segunda-feira, dezembro 26, 2011

Laodicéia, a Comunidade Cristã do Fim dos Tempos


Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:  15 Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente!  16 Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca;  17 pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.  18 Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.  19 Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.  20 Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.  21 Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.  22 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.[1]


[1] Apocalipse, 3: 14 a 22

A igreja de Laodicéia merece de nossa parte, Cristãos de hoje, um estudo es-pecial realizado com muito carinho e atenção. Não que ela tenha sido melhor do que as outras, pelo contrário, ela foi a única à qual o Senhor como o autor espiri-tual do Apocalipse não teceu nenhum elogio. Esta comunidade só recebeu por parte dele, nestas cartas materializadas pelo apóstolo João, reprimendas; apesar Dele o fazer com muito amor é o que se destaca de Suas observações.

É que alguns estudiosos viram nestas sete comunidades escolhidas para sim-bolizar a totalidade do cristianismo, sete fases distintas da Igreja cristã, em que Laodicéia sendo a última representa a que se manifestaria no fim dos tempos, isto é, nos dias atuais da grande transição planetária.

Portanto, nós somos Laodicéia hoje, e se a observação para todas as sete de-vem ser por nós ponderadas e avaliadas com muita atenção, muito mais esta.

Etimologicamente Laodicéia significa “justiça do povo” ou “julgamento do povo”, o que expressa bem o juízo consciencial que é realizado por cada um nos dias finais de qualquer fase da vida, e muito mais num sentido geral nestes úl-timos dias de um ciclo evolutivo e de transição global.

Todavia alguns, apesar de minoria, leem também no nome desta cidade “o povo que julga”, e aí começam as complicações; é quando entendemos que de-vemos tomar a direção do processo evolutivo de alguém ou de uma situação no lugar de Deus realizando o que só a Ele cabe. Neste passo pensamos estar acima do bem e do mal podendo legislar com segurança. Há de termos cuidado, pois podemos fazer aí uma analogia com a situação de Adão e Eva que resolveram contra as determinações divinas se alimentarem do fruto da ciência do bem e do mal e se desviaram do caminho. Neste instante em que desejamos fazer a nossa vontade e não a de Deus corremos o perigo de novas quedas.

A cidade recebeu este nome em substituição a Dióspolis que era o nome an-terior, que significava “cidade de Deus” em homenagem a Zeus e Júpiter prin-cipais divindades locais; Laodicéia homenageia a Laodice, esposa de Antíoco II Theos e mãe de Seleuco II, da dinastia dos reis selêucidas da Síria que, então, dominava o povo àquele tempo.

Segundo o professor Rodrigo Silva o nome não foi a princípio bem aceito, já que a esposa do rei não era bem conceituada entre a população e também por-que isto podia levar ao abandono das divindades em favor da figura Antíoco II Theos, o novo rei, em cujo nome existia um trocadilho que tanto podia signifi-car "o opositor de Deus" quanto "o deus opositor".

Seja como for o nome que a referenciava como “metrópole de Laodice” foi o que permaneceu, priorizando os interesses do mundo em relação às questões espirituais.

Justificando assim esta nova realidade, na cidade foram feitas construções de grande porte com arquitetura refinada e com a nova administração a cidade se tornou rica e próspera.

Laodicéia situava-se na Frígia numa montanha que dava para um vale fértil, nas proximidades do rio Lico o que a colocava em uma situação privilegiada. O local era servido por um cruzamento de estradas importantes o que fazia desta cidade um destaque como rota comercial. Era como se ela fosse uma alfândega que cobrava impostos pelas mercadorias transitadas no local. Como parte des-tes impostos ficava em seu próprio caixa, ela podia investi-los e continuar cres-cendo economicamente. Desta forma tornou-se a mais rica metrópole da região, possuindo um importante centro bancário especializado em câmbios de ouro e moedas estrangeiras.

Outro destaque da cidade era que nela se situava uma das maiores escolas de medicina do mundo antigo. Sua fama se dava pela cura de olhos realizadas no local a partir de um colírio à base de alume ou sulfato que existia na região. O que fazia que ela fosse visitada por pessoas de todo império para tratar com seus médicos.

Ainda sob o ponto de vista econômico ela obtinha excelente renda como cen-tro têxtil que era por produzir e exportar tecidos finos principalmente à base de uma lã obtida a partir da criação de um raro carneiro negro.

O autor do Apocalipse contrasta esta prosperidade material com sua pobreza espiritual. Apesar do centro bancário, da medicina que curava olhos e de sua importante indústria têxtil ele diz que seu povo era infeliz justamente por ser miserável, pobre, cego e nu .

Tinha ainda a cidade representante de nossa comunidade cristã atual, muitos chafarizes a ornamentá-la, eram lindas obras de arte que faziam parte de seu conjunto arquitetônico bem ao estilo greco-romano; porém qualquer pessoa que menos avisada fosse beber sua água se surpreendia com seu gosto ruim. Pode-ríamos compará-las com aquela classe de pessoas a que se refere o Mestre como belas por fora e podres em sua essência?

É que como foi dito anteriormente, por ser rica em sulfato do qual se fabrica-va o colírio bom para as vistas, este mesmo produto contaminava seus lençóis freáticos tornando a água de suas fontes salobra. E por ser também uma região vulcânica estas mesmas águas eram aquecidas tornando-se mornas e inapropri-adas ao consumo.

Estaria aí a fonte da clássica observação do Enviado Celeste fazendo uma a-nalogia com a conduta repreensível da comunidade local de que ela não era nem fria e nem quente, e que sendo morna seria vomitada de Sua boca?

Analisemos todas estas informações e outras que possam surgir conjuguemo-las com nossa situação atual quando nos dizemos trabalhadores de Cristo, e busquemos nas orientações dadas pelo Messias a esta comunidade pontos de reflexão indutores de mudança e transformação moral para todos nós.

Leia o texto completo no Site Espiritismo e Evangelho:



segunda-feira, dezembro 19, 2011

O Trabalho da Mãe de Jesus no Plano Espiritual (continuação)


Maria dirige no Plano Espiritual várias organizações de socorro aos necessitados. No livro Memórias de um Suicida1 de autoria do Espírito Camilo Castelo Branco através da médium Yvonne do Amaral Pereira, é-nos relatado o socorro realizado aos Espíritos que praticaram o autoextermínio pela Legião dos Servos de Maria.
Trata-se de uma Legião de Espíritos dirigidos pelo Nobre Espírito Maria que tem por finalidade socorrer aqueles que abreviaram voluntariamente a sua vida e por isso padecem atrozes dores no Mundo Espiritual. Há entre os servidores da Mãe do Senhor disciplina e amor no auxílio a estes que sem dúvida são grandes necessitados de socorro espiritual.
Dá-nos a conhecer ainda, este autor espiritual português, outras organizações chefiadas por este angelical Espírito como o Hospital Maria de Nazaré e a Mansão da Esperança.
Outras citações poderíamos fazer para falar do trabalho da Rosa de Nazaré no Mundo do Espírito, entretanto, para encerrar estas singelas linhas sobre seu trabalho no sentido de apascentar as ovelhas de Seu Filho amado gostaríamos apenas de citar a referência de André Luiz àqueles que em prece pedem o socorro da Senhora dos Anjos para o alívio de seu coração.
Narra-nos este querido mentor estudando os processos de intercessão no Mundo da Verdade que certa matrona chorava com paciência e de joelhos diante de seu oratório particular quando seu orientador sugeriu-o acompanhar as vibrações mentais da irmã em súplica:
(…) postar-nos-emos na retaguarda, de modo a não a incomodar com a nossa presença. E, envolvendo-a nas vibrações de nossa simpatia, assimilar-lhe-emos a faixa mental, percebendo, com clareza, as imagens que ela cria em seu processo pessoal de oração.
Obedecemos maquinalmente e, de minha vez, à medida que concentrava a atenção naquela cabeça grisalha e pendente, mais se alterava o estreito espaço do nicho aos meus olhos...
Pouco a pouco, qual se emergisse da parede lirial, linda tela se me desdobra à visão, tomada de espanto. Era a reprodução viva da formosa escultura de Teixeira Lopes2 , representando a Mãe Santíssima chorando o Divino Filho morto... E as frases inarticuladas da veneranda irmã em prece ressoavam-me nos ouvidos:
- "Mãe Santíssima, Divina Senhora da Piedade, compadece-te de meus filhos que vagueiam nas trevas!... Por amor de teu filho sacrificado na cruz, ajuda-me o espírito sofredor para que eu possa ajudá-los...
Bem sei que por sinistro apego às posses materiais, não vacilaram em abraçar o crime.
Em verdade, Senhora, são eles homicidas infortunados que a justiça terrestre não conheceu... Por isso mesmo, padecem com mais intensidade o drama das próprias consciências, enleadas à culpa...”
Nesse ponto da petição, Silas tocou-nos, de leve, os ombros, convidando-nos ao ensinamento devido e explicou:
- É uma pobre mãe desencarnada que roga pelos filhos transviados nas sombras.
Invoca a proteção de nossa Mãe Santíssima, sob a representação de Senhora da Piedade, segundo a fé que o seu coração pode, por enquanto, albergar, no âmbito das recordações trazidas do mundo...
- Isso quer dizer que a imagem de nossa visão...
Esta observação ficou, porém, no ar, porque Silas completou, presto:
- É uma criação dela mesma, reflexo dos próprios pensamentos com que tece a rogativa, pensamentos esses que se ajustam à matéria sensível do nicho, plasmando a imagem colorida e vibrante que lhe corresponde aos desejos.
E respondendo automaticamente às indagações que o problema nos sugeria, continuou:
- Isso, contudo, não significa que a prece esteja sendo respondida por ela mesma. Petições semelhantes a esta elevam-se a planos superiores e aí são acolhidas pelos emissários da Virgem de Nazaré, a fim de serem examinadas e atendidas, conforme o critério da verdadeira sabedoria.3
A Hora do Ângelus
Há entre os encarnados, principalmente os que adotam a fé católica, um importante momento do dia - às dezoito horas, quando a suavidade do início da noite sugere momentos de reflexão - em que têm o hábito de reverenciar a Mãe das mães.
A literatura espírita através da mediunidade de Yvonne do Amaral Pereira4 nos sugere que esta reverência é fruto de um reflexo do Plano Maior já que na Espiritualidade muitos Espíritos também reverenciam a Santa de Nazaré neste mesmo horário.
Conta-nos Camilo Castelo Branco que:
Do templo, situado na Mansão da Harmonia, região onde se demoravam com freqüência os diretores e educadores da Colônia, partia o convite às homenagens que, naquele momento, seria de bom aviso prestarmos à Protetora da Legião a que pertencíamos todos – Maria de Nazaré.
Pelos recantos mais sombrios da Colônia ressoavam então doces acordes, melodias suavíssimas, entoadas pelos vigilantes. Era o momento em que a direção geral rendia graças ao Eterno pelos favores concedidos a quantos viviam sob o abrigo generoso daquele reduto de corrigendas, bendizendo a solicitude incansável do Bom Pastor em torno das ovelhinhas rebeldes, tuteladas da Legião de sua Mãe amorável e piedosa.
A narrativa continua na obra citada. Para nós importa comentar apenas que devido ao grande número de Espíritos encarnados e desencarnados envolvidos na prece neste mesmo momento, todos com a mente voltada para uma espiritualidade edificante, cria-se no planeta uma excelente vibração onde os Espíritos trabalhadores da Seara do Cristo encontram subsídios para realizar trabalhos inimagináveis para a mente do homem comum.
Assim, se possível, entremos nesta vibração coletiva do Bem buscando pela prece trabalhar em favor de nossos irmãos mais necessitados; sabedores que, no comando desta poderosa corrente está a Rosa Mística de Nazaré intercedendo perante Seu Filho, o Governador Espiritual do Orbe, por todos agregados a esta luminosa correnteza construtora da Ordem Universal.

1 PEREIRA, Yvonne do Amaral. Memórias de um Suicida, Rio de Janeiro, FEB, 1955
2 António Teixeira Lopes, notável escultor português. (Nota do Autor espiritual.)
3 XAVIER, Francisco C./André Luiz. Ação e Reação, 6a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1978, cap. 11
4 Cf (PEREIRA 1955), 3ª Parte cap. 2

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Maria de Nazaré no Plano Espiritual

 
O Espiritismo como ciência que estuda o plano físico e o homem, o plano espiritual e os Espíritos que o compõem, e as relações entre os dois, pôde com autoridade nos informar a respeito das atividades do nobre Espírito Maria no Plano Espiritual.
Sabemos que quanto mais o Espírito é evoluído, mais ele trabalha no Plano Maior da Vida. Espíritos ainda materializados que somos, após o desencarne necessitamos de um período de adaptação à nova vida, isto é comum a todos, e esta adaptação, segundo nos informam os próprios Espíritos, tem o tempo maior ou menor de acordo com a condição evolutiva moral e espiritual de cada um.
Na condição mediana em que nos encontramos, mostra-nos a literatura espírita a necessidade de que o Espírito alterne momentos de trabalho com momentos de descanso, pois tendo em seu corpo espiritual, ainda, elementos materiais, mesmo que em outra dimensão, necessita de refazimento e recomposição energética. Todavia há Espíritos que, de tão grande sua evolução, jamais descansam, trabalham ininterruptamente.
Pelo que podemos depreender através de nossas reflexões este é o caso de Maria de Nazaré, aquela escolhida pelo Pai para ser a mãe do Espírito mais nobre que nosso orbe já conheceu.
No livro Boa Nova, no citado capítulo que narra sobre o seu desencarne temos que o primeiro desejo da Mãe de Nosso Senhor após deixar o corpo físico foi rever a Galileia com os seus sítios preferidos1. Bastou desejar e lá estava ela revendo o Lago de Genesaré e toda sua bela paisagem.
Neste instante lembrou dos discípulos que eram já a este tempo perseguidos pela fúria humana ainda dissociada do Bem, e desejou abraçá-los fortalecendo-os em suas lutas íntimas. É que já acontecia por parte das autoridades do império romano as perseguições aos seguidores de Jesus, perseguições estas que levavam os cristãos autênticos a grandes sacrifícios em favor do Evangelho. Bastou esta expressão de sua vontade e rapidamente se viu em Roma onde nos cárceres do Esquilino centenas de seguidores de Seu Filho sofriam terríveis constrangimentos.
Narra Humberto de Campos que imediatamente os condenados experimentaram no coração um consolo desconhecido.
E continuando a narrativa informa-nos o cronista do Mundo Invisível:
Maria se aproximou de um a um, participou de suas angústias e orou com as suas preces, cheias de sofrimento e confiança. Sentiu-se mãe daquela assembleia de torturados pela injustiça do mundo. Espalhou a claridade misericordiosa de seu Espírito entre aquelas fisionomias pálidas e tristes.
Eram anciães que confiavam no Cristo, mulheres que por ele haviam desprezado o conforto do lar, jovens que depunham no Evangelho do Reino toda a sua esperança. Maria aliviou-lhes o coração e, antes de partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos espíritos abatidos uma lembrança perene. Que possuía para lhes dar? Deveria suplicar a Deus para eles a liberdade?! Mas, Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravidão com Deus do que a falsa liberdade nos desvãos do mundo. Recordou que seu filho deixara a força da oração como um poder incontrastável entre os discípulos amados. Então, rogou ao Céu que lhe desse a possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da alegria. Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e macilento, lhe disse ao ouvido:
— “Canta, minha filha! Tenhamos bom ânimo!… Convertamos as nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!…”
A triste prisioneira nunca saberia compreender o porquê da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração. De olhos extáticos, contemplando o firmamento luminoso, através das grades poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em consoladoras rimas de júbilo e esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que choravam no cárcere, aguardando o glorioso testemunho.
Acrescenta ainda o autor espiritual que:
Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a bendita entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua alegria, guardando a suave herança de nossa Mãe Santíssima.2
Notamos assim, que desde o primeiro momento no Plano Espiritual Maria, já consciente, trabalha e intercede pelos sofredores buscando aliviá-los de suas dores e angústias, sejam elas de natureza física ou espiritual.
Há belíssimo poema de Maria Dolores que conta-nos com todo lirismo o socorro de Maria ao Espírito Judas Iscariotes em momentos que este sofria grave crise de consciência.
Citamo-lo a seguir:
RETRATO DE MÃE
Depois de muito tempo,
Sobre os quadros sombrios do Calvário,
Judas, cego no Além, errava solitário…
Era triste a paisagem,
O céu era nevoento…
Cansado de remorso e sofrimento,
Sentara-se a chorar…
Nisso, nobre mulher de Planos superiores,
Nimbada de celestes esplendores,
Que ele não conseguia divisar,
Chega e afaga a cabeça do infeliz.
Em seguida, num tom de carinho profundo,
Quase que, em oração, ela lhe diz:
Meu filho, por que choras?
Acaso, não sabeis? — replica o interpelado,
Claramente agressivo,
Sou um morto e estou vivo.
Matei-me e novamente estou de pé,
Sem consolo, sem lar, sem amor e sem fé…
Não ouvistes falar em Judas, o traidor?
Sou eu que aniquilei a vida do Senhor…
A princípio, julguei
Poder faze-lo rei,
Mas apenas lhe impus
Sacrifício, martírio, sangue e cruz.
E em flagelo e aflição
Eis a que a minha vida agora se reduz…
Afastai-vos de mim,
Deixai-me padecer neste inferno sem fim…
Nada me pergunteis, retirai-vos senhora,
Nada sabeis da mágoa que me agita,
Nunca penetrareis minha dor infinita…
O assunto que lastimo é unicamente meu…
No entanto, a dama calma respondeu:
Meu filho, sei que sofres, sei que lutas,
Sei a dor que te causa o remorso que escutas,
Venho apenas falar-te
Que Deus é sempre amor em toda parte..
E acrescentou serena:
A Bondade do Céu jamais condena;
Venho por mãe a ti, buscando um filho amado.
Sofre com paciência a dor e a prova;
Terás, em breve, uma existência nova…
Não te sintas sozinho ou desprezado.
Judas interrompeu-a e bradou, rude e pasmo:
Mãe? Não me venhais aqui com mentira e sarcasmo.
Depois de me enforcar num galho de figueira,
Para acordar na dor,
Sem mais poder fugir à vida verdadeira,
Fui procurar consolo e força de viver
Ao pé da pobre mãe que me forjara o ser!…
Ela me viu chorando e escutou meus lamentos,
Mas teve medo de meus sofrimentos.
Expulsou-me a esconjuros,
Chamou-me monstro, por sinal,
Disse que eu era
Unicamente o Espírito do mal;
Intimou-me a terrível retrocesso,
Mandando que apressasse o meu regresso
Para a zona infernal, de onde, por certo, eu vinha…
Ah! detesto lembrar a horrível mãe que eu tinha…
Não me faleis de mães, não me faleis de amor,
Sou apenas um monstro sofredor…
Inda assim — disse a dama docemente —
Por mais que me recuses, não me altero;
Amo-te, filho meu, amo-te e quero
Ver-te, de novo, a vida
Maravilhosamente revestida
De paz e luz, de fé e elevação…
Virás comigo à Terra,
Perderás, pouco a pouco, o ânimo violento,
Terás o coração
Nas águas de bendito esquecimento.
Numa nova existência de esperança,
Levar-te-ei comigo
A remansoso abrigo,
Dar-te-ei outra mãe! Pensa e descansa!…
E Judas, nesse instante,
Como quem olvidasse a própria dor gigante
Ou como quem se desagarra
De pesadelo atroz,
Perguntou: — quem sois vós?
Que me falais assim, sabendo-me traidor?
Sois divina mulher, irradiando amor
Ou anjo celestial de quem pressinto a luz?!…
No entanto, ela a fitá-lo, frente a frente,
Respondeu simplesmente:
Meu filho, eu sou Maria, sou a mãe de Jesus.3
1 Boa Nova, cap. 30
2 Idem, ibidem.
3 Momentos de Ouro, cap. 3

segunda-feira, novembro 28, 2011

Quando Penso em Jesus - Cacau

Maria de Nazaré, a Educadora de Jesus (continuação...)


Maria e João. O Trabalho da Mãe Após o Desencarne do Filho
Segundo a narrativa de João já citada neste estudo, após o momento da crucificação de Jesus, o Discípulo Amado, acolheu a mãe do Mestre em sua casa1.
A literatura espírita confirma este acontecimento, porém diz que tal acolhimento não se deu imediatamente, mas algum tempo depois.
Quem nos dá a notícia é o Espírito Humberto de Campos através da mediunidade do cândido Chico Xavier2.
Segundo este autor espiritual, após a morte de seu filho Maria foi morar na Bataneia onde tinha alguns parentes próximos, na realidade familiares de José.
Em Jerusalém o clima não estava bom, cristãos e judeus viviam em luta. Mesmo entre os próprios seguidores de Jesus haviam dissensões inadequadas; a Mãe de nosso Senhor precisava de um pouco de paz para se recuperar dos momentos dolorosos do calvário.
Passado algum tempo, João, que nunca esquecera das observações de Jesus no momento da crucificação, aparece na Bataneia oferecendo à Mãe que aprendera a amar, o refugio amoroso de sua proteção3.
Conta o apóstolo, que havia se instalado em Éfeso, Cidade da Lídia, na costa ocidental da Ásia Menor, onde as ideias cristãs ganhavam terreno entre as almas devotadas e sinceras.
O filho de Zebedeu vinha buscá-la, andariam ambos na mesma associação de interesses espirituais. Seria seu filho desvelado…
A demora em buscar a Mãe Santíssima se dera devido ao fato dele não ter ainda uma casa, mesmo que simples, para acomodá-la. Tendo agora resolvido esta questão graças à generosidade de um cristão que lhe doara uma casinha onde poderiam morar, viera rapidamente buscá-la, iniciariam uma nova era de amor, na comunidade universal.
Maria aceitou a oferta e se instalou junto de seu novo filho em Éfeso, e, além de cultivar as lembranças de Jesus, iniciaram importante trabalho de evangelização na região. Ela atendia em sua própria casa aos necessitados que lá iam em busca de consolo e até mesmo de cura de algumas enfermidades; ele por sua vez cuidava mais especificamente do esclarecimento evangélico comentando sobre os ensinamentos recebidos de Jesus.
Narra Emmanuel4, que Paulo de Tarso visitou Maria nesta casinha singela e que ficou impressionado com a sua humildade. Desejou receber dela informações sobre Jesus de tal modo que pudesse escrever um Evangelho contando a história do Mestre e ampliar seus ensinamentos.
Paulo não pôde realizar este desejo, entretanto, encarregou a seu amigo de confiança, Lucas, a tarefa de realizar o projeto de escrever um Evangelho com as informações fornecidas pela mãe de Jesus.
Conta-nos ainda Emmanuel que na despedida de Paulo, em Éfeso, antes de seu martírio em Jerusalém, Ela também, mesmo que em idade avançada, compareceu para levar uma palavra de amor5 a este desbravador de corações em favor do Evangelho.
O trabalho em Éfeso cresce em grandes proporções o que obriga João a se ausentar repetidas vezes da residência humilde deixando Maria muitas vezes só no atendimento dos necessitados, ela já bem idosa não se cansa e trabalha ininterruptamente em favor dos infelizes apascentando as ovelhas de Seu filho amado.
É Humberto de Campos6 quem nos informa que em seus momentos finais no corpo cansado, fisicamente estava só, mas que o próprio Jesus veio buscá-la. Ela ao reconhecê-lo, com imensa alegria fez menção em ajoelhar-se aos seus pés, ele a impediu, e por sua vez foi quem ajoelhou nomeando-a conforme a vontade de Deus, Rainha dos anjos no Reino do Eterno.
1 Cf. João, 19: 27
2 Boa Nova, cap. 30
3 Ibidem
4 Paulo e Estevão, cap. 7
5 Ibidem
6 Boa Nova, cap. 30

quarta-feira, novembro 16, 2011

Maria de Nazaré, a Educadora de Jesus (continuação)


Maria: Mãe de Toda Humanidade
Uma passagem do Evangelho que nos traz significativos pontos para reflexão é a da crucificação de Jesus, mais especificamente segundo a narrativa de João que cita a presença da mãe de nosso Senhor no evento que marcou os momentos finais Dele na carne.
Segundo o redator do quarto Evangelho:
Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa.1
Já de início vemos na narrativa algo que serve para nós do sexo masculino nos envergonharmos diante da situação. Jesus teve mais próximo de si doze discípulos homens. Se descontarmos Judas Iscariotes que se afastou do grupo no final para entregar a Jesus, ainda restaram onze. E de todos estes seus amigos apenas João esteve presente no momento de sua crucificação. Ao contrário, muitas mulheres, também suas seguidoras, se fizeram presente no instante final, prestando solidariedade e sofrendo junto.
Depreendemos daí, e notamos isto no dia a dia, mesmo hoje, que a mulher é muito mais corajosa do que o homem. Há exceções, todavia, no geral, elas enfrentam certos momentos de tensão com maior superioridade espiritual do que nós.
Cremos, sem querer fechar a questão sobre o assunto, e principalmente aqui no caso da crucificação, que o que deu coragem a estas fieis seguidoras de Jesus, foi o sentimento de amor que já possuíam como virtude conquistada, sentimento este que na maioria das vezes têm elas mais do que nós do sexo masculino.
Segundo a observação de alguns estudiosos, o oposto de amor não é ódio, e sim medo, pois o temor é paralisante, estático, enquanto amor é movimento, dinamismo.
Não temos dúvida de que foi o sentimento nobre que já possuíam que deu coragem àquelas mulheres, os homens, mais afeitos ao raciocínio pensaram mais no perigo que corriam e afastaram-se.
Temos aprendido a ver que entre os doze da intimidade de Jesus, João, o filho de Zebedeu, era o que tinha mais destacado o sentimento de amor. Não é outro o motivo de ser ele conhecido como o discípulo amado. Neste caso não havia nenhum privilégio, apenas cumprimento da Lei, a cada um segundo as suas obras, aquele que mais ama é mais amado.
Assim, foi também o sentimento de amor mais desenvolvido que deu coragem a este discípulo e que o fez estar entre as mulheres nos momentos finais do Mestre entre nós fisicamente.
O mais significativo, entretanto, nesta passagem, é o ensinamento transmitido por Jesus ao dizer a sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” e depois a João: “Eis a tua mãe!”
Mulher; o uso desta forma de tratar é comum na narrativa de João2 e sugere que Jesus nos fala de algo que vai além da piedade filial, o que ele ensina é a adoção de um amor capaz de fortalecer os laços da família universal, não deve haver mais uma distinção que leve em conta os familiares de sangue, mas uma união de todos os filhos de Deus.
Maria surge então como uma “nova Eva”. Esta é segundo os textos do Antigo Testamento a mãe de todos os viventes3, Maria seria a mãe de toda a humanidade convertida a Cristo.
Do mesmo modo que Paulo refere-se a Cristo como o segundo Adão, ou o último Adão4, Maria seria a segunda Eva. Se a primeira induziu a humanidade à queda por meio da influência negativa da serpente, a segunda nos leva à redenção atendendo um convite também mediúnico, o que o anjo fez para que acolhesse Jesus como filho.
No primeiro caso temos uma mediunidade desequilibrada, no segundo santificada pela fidelidade a Deus; no primeiro a indução à desobediência, no segundo a submissão a um programa do Alto.
Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!5
Maria seria, assim, uma Eva sublimada.
Há um outro texto no Gênesis que faz uma relação entre Eva e Maria que nos ajudará a desenvolver nosso raciocínio. Trata-se do momento em que Deus, na linguagem simbólica da literatura hebraica, adverte a Serpente:
Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.6
Algumas traduções falam “entre a tua semente [da Serpente] e a sua semente” [da mulher], entretanto o termo hebraico usado para semente é masculino. Como semente neste caso tem o significado de descendência, em português pode-se usar a forma masculina seu descendente.
A Serpente é símbolo do mal, as religiões viram-no como o “Diabo”, o Maligno. A descendência da Serpente é assim toda sorte de erros cometidos pelo homem, fruto da transgressão inicial induzida por ela mesma, a Serpente.
Através desta transgressão foi rompida a Aliança do homem com seu Criador. Numa abordagem que não vamos aprofundar aqui por não ser o objetivo principal deste estudo, a Serpente representa os Espíritos desencarnados ainda arraigados no mal e que procuram distanciar o homem do Bem. Ela age por influência espiritual. No plano físico quem primeiro captou sua influência negativa foi Eva induzindo Adão à queda.
Quem restabelecerá o elo de ligação do homem com Deus, que trará a ele a redenção é Jesus, o descendente de Maria.
Assim, vemos Maria como o resgate de Eva, se através desta veio a queda, Maria nos proporciona através de sua maternidade a oportunidade da salvação.
Neste sentido é que fazendo uma relação com o texto de Paulo aos coríntios, onde ele propõe Jesus como o segundo Adão, propusemos Maria como a “segunda Eva”. (continua...)
1 João, 19: 25 a 27
2 Cf. João, 2: 4
3 Gênesis, 3: 20
4 1 Coríntios, 15: 45 a 47
5 Lucas, 1: 38
6 Gênesis, 3: 15

quarta-feira, outubro 19, 2011

Maria de Nazaré, a Educadora de Jesus (continuação)


Como Maria encarava sua missão?
Seria a mãe de Jesus totalmente consciente de seu papel diante da vida?
Não há como saber ao certo esta resposta, tudo o que dissermos a respeito não passará de opinião e dedução pessoal a partir de alguns textos.
Maria era um Espírito de grande evolução, voltamos a dizer, e sabemos pela orientação da Codificação Espírita, que quanto mais o Espírito é evoluído mais tem consciência de sua tarefa. Assim, deduzimos que a consciência de Maria a respeito de sua missão era acima da média, porém não total. Todo Espírito ao encarnar perde parte de sua lucidez, de acordo com o estágio em que se encontra.
Apesar de Maria ser um Espírito com uma tarefa especial, e como dissemos, de alta hierarquia, esta perda se deu com ela também.
Depreendemos, assim, que ela tinha uma grande intuição, tanto de seu papel, quanto do de Jesus, e o texto do Evangelho nos mostra que ela foi informada a respeito, porém, não na totalidade dos acontecimentos.
Humberto de Campos, na obra citada, e no mesmo diálogo de Maria com Isabel, relata a fala da mãe de Jesus:
(…) constantemente, ando a cismar, em relação ao seu destino.
Apesar de todos os valores da crença murmurou Isabel, convicta —, nós, as mães, temos sempre o espírito abalado por injustificáveis receios.
Se Maria fosse plenamente consciente não teria esta cisma nem seria abalada por estes receios.
Mostra-nos ainda o mesmo autor espiritual em outra página, que a mãe de nosso Senhor ao saber de sua prisão, confiou em Deus, todavia, empreendeu esforços e orou ao Pai na esperança de que o pior não acontecesse e Jesus fosse solto. Quando seu filho foi entregue a Herodes, chegou a pensar:
Naturalmente, Deus modificaria os acontecimentos, tocando a alma de Ântipas.1
E mesmo quando já parecia consumado o assassinato, ao vê-lo vergado ao peso da cruz, lembra-se de Abraão quando este conduzira o filho ao sacrifício, e da ação de Deus salvando-o, e pensa:
Certamente o Deus compassivo escutava-lhe as súplicas e reservava-lhe [a Jesus] júbilo igual.2
Só depois, ao ver o filho morto, foi que recordou a visita do anjo no momento da anunciação. Devem ter passado em sua mente, com a rapidez de um relâmpago, todas as cenas de sua existência; rememorando percebeu o quanto sua vida e a do filho estavam ligadas numa missão maior em nome de Deus, ela sofria, mas os desígnios do Alto se cumpriram, a treva havia sido iludida, vencera a luz, suas preces foram ouvidas, não segundo seus anseios de mãe e sim de acordo com os planos divinos3. E em sua mente lembrou também de suas próprias palavras anteriormente ditas: Eis aqui a serva do Senhor4


1 Lázaro Redivivo, cap. 2
2 Idem, ibidem.
3 id., ib.
4 Lucas, 1: 38

terça-feira, outubro 11, 2011

Maria de Nazaré, a Educadora de Jesus (continuação...)


Como foi a educação de Jesus?
Este é um tema que buscaremos desenvolver melhor na segunda parte deste estudo, porém aqui gostaríamos de fazer reverência a outro personagem de grande importância neste processo: José, o pai de Jesus.
É comum no meio cristão evidenciar a evolução de Maria, o que é certo, entretanto, desconsiderar a de seu marido, o que não é correto.
Se Maria teve uma grande contribuição no processo de educação1 de Jesus, o mesmo podemos dizer em relação a José, pois temos a certeza, sem querer fazer qualquer comparação, de ser ele um Espírito, também, de grande evolução.
Queremos citar neste momento apenas uma referência de Emmanuel, este guia nosso para todas as horas, a respeito deste respeitável personagem da Galileia. Reflitamos sobre as próximas palavras citadas neste estudo:
É preciso, porém, observar que, a par de beneficiários ingratos, de ouvintes indiferentes, de perseguidores cruéis e de discípulos vacilantes, houve um homem integral que atendeu a Jesus, hipotecando-lhe o coração sem mácula e a consciência pura.
José da Galileia foi um homem tão profundamente espiritual que seu vulto sublime escapa às análises limitadas de quem não pode prescindir do material humano para um serviço de definições.
Já pensaste no cristianismo sem ele?
Quando se fala excessivamente em falência das criaturas, recordemos que houve tempo em que Maria e o Cristo foram confiados pelas Forças Divinas a um homem.2
O Espírito Humberto de Campos, através da mediunidade de Chico Xavier3, nos relata da preocupação dos pais de Jesus com a sua educação. Eles tinham a intuição de sua missão e a ciência de parte de suas necessidades, por isso preocupavam-se em preparar o menino para o cumprimento dos desígnios superiores.
Narra-nos este Espírito importante diálogo entre Maria e sua prima Isabel, do qual citamos pequeno trecho, a respeito do tema do preparo dos filhos para o cumprimento dos propósitos do Pai:
Ainda há alguns dias, estivemos em Jerusalém, nas comemorações costumeira, e a facilidade de argumentação com que Jesus elucidava os problemas, que lhe eram apresentados pelos orientadores do templo, nos deixou a todos receosos e perplexos. Sua ciência não pode ser deste mundo: vem de Deus, que certamente se manifesta por seus lábios amigos da pureza. Notando-lhe as respostas, Eleazar chamou a José, em particular, e o advertiu de que o menino parece haver nascido para a perdição de muitos poderosos em Israel.
Com a prima a lhe escutar atentamente a palavra, Maria prosseguiu, de olhos úmidos, após ligeira pausa:
Ciente desse aviso, procurei Eleazar, a fim de interceder por Jesus, junto de suas valiosas relações com as autoridades do templo. Pensei na sua infância desprotegida e receio pelo seu futuro. Eleazar prometeu interessar-se pela sua sorte; todavia, de regresso a Nazaré, experimentei singular multiplicação dos meus temores.
Conversei com José, mais detidamente, acerca do pequeno, preocupada com o seu preparo conveniente para a vida!... Entretanto, no dia que se seguiu às nossas íntimas confabulações, Jesus se aproximou de mim, pela manhã, e me interpelou: “Mãe, que queres tu de mim? Acaso não tenho testemunhado a minha comunhão com o Pai que está no Céu!
Altamente surpreendida com a sua pergunta, respondi-lhe, hesitante: Tenho cuidado por ti, meu filho! Reconheço que necessitas de um preparo melhor para a vida... Mas, como se estivesse em pleno conhecimento do que se passava em meu íntimo, ponderou ele: “Mãe, toda preparação útil e generosa no mundo é preciosa; entretanto, eu já estou com Deus. Meu Pai, porém, deseja de nós toda a exemplificação que seja boa e eu escolherei, desse modo, a escola melhor. No mesmo dia, embora soubesse das belas promessas que os doutores do templo fizeram na sua presença a seu respeito, Jesus aproximou-se de José e lhe pediu, com humildade, o admitisse em seus trabalhos. Desde então, como se nos quisesse ensinar que a melhor escola para Deus é a do lar e a do esforço próprio concluiu a palavra materna com singeleza —, ele aperfeiçoa as madeiras da oficina, empunha o martelo e a enxó, enchendo a casa de ânimo, com a sua doce alegria! (Os grifos são nossos)
Percebemos neste singelo diálogo o cuidado dos pais de Jesus com sua educação. Ele por sua vez tinha a perfeita consciência do que era o mais importante: eu escolherei, desse modo, a escola melhor.
Como nos comportaríamos na mesma situação? Se tivéssemos um filho deste nível tentaríamos impor as nossas ideias ou saberíamos reconhecer sua superioridade não atrapalhando o seu desenvolvimento?
1 Temos usado esta expressão por não encontrar no momento outra melhor, todavia não sabemos se é certo falar em educação em relação a Jesus, que era um Espírito Puro mesmo encarnado, e que segundo Emmanuel não sofreu as restrições comuns a qualquer um de nós ao tomar um corpo de carne.
2 Levantar e Seguir, cap. 6
3 Boa Nova, cap. 2

quinta-feira, outubro 06, 2011

Maria de Nazaré, a Educadora de Jesus (continuação)

Magnificat


Em se tratando de um estudo sobre Maria, o Magnificat, merece um capítulo à parte, é um dos mais belos textos de todo Novo Testamento, só Lucas entre os evangelistas, e numa entrevista pessoal com a mulher de José, teria a capacidade de registrar para a posteridade tão belo poema, e que prova tudo o que dissemos anteriormente, a espiritualidade inteligente e equilibrada desta que sem a menor dúvida é a nossa Senhora.

Imagino a beleza da cena, aquela que é a mãe de todos os que sofrem, can-tando este lindo poema para o médico amigo de Paulo. Ela deve ter dito de cor, pois o sabia de coração, e ele, que à época não tinha gravador de voz, deve ter tido dificuldade para anotar, pois deve ter se emocionado ao extremo, talvez ela tenha repetido para ele várias vezes:

Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus em meu Salvador, porque olhou para a humilde posição de sua serva.

Sim! Doravante as gerações todas me chamarão de bem aventurada, pois o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor.

Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o temem.

Agiu com a força de seu braço. Dispersou os homens de coração orgulhoso.

Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou.

Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias.

Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia – conforme prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência para sempre!

Não pretendemos neste momento estudar minuciosamente estes versos, mas não podemos deixar de destacar a cultura espiritual de Maria.

Ela abre o texto falando de sua comunhão com Deus de uma forma que só Jesus falará mais tarde. Coloca-se em sua digna posição de serva e assim se faz grande, engrandecendo o Senhor através de sua vivência em harmonia com Ele.

Ela faz uma síntese do Antigo Testamento, mostrando seu perfeito conheci-mento de toda Escritura.

Sintetiza também a religião das boas obras e a Lei de Deus que alimenta a-quele que se faz dependente Dele, e despede os que se acham ricos e que têm as mãos ociosas.

Dissemos no parágrafo anterior que ela faz uma síntese magistral do Antigo Testamento. O Magnificat tem dez versículos, nestes, ela faz quinze citações do Antigo Testamento os harmonizando com profunda sabedoria.

Só quem conhecia e bem as Escrituras, e tinha uma espiritualidade superior poderia construir esta oração. A seguir vamos destacar cada versículo e as cita-ções a que se referem no texto da Bíblia Hebraica.

46. Minha alma engrandece o Senhor,

O meu coração exulta ao SENHOR (I Samuel, 2: 1)

47. E meu espírito exulta em Deus em meu Salvador,

Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas de salvação, (Isaías, 61: 10)

Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação. (Habacuc, 3: 18)

48. Porque olhou para a humilde posição de sua serva. Sim! Doravante as ge-rações todas me chamarão de bem aventurada,

SENHOR dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao SENHOR o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha. (I Samuel, 1: 11)

Então disse Lia: Para minha ventura; porque as filhas me terão por bem-aventurada; e chamou-lhe Aser. (Genesis 30:13)

49. Pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo

Redenção enviou ao seu povo; ordenou a sua aliança para sempre; santo e tremendo é o seu nome. (Salmo, 111:9)

50. E sua misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o temem.

Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos; (Salmo, 103: 17)

51. Agiu com a força de seu braço. Dispersou os homens de coração orgulhoso.

Tu quebraste a Raabe como se fora ferida de morte; espalhaste os teus inimigos com o teu braço forte. (Salmo, 89:10)

52. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou.

Aos sacerdotes, leva-os despojados do seu cargo e aos poderosos transtorna. (Jó, 12: 19)

53. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias.

Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bens a alma faminta. (Salmo, 107: 9)

54. Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia

Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem elegi descendência de Abraão, meu a-migo; tu a quem tomei desde os fins da terra, e te chamei dentre os seus mais excelentes, e te disse: Tu és o meu servo, a ti escolhi e nunca te rejeitei. (Isaías 41:8-9 8)

Lembrou-se da sua benignidade e da sua verdade para com a casa de Israel; todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus. (Salmo, 98:3)

55. – conforme prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua des-cendência para sempre!

E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Gênesis 12:3)

Porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre. (Genesis 13:15)

E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz. (Genesis 22:18)

É importante imaginar como foi a cena em que tal evento ocorreu.

Narra-nos Lucas que após Maria receber o aviso através do anjo, a respeito de sua concepção, que diga-se de passagem era um aviso mediúnico, e não fica nenhuma dúvida quanto a isso, ela se dirigiu a uma cidade de Judá para fazer uma visita a sua prima Isabel.

Esta cidade foi identificada segundo uma tradição do século V como sendo Ain Karim, e situava-se a aproximadamente 6 Km de Jerusalém.

A viagem de Nazaré a Ain Karim, segundo alguns autores, se fazia em qua-tro ou cinco dias. Como? Provavelmente no lombo de um animal. Era, portanto, uma viagem através de uma estrada ruim, cansativa, principalmente para quem estava nas primeiras semanas de gravidez. Maria devia ter a esta época algo em torno de 14 anos. Ela deve ter chegado à casa de sua prima, extenuada.

Diz o Evangelista que ao entrar na casa de Zacarias, saudou Isabel ; Isabel, ou-viu a saudação e exclamou o que no futuro viria a ser uma conhecida prece: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre! . E após ouvir a prima Maria profere o belíssimo poema-oração a que estamos nos referindo. Ou seja, ela teve a capacidade de fazer a genial síntese, o poema magnífico, em uma condição de extremo cansaço, em condições físicas precárias, mesmo assim ela se manifestou em profunda harmonia espiritual.

Nós quando estamos cansados perdemos a criatividade e até mesmo a capa-cidade de pensar com inteligência, queremos repor as energias e só depois rea-lizar algo que exija um trabalho mais elaborado.

Voltemos à nossa questão inicial, era Maria culta ou iletrada? Não sabemos, porém, podemos com certeza dizer: “era sábia”, e uma sabedoria de profunda significação espiritual.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Maria de Nazaré, a Educadora de Jesus (continuação)


Maria era culta ou iletrada?
Esta é outra questão que não é fácil de ser respondida.
Nos dias de hoje dizemos que uma pessoa é culta se ela tem o hábito de ler e estudar, se tem muita informação intelectual. Entretanto, no que diz respeito ao primeiro século de nossa era o julgamento não pode ser feito desta forma.
Neste século, o marcado pelo nascimento de Jesus, grande era o percentual de analfabetismo. Quase não havia livros para serem lidos, e era caríssima a produção de um, desta forma, não era qualquer pessoa que tinha acesso a livros, sendo assim, poucos sabiam ler, e muito menos ainda os que tinham o hábito de estudar como fazemos hoje.
Porém, não podemos dizer por isso que eram mal informados os habitantes da Palestina a esta época. O processo de aprendizado é que era diferente, o que tínhamos era uma cultura oral, as cartas de Paulo eram lidas na comunidade cristã através de uma leitura coletiva, muitos apenas ouviam o que este valoroso apóstolo escreveu.
Tal hábito fazia com que a memória destes que se dedicavam ao estudo das escrituras fosse de grande capacidade, pois era preciso saber os textos de cor já que nem sempre era possível lê-los.
Portanto, saber ler não era pré-requisito para se ter cultura. Além disso, em se tratando de uma mulher na palestina no tempo de Jesus, eram bem poucas as chances de que a ela fosse dada a oportunidade de saber ler.
Assim, do ponto de vista de percentuais, grande é a chance de Maria não ter sido alfabetizada, o que não estamos querendo dizer com isso, que não tenha sido. Apenas dizemos de probabilidades.
O que é certo, e podemos dizer com total segurança, é que a mãe de Nosso Senhor tinha grande cultura, e muito mais ainda, uma cultura espiritual, uma espiritualidade inteligente.
Muitos chegam a dizer que Maria teria sido educada no Templo, que era não só boa leitora, como também, boa redatora. É possível, porém, não certo. Não estamos querendo trabalhar com hipóteses.
No tempo de Maria, o judaísmo não era simplesmente uma religião, era uma cultura. Entre os hebreus não se podia escolher a que religião seguir, simplesmente eram judeus. Não havia shoppings, cinemas, teatros, ou outras diversões quaisquer, o que havia era uma sinagoga, e que todos frequentavam, a sinagoga era a vida das pessoas. Nazaré era uma pequena cidade, a sinagoga deveria ser próximo de tudo, e era ali onde eles aprendiam e praticavam seus princípios de moral elevada.
Como dissemos Maria era um Espírito elevado e sem comprometimentos no campo expiatório, por isso aprendia fácil, com certeza memorizava bem, e vivenciava o que aprendia, não era culta dentro de nosso padrão atual, era sábia.
Por que podemos dizer isso com certeza? O Evangelho nos dá mostra disso a toda hora, e além do mais, Maria foi a educadora do maior Sábio de todos os tempos, e só isso bastaria para dizer que ela foi entre todas a melhor educadora.

terça-feira, setembro 06, 2011

Maria de Nazaré, a Educadora de Jesus (Continuação)



A Gravidez Virginal
Outro tema polêmico e complexo é o da gravidez de Maria que alguns creem ter acontecido sem contato sexual entre ela e José, seu marido.
Dissemos ser complexo, porque tudo o que dissermos a respeito não passa de opinião pessoal, já que não temos condições de provar nem a tese da gravidez virginal nem a da gravidez comum.
Mesmo o Espiritismo não elucida o tema, não há informações confiáveis a respeito. Para um assunto de tal complexidade teríamos que retomar o Controle Universal do Ensino dos Espíritos1, o que foi por nós abandonado há muito tempo.
As melhores informações que temos tanto sobre Jesus, quanto sobre Maria, são as narradas nos Evangelhos. E o que dizem eles a respeito?
Marcos e João não comentam nada a respeito, Mateus e Lucas são claros: Maria e José não tiveram contato sexual antes da concepção de Jesus.
As igrejas cristãs ligadas ao catolicismo e à reforma protestante defendem a literalidade dos Evangelhos. Dentro do Espiritismo, que tem por norma uma investigação mais segura dentro de padrões científicos, as opiniões são divididas, uns creem como os cristãos tradicionais, outros não aceitam a gravidez virginal.
Dizem os defensores desta última hipótese que as narrativas dos Evangelhos a respeito do nascimento de Jesus são expressões de um simbolismo profundo, e que nada têm de históricas.
Pode ser, aliás, todo o Evangelho tem um conteúdo simbólico de grande profundidade, entretanto, cremos, que o simbolismo do Novo Testamento – a não ser no caso da parábolas - tem por princípio eventos reais, e não acontecimentos imaginados. Jesus escolhia momentos, lugares, personagens, didaticamente perfeitos para seus ensinamentos, mas antes de buscarmos o conteúdo espiritual de suas lições, é preciso compreendermo-las em seu sentido literal, histórico e cultural, só a partir daí devemos buscar seu sentido espiritual.
Não estamos com este argumento defendendo a gravidez sem contato sexual, como dissemos, o tema é complexo e deverá ser melhor analisado no futuro.
Estes que defendem a gravidez natural de Maria e um relacionamento sexual dela com seu marido antes da fecundação de Jesus, partem do princípio de que se assim não fosse estaria sendo ferida uma Lei Universal, e Espíritos Superiores jamais derrogam uma lei qualquer que seja, antes, cumprem-na com fidelidade.
Têm razão, porém, será que uma gravidez sem contato sexual fere alguma Lei Natural? Não temos hoje vários exemplos de gravidez gerada em laboratório?
Estamos tentando fazer uma análise espírita do tema, e deste ponto de vista, a ciência do Mundo Espiritual mesmo no tempo de Jesus era muito superior à nossa atual do mundo em que vivemos, e se esta pode algo fazer, aquela podia com muito mais facilidade. Assim, uma fecundação espiritual para Jesus, não é algo que fere nenhum princípio de ciência segundo cremos. Voltamos a repetir, não estamos com isto dizendo que assim se deu, só estamos analisando possibilidades.
De onde surgiu esta ideia de uma gravidez virginal?
Na literatura pagã há muitos casos de nascimentos virginais, alguns heróis dos clássicos gregos e romanos eram semideuses, há também na Bíblia Hebraica nascimentos sob a intervenção divina.
No caso de Jesus a ideia surge num texto de Isaías. Segundo a narrativa do livro deste profeta temos:
Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.2
Porém, a palavra hebraica usada por Isaías que traduzida deu virgem é almah que significa literalmente mulher jovem em idade para casar ou recém casada. Quando se traduziu a Bíblia Hebraica para o grego, na versão da Septuaginta, almah foi traduzida por parthenos. “Parthenos” quer dizer tanto uma moça jovem, quanto uma mulher que nunca teve relação sexual com homem, é como no português falado no Brasil a palavra “moça”, que tem tanto o sentido de uma mulher jovem, como a que ainda não teve relações sexuais.
Assim, no texto original de Isaías, não é passado esta ideia de virgindade, mas que uma jovem geraria o Messias.
Portanto, a dúvida continuará e só com o nosso amadurecimento espiritual, o que se dará em paralelo ao desenvolvimento moral, teremos melhores condições de analisar o fato.
O que importa para nós é que Maria era virgem no sentido de fidelidade a Deus, os antigos profetas várias vezes se referem Israel como um “prostituta” por terem sido infiéis à aliança feita com Deus. Virgem é o oposto de prostituta, é justamente ser fiel à Divindade.
Neste sentido Maria de Magdala ao ser desligada de seus obsessores e se converter ao Cristo, tornou-se uma grande virgem do Novo Testamento, e nós se quisermos também gerar em nós o “Filho do homem”, ou o homem novo, teremos que, do mesmo modo nos tornarmos virgens.

1 Cf. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, item II
2 Isaías, 7: 14