ser. 7

Desta forma, quando o Espírito se deixa dominar pela matéria e entra num plano de transgressão da Lei é quando ele se “desvia do rumo” ou “erra o alvo”, assim, ele vai criando para si um psiquismo de erro e aprofundando suas imperfeições. Ao desencarnar ele leva para o mundo espiritual todas estas imperfeições e ao reencarnar ele as traz como tendências negativas, por isto é certo dizer que nascemos pecadores, que temos o “gérmen do pecado”. Como nos ensinou Kardec, esse é o pecado original que todos trazemos e que gera toda sorte de males, a diferença é que cada um é responsável pelo seu, como confirma o apóstolo Paulo todos pecamos, por isso todos estamos privados da Glória de Deus8.
Importante ainda notar aqui outro diferencial da doutrina espírita, o quanto ela é consoladora cumprindo assim a profecia de Jesus quanto ao advento do Paráclito.
Enquanto os defensores do dogma do pecado original defendem a eternidade das penas após o curto espaço de tempo de uma vida, a doutrina espírita ensina que através das reencarnações o Espírito progride, se aperfeiçoa, e recompõe a sua consciência através da reparação de seus erros. Com isso nenhum dos filhos de Deus se perde pela eternidade, todos se salvam.
Pense bem, reflita com calma e sem preconceitos, qual das duas propostas parece mais ter vindo de Deus, qual transparece mais os atributos superiores do Criador, a doutrina que prega o pecado original e as penas eternas após uma única vida, ou a da responsabilidade individual e da redenção do Espírito e de todos os Espíritos pela Lei da reencarnação?

Obras Consultadas:

A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Ed. Paulinas, 1992.
KARDEC Allan;. “Do Pecado Original Segundo o Judaísmo.” Revista Espírita, Novembro de 1868.
KARDEC, Allan. A Gênese, 26ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1984.


1 Salmo, 51: 5
2 KARDEC Allan;. “Do Pecado Original Segundo o Judaísmo.” Revista Espírita, Novembro de 1868.
3 Ezequiel, 18: 1 a 20
4 Apocalipse, 22: 12
5 (KARDEC Allan; Novembro de 1868)
6 KARDEC, Allan. A Gênese, 26ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1984. Cap, I item 38
7 (KARDEC 1984); Cap. III Item 10
8 Romanos, 3: 23

sexta-feira, junho 15, 2012

Estudo Minucioso do Evangelho 1º Programa da FEB na TV CEI

Mediunidade e Evangelho - Palavra de Sabedoria (1 Coríntios, 12: 8)

Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência...
Há diversas formas de um Espírito se manifestar a um médium. Além dos tipos diversos de mediunidade, há também diversidade quanto ao conteúdo das mensagens.
Isto tudo não esquecendo, é claro, a orientação de um Espírito superior dada ao Codificador:
Com um médium, cuja inteligência atual, ou anterior, se ache desenvolvida, o nosso pensamento se comunica instantaneamente de Espírito a Espírito, por uma faculdade peculiar à essência mesma do Espírito. Nesse caso, encontramos no cérebro do médium os elementos próprios a dar ao nosso pensamento a vestidura da palavra que lhe corresponda e isto quer o médium seja intuitivo, quer semimecânico, ou inteiramente mecânico. Essa a razão por que, seja qual for a diversidade dos Espíritos que se comunicam com um médium, os ditados que este obtém, embora procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal.1
Assim aprendemos que todo médium, sem exceção, interfere de certo modo na comunicação, por isso a necessidade de estudo e de elevação moral do médium.
Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; afirmando assim aos seus pupilos de Corinto, o apóstolo convidava-os à elevação espiritual, pois se o Espírito comunicante encontrasse condição no medianeiro, poderia confiar-lhe a palavra de sabedoria.
Segundo o dicionário, sabedoria é qualidade de sábio, caráter do que é dito ou pensado sabiamente, acúmulo de muitos conhecimentos2. É também sinônimo de ciência.
Porém, o apóstolo neste texto diferencia a palavra de sabedoria da de ciência.
No capítulo 2 desta mesma carta, ele assim se expressa:
Todavia, falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam; mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória.
Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam.
Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.
Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.
Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus.
As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.
Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.
Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido.
Porque quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.3
Deste modo aprendemos que, por sabedoria quer o autor da epístola expressar o conhecimento do que vem direto da Mente Divina através de Cristo e de Seus prepostos. É o ensinamento superior relativo às coisas do Espírito; e só os que estão em plena harmonia com as questões espirituais podem perceber.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.4
Desta forma, se quisermos receber os ensinamentos superiores vindo diretamente da Alma do Universo, estejamos atentos ao Amai-vos uns aos outros, pois só conhecendo a Verdade Universal do Amor seremos libertos de todas as ilusões materiais.
E a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; se a uns pela sua superioridade espiritual pode ser revelada a sabedoria, a outros nem tanto elevados, mas ainda assim superiores, pode o mesmo Espírito revelar a palavra da ciência.
Por ciência aqui devemos entender então o conhecimento que já pode o homem acessar pelas vias do raciocínio ou da razão. Se a sabedoria vem pelas vias da intuição daquele que já se harmonizou com as leis diretoras do cosmos, esta, a ciência, também é selecionada àqueles de boa elevação espiritual, porém que se acham na fase racional.
Muito podemos descobrir tendo por guia a fé racional, todavia para isso há de o Espírito ter amadurecimento para saber pesquisar usando as faculdades conquistadas pelos caminhos da evolução.
O que Paulo quer mesmo demonstrar com estes versículos que ora estamos estudando é que a todos nós poderão os Espíritos tudo revelar, mas eles o farão de acordo com as possibilidades de cada um. Por isso mais uma vez lembramos a importância do estudo e do constante aperfeiçoamento moral do médium e de todos nós que desejarmos ser, ostensivamente ou não, intermediários entre os dois planos da vida.
...seja qual for a diversidade dos Espíritos que se comunicam com um médium, os ditados que este obtém, embora procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal.5
Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai.6
1 O Livro dos Médiuns, item 225
2 Dicionário Eletrônico Houaiss
3 Coríntios, 2: 6 a 16
4 Mateus 5:8
5 O Livro dos Médiuns, item 225
6 João, 14: 12

sexta-feira, junho 08, 2012

Reencarnação na Bíblia – Novas Reflexões



Eis o que é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.1

O tema da reencarnação na Bíblia é sempre recorrente, ele vai e volta sempre abrindo aos estudiosos dos textos sagrados novas oportunidades de esclarecimento.
É preciso compreendermos que a Bíblia não é um livro preto no branco. Ou seja, nela os ensinamentos não são percebidos claramente através de uma simples leitura, é preciso meditarmos, pesquisarmos, e encontrarmos nas entrelinhas suas verdades fundamentais.
O texto que colocamos em epígrafe para estes nossos comentários é um destes que nos revelam importante verdade teológica, mas que para que possamos apreendê-la faz-se preciso refletirmos com profundidade e despido de preconceitos.
Quando dizemos em verdades teológicas muitos de nossos leitores espíritas podem não compreender claramente o que estamos querendo dizer, pois pensam que teologia é tema exclusivo do cristianismo católico e protestante. Lembramos a estes que teologia é o estudo das questões referentes ao conhecimento da divindade, de seus atributos e relações com o mundo e com os homens; portanto, podemos com toda tranquilidade falarmos em teologia espírita e dizer mais, cabe a esta nos trazer revelações que as outras ainda estão incapacitadas de nos fazer conhecer.
À primeira vista nada tem neste texto, escrito pelo apóstolo dos gentios ao seu fiel discípulo Timóteo, que diga sobre a verdade da lei reencarnatória, entretanto se refletirmos com cuidado vamos ver que ele só pode ser integralmente compreendido à luz dos ciclos dos renascimentos.
O apóstolo Paulo inicia o verso dizendo que Deus é nosso Salvador. E isso precisa ser compreendido.
Por que precisamos de um Salvador? E como Deus pode nos Salvar? Aliás, o que é salvar-se?
O Espírito não tinha necessidade de passar pela fieira do mal conforme aprendemos na codificação espírita; ao fazer esta opção pelas transgressões à Lei de Deus, ele se afastou do Criador, e salvar-se significa recompor a sua consciência, resgatar o mal que há em si oriundo destas transgressões; voltar para a Casa Paterna.
A partir deste momento impar de sua história evolutiva, o da queda no erro, Deus traçou para Seus filhos rebeldes um plano de recomposição e de volta à Sua Lei, esta caminhada de retorno que é a evolução, e que também é lei, é que é a estrada de salvação pela qual o Espírito deve percorrer. Aqui é preciso que fique claro que todos nós, Espíritos em evolução, estamos passando por este processo, todos transgredimos e preciso é que realizemos o processo de redenção.

assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.2

Neste breve texto da Carta a Timóteo o apóstolo nos diz que é Vontade de Deus que todos os homens sejam salvos:
[Deus]…que quer que todos os homens sejam salvos…
Temos aprendido através de estudiosos que se dedicam ao estudo da psicologia, sobre o valor da vontade em nossas realizações. É verdade consumada que “querer é poder”. Se isto pode ser dito em relação ao querer do homem que ainda é tão fraco espiritualmente falando, o que não podemos dizer sobre o “querer de Deus”?
Assim, chegamos a uma primeira verdade teológica: o querer de Deus que é a Sua Vontade, é Lei. Ela irá se cumprir, nada pode lhe fazer definitiva oposição, queiramos ou não a Vontade de Deus sempre se cumpre, o que varia é o tempo para que ela se estabeleça.
Daí depreendemos que todos os homens serão salvos, é da Lei de Deus; talvez este seja o único encaminhamento determinístico do Universo: todos nos tornaremos puros, perfeitos, salvos, e assim conforme o próprio versículo, chegaremos ao conhecimento da verdade. E aqui é dito não de um conhecimento intelectual apenas, mas do conhecimento que se dá pela vivência, por experiência íntima. Só os que vivem a Verdade única de Deus que é o Amor têm o Conhecimento Pleno da Verdade.
Tendo isto como conclusão lógica do versículo citado, podemos inquirir, mas como todos os homens se salvarão, ou terão conhecimento da verdade se muitos - talvez a maioria - morrem no erro, na transgressão da Lei e distanciados de Deus?
Só existem duas possibilidades em se tratando de destinação futura. Aqui não levaremos em conta a tese materialista que pressupõe que tudo termina no túmulo. Estamos escrevendo para leitores espiritualistas, seja de que escola religiosa for.
Pela hipótese da unicidade das existências a destinação futura de salvação ou condenação eterna se dará exclusivamente pelo que foi feito na vida única; ou seja, depois desta, seja no ato, ou no dia do juízo, vem o veredicto final e aí a destinação eterna: céu ou inferno, salvação ou condenação.
Se esta for uma realidade o versículo citado está errado, pois a Vontade de Deus não se cumpriu, ou seja, o Perfeito não foi capaz de fazer da sua Vontade uma realidade, pois é fato que levando em conta só esta vida atual nem todos se salvam.
A outra hipótese é a da reencarnação. Nela os Espíritos que não alcançaram a redenção ou a recomposição de suas consciências na vida atual, e diga-se de passagem isto nunca se dá numa única existência, têm outras oportunidades de se aperfeiçoarem, se purificarem, de se tornarem melhor, e realizar a Vontade de Deus que é a da salvação de todos os homens.
Esta hipótese, além de mais lógica está mais condizente com os atributos de Deus entre eles a Misericórdia e a Justiça.
A tese é mais ampla e apesar de não ser complexa tem outros desdobramentos que não nos cabe discutir aqui neste breve texto que tem apenas o objetivo de mostrar que a realidade palingenésica está presente em vários textos das Escrituras, mesmo em alguns que numa primeira leitura não percebemos.
A Bíblia é um grande livro, o maior entre todos os já escritos, entretanto ela não é maior do que Deus, e se em algum ponto ela desmentisse qualquer atributo do Criador não poderia ser considerada como expressão da Palavra de Deus como querem nossos irmãos católicos e protestantes.
A reencarnação é a única forma de se comprovar a Justiça de Deus, e se a Bíblia condenasse esta hipótese, ela teria de ser reescrita. Entretanto, dizemos, isto não será preciso, pois como temos visto em nossos estudos a verdade teológica da reencarnação está presente em vários textos da literatura tanto do Velho quanto do Novo Testamento.
Outra questão que os defensores da unicidade da existência talvez nunca tenha pensado a respeito é a de que sendo Deus Onisciente Ele sabe de tudo. Nada é oculto para Ele, nem passado nem presente, nem futuro. Ele sabe o que aconteceu, o que acontece, e o que vai acontecer.
Bom, se ele conhece o futuro, e isso é uma realidade ou Ele não seria Deus, Ele sabe no exato instante em que cria um homem, um Espírito, ou uma alma, como queiram, se este Ser irá se salvar ou não (se esta for a realidade, a da unicidade das existências). Se Deus que é Pai cria um Ser já sabendo que ele vai se perder pela eternidade, isto não seria uma maldade do Criador?
E aí perguntamos será possível isto? Não, não será, pois maldade não é atributo de Deus, que é acima de tudo Amor.
Podem argumentar que estamos errados dizendo que Deus não quer a perda de nenhum homem e dá para todos, várias oportunidades de salvação. Isto é uma realidade, todavia não é o que está em foco aqui. Mesmo dando a todos oportunidades de recomposição e não desejando a morte eterna de nenhum de Seus filhos, através de Sua onisciência Ele sabe se aquele Espírito irá ou não aproveitar as oportunidades e se salvar no instante mesmo de sua criação, e isto é inaceitável em se tratando da Perfeição do Criador e de Sua Justiça Plena.
Pensemos sobre isto. Fica assim invalidada a tese da unicidade da existência na carne se analisarmos todos os atributos de Deus.
Como segundo São Jerônimo a verdade não pode existir em coisas que divergem, precisamos fazer uma nova leitura da Bíblia à luz da verdade da reencarnação, só assim poderemos compreender toda grandeza de sua moral.
1 I Timóteo, 2: 3 e 4
2 Romanos, 5: 12

terça-feira, junho 05, 2012

Mediunidade e Evangelho - Objetivo da Mediunidade (1 Coríntios, 12: 7)


Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil.
A mediunidade é uma faculdade amoral, ou seja, ela não é nem contrária nem conforme a moral. Somos nós quem damos a ela a qualificação de acordo como a vivenciamos.
Para nós espíritas, conforme orientação de Kardec, não podemos pensar em mediunidade se não for com Jesus, como prática de caridade; caso isso não ocorra estaremos sendo falsos espíritas:
Os que não se contentam com admirar a moral espírita, que a praticam e lhe aceitam todas as consequências.
Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar os seus breves instantes para avançar pela senda do progresso, única que os pode elevar na hierarquia do mundo dos Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e coibir seus maus pendores. As relações com eles sempre oferecem segurança, porque a convicção que nutrem os preserva de pensar em praticar o mal. A caridade é, em tudo, a regra de proceder a que obedecem. São os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.1
É no mesmo tom que diz o apóstolo Paulo, mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil, isto significa que a mediunidade não pode ser praticada à toa, de forma desordenada; há um objetivo, há de haver uma planificação e uma meta maior a ser alcançada.
Deste modo pensemos, quais são os objetivos da mediunidade?
Podemos, sem a pretensão de esgotar o assunto, enumerar alguns:
Para os encarnados:
  • ·Cooperação no serviço de reconforto e esclarecimento.
  • ·Autoeducação, pela renovação dos sentimentos e pela oportunidade de trabalho, que quando bem executado, em muito eleva o Espírito.
  • ·Construção de afeições muito valiosas no plano espiritual, consolidadas em base de cooperação e amizade superior.
  • ·Conhecimento do plano espiritual, o que muito lhe auxiliará quando do seu desencarne.
Para os Desencarnados:
  • Melhor entendimento do processo evolutivo a que todos estamos sujeitos, nos dois planos da vida.
  • ·Aqueles que sofrem pela falta de entendimento da nova vida, têm na mediunidade oportunidade segura de melhor compreender sua situação, e assim programar atitudes renovadoras.
  • ·Transmissão aos encarnados de valiosos ensinamentos ministrados por Espíritos de alta hierarquia espiritual.
Lembremos ainda O Livro dos Espíritos: Toda ocupação útil é trabalho.2 Portanto, para o espírita fiel aos seus preceitos doutrinários, mediunidade é trabalho, e trabalho em favor daqueles que necessitam. Não é por outro motivo que Emmanuel assim se manifesta sobre esta nobre faculdade:
Reconhecerás que não reténs com ela um distrito de entretenimento ou vantagens pessoais e sim um templo-oficina (…)3.
Assim, meditemos: como tem sido o nosso exercício mediúnico? Pois, a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil.
1 O Livro dos Médiuns item 28-3º
2 O Livro dos Espíritos, questão 675
3 Encontro Marcado cap. 28

sexta-feira, junho 01, 2012

Jesus amaldiçoou a Figueira sem Fruto?

 
E, deixando-os, saiu da cidade para Betânia e ali passou a noite.
E, de manhã, voltando para a cidade, teve fome.
E, avistando uma figueira perto do caminho, dirigiu-se a ela e não achou nela senão folhas. E disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E a figueira secou imediatamente.
E os discípulos, vendo isso, maravilharam-se, dizendo: Como secou imediatamente a figueira? (Mateus, 21: 17 a 20)
E, no dia seguinte, quando saíram de Betânia, teve fome.
Vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos.
E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isso. (Marcos, 11: 12 a 14)
Muitos estudiosos do Evangelho têm tido dificuldade em interpretar a passagem acima. Alguns, e até mesmo entre os espíritas, têm dito que este fato não pode ter-se dado, que não passa de uma interpolação nos textos do Evangelho, já que estes sofreram ao longo do tempo muitas modificações devido a dificuldade existente em se copiar e multiplicar os manuscritos originais dos apóstolos evangelistas.
Tudo isto porque, segundo estes comentaristas, a ação de amaldiçoar a figueira não seria uma atitude normal de um espírito como o de Jesus, o Manso por excelência.
Não deixam estes de ter uma certa razão, realmente Jesus jamais amaldiçoaria qualquer obra da Criação divina, ainda mais que segundo o evangelista, não era tempo de figos.
Porém, pensamos que há mais o que refletir sobre o assunto.
Segundo anotação do Espírito Humberto de Campos através da mediunidade do nosso querido Chico Xavier, a partir de um encontro com o Espírito do apóstolo Pedro na espiritualidade, todas as obras a que se referem os evangelistas são profundamente verdadeiras.1
Deste modo, segundo o testemunho do próprio apóstolo, todas as coisas se deram conforme anotação dos evangelistas; assim, se aconteceu e foi relatado, devemos analisar. Pois, se a Doutrina Espírita, segundo anotação do próprio Kardec, é a terceira revelação da Lei de Deus para nós os ocidentais, o advento do Cristo é a segunda; portanto, se é fato que o “Espírito de Verdade” auxiliou Kardec na codificação, o mesmo se deu na redação dos Evangelhos e se alguma passagem foi preservada é que deveríamos estudá-la buscando através dos ensinamentos nela contidos a nossa edificação e promoção espiritual.
Assim, se temos dificuldade de compreender a mensagem que Jesus nos deixou em alguma de suas ações, não devemos dizer que ela não aconteceu ou que a tradução está incorreta, e sim, que ainda não conseguimos alcançar o pensamento daquele que é o Mestre maior entre todos os mestres.
E isso não é nenhum demérito para nós. Não devemos esquecer que Jesus é, segundo os Espíritos superiores, o construtor e o mentor espiritual de nosso orbe, o que vale dizer que há bilhões de anos quando da formação de nosso planeta, Ele já era o Cristo, quando nós ainda, provavelmente, fazíamos nossa evolução nos reinos inferiores da criação. Jesus tem uma mente que está a “anos luz” à nossa frente, sua psicologia ainda é para nós inabordável, deste modo, tenhamos humildade, muito ainda temos a aprender com seus atos, e apesar do seu esforço em adequar seus ensinamentos, à medida que vamos evoluindo em espírito e moral mais iremos absorvendo suas significativas lições.

(Leia o texto completo no Site Espiritismo e Evangelho )