sexta-feira, dezembro 26, 2025

Caná: a Espiritualidade do Vinho Bom - 2ª parte


 





Caná: a Espiritualidade do Vinho Bom 1ª Parte acesse aqui: Espiritismo e Evangelho: Caná: a Espiritualidade do Vinho Bom - 1ª parte




⁶ E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes. ⁷ Disse-lhes Jesus: Enchei d'água essas talhas. E encheram-nas até em cima. ⁸ E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram. ⁹ E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo. ¹⁰ E disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom, e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho. ¹¹ Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele. (João, 2: 6 - 11)


 
⁶ E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes.
Primeiro, o cenário: essas talhas de pedra eram grandes recipientes usados pelos judeus para os rituais de purificação, lavagens das mãos, dos pés e dos utensílios, conforme a tradição mosaica. Eram feitas de pedra porque esse material era considerado ritualmente puro, já que não absorvia impurezas como o barro. Cada talha comportava entre 80 e 120 litros, ou seja, eram enormes!
O conteúdo? Água para purificação. Ou seja, um símbolo da antiga aliança, baseada em rituais exteriores. Jesus, ao transformar essa água em vinho, está sinalizando uma nova etapa: a purificação agora será interior, pela fé, pelo amor e pela transformação do coração.
À luz da Doutrina Espírita, esse gesto representa a substituição da forma pela essência. O Cristo não despreza a tradição, mas a transcende. Ele usa os próprios elementos da antiga lei para revelar uma nova proposta: a do Evangelho vivo, que transforma o ser de dentro para fora.
O número seis, especialmente no contexto das Bodas de Caná, é um símbolo riquíssimo quando olhado com olhos espirituais.
Na simbologia bíblica, o número seis representa o humano em sua condição inacabada, imperfeita, ainda em processo de evolução. Ele é o número do esforço, do trabalho, da limitação, pois foi no sexto dia que o ser humano foi criado (Gênesis 1:26-31), e são seis os dias destinados ao labor antes do descanso sabático, que representa a comunhão com o divino2.
Nas Bodas de Caná, temos seis talhas de pedra, recipientes usados para os rituais de purificação externa dos judeus. Isso já nos fala de uma religiosidade baseada na forma, na tradição, no exterior. Mas Jesus transforma a água dessas talhas em vinho, símbolo da alegria, da espiritualidade interior, da revelação do Evangelho. Ou seja, o Cristo transforma o esforço humano limitado (representado pelo seis) em plenitude espiritual (que aponta para o sete, número da perfeição divina).
À luz do Espiritismo, isso nos ensina que o esforço humano é necessário, mas insuficiente sem a presença do Cristo. As seis talhas cheias de água representam tudo o que conseguimos fazer com nossas próprias forças, mas é a ação do Cristo que transforma esse conteúdo em algo novo, vivo, espiritualizado.
E mais: o número seis também aparece em outras passagens como símbolo de limite. Por exemplo, o trono de Salomão tinha seis degraus (1 Reis 10:19), e os escravos hebreus serviam por seis anos antes de serem libertos no sétimo (Êxodo 21:2-6), sempre apontando para um ciclo que precisa ser superado com a intervenção divina.
Portanto, nas Bodas de Caná, o seis nos lembra que a espiritualidade verdadeira começa quando reconhecemos nossas limitações e convidamos o Cristo a transformar nossa "água" em "vinho", nossa rotina em alegria, nossa religiosidade exterior em vivência interior.
⁷ Disse-lhes Jesus: Enchei d'água essas talhas. E encheram-nas até em cima.,
Esse versículo marca o momento da cooperação humana com a ação divina. Jesus não realiza o sinal sozinho, Ele envolve os serventes, pedindo que encham as talhas com água. Isso nos ensina que, para que o milagre da transformação ocorra, é necessário que façamos a nossa parte, com esforço, obediência e confiança.
O detalhe de que "encheram-nas até em cima" é belíssimo: mostra que os serventes não economizaram, não mediram esforços. Eles obedeceram com plenitude, sem reservas. Isso simboliza a entrega total à vontade superior, a disposição de servir com inteireza, sem cálculos ou hesitações.
Esse gesto também nos fala da importância da preparação interior. Antes que o vinho novo da espiritualidade possa surgir, é preciso que a "talha" da alma esteja cheia da água do esforço, da disciplina, da humildade. Só assim o Cristo pode operar a transformação.
⁸ E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram.
O Evangelho não revela o momento exato em que a água se transforma em vinho, e isso é profundamente simbólico. A mudança acontece no silêncio, de forma invisível, no interior das coisas, como ocorre com as verdadeiras transformações espirituais. Jesus não faz gestos teatrais, não pronuncia palavras solenes. Ele apenas orienta, e o sinal se realiza no caminho da obediência confiante.
O mestre-sala, encarregado de zelar pela qualidade da festa, simboliza aqui a consciência desperta — aquela que reconhece o valor do que é autêntico mesmo sem compreender sua origem. Ao provar o vinho, surpreende-se com sua excelência, representando a alma que, ao entrar em contato com a espiritualidade genuína trazida por Jesus, intui sua grandeza, mesmo que ela se manifeste por último. É um reconhecimento instintivo da verdade, que toca o íntimo mesmo antes da razão compreender.
 
Na perspectiva espírita, esse momento simboliza a reforma íntima: após o esforço de encher as talhas, a confiança em seguir as instruções e a entrega de levar o conteúdo ao mestre-sala, o Espírito experimenta a renovação. A água da rotina se converte no vinho da alegria interior, da fé viva, da comunhão com o divino.
O fato de as talhas estarem cheias até o topo revela uma entrega sem reservas. É um símbolo da disposição total da alma em se preparar para a ação do Cristo. A transformação só acontece quando nos oferecemos por inteiro, não basta um gesto parcial ou superficial. É preciso preencher o coração com a água do esforço, da vigilância e da disciplina moral.
Outro detalhe sutil: Jesus não explica o que fará com aquela água. Os serventes obedecem sem saber o desfecho. Isso nos fala da fé ativa, aquela que age mesmo sem compreender todos os desígnios, confiando que, ao seguir o Cristo, o resultado será sempre renovador.
E há ainda uma beleza silenciosa: quem presencia o milagre são os serventes, os humildes, os que obedeceram sem questionar. O mestre-sala não sabe de onde veio o vinho, mas eles sabem. Isso nos lembra que os maiores sinais espirituais são percebidos por aqueles que servem com simplicidade e coração aberto.
Alguns estudiosos, veem neste fato um símbolo da transmutação fluídica, a capacidade de Jesus, como Espírito elevado, de agir sobre a matéria com naturalidade, como quem molda os fluidos sutis da Criação. Mas o essencial não está no "como", e sim no "por quê": o sinal é educativo, não espetaculoso. Ele instrui, não busca deslumbrar.
⁹ E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo.
Sob outra perspectiva, o mestre-sala pode representar a consciência comum, que percebe a qualidade do que é bom, mas permanece alheia à sua procedência espiritual. Ele se surpreende com o vinho, mas não sabe de onde veio. Em contraste, os serventes — figuras da humildade e da obediência — sabem. Seguindo fielmente as instruções de Jesus, participaram do processo e, por isso, foram os únicos a testemunhar o milagre em toda a sua profundidade. São símbolo daqueles que não apenas reconhecem, mas também compreendem o caminho espiritual.
Isso nos ensina que os sinais mais profundos da vida espiritual não são percebidos pelos que apenas observam, mas pelos que servem. A Doutrina Espírita nos lembra que é no trabalho silencioso, na cooperação despretensiosa com o bem, que nos tornamos partícipes da ação divina. Os serventes não buscaram reconhecimento, mas foram os verdadeiros privilegiados da cena.
Além disso, o fato de o mestre-sala chamar o noivo após provar o vinho indica que algo extraordinário aconteceu — e que a excelência do que é espiritual não pode ser ignorada, mesmo por quem não compreende sua origem.
¹⁰ E disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom, e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.
O mestre-sala, ao provar o vinho transformado por Jesus, expressa surpresa: normalmente, o melhor vinho é servido no início, quando os convidados ainda estão atentos aos sabores. Depois, quando já "têm bebido bem", serve-se o inferior, pois os sentidos já estão menos exigentes. Mas aqui, o contrário acontece: o melhor vinho vem por último.
Essa inversão é profundamente simbólica. À luz da Doutrina Espírita, ela representa a chegada do Cristo como o ápice da revelação espiritual. A humanidade já havia recebido o "vinho" da Lei Mosaica, dos profetas, da tradição,  mas agora, com Jesus, chega o vinho novo, mais puro, mais elevado, que transforma não apenas os rituais, mas o coração humano.
Também podemos ver nesse gesto uma mensagem sobre o tempo divino: Deus guarda o melhor para o momento certo. Muitas vezes, em nossas vidas, achamos que o melhor já passou, mas o Cristo nos mostra que a plenitude pode vir depois, quando estamos mais preparados para apreciá-la com maturidade espiritual.
E há ainda uma lição moral: o mundo costuma oferecer o brilho primeiro e o vazio depois. O Cristo, ao contrário, começa com o esforço (encher as talhas, servir a água) e termina com a abundância. Ele nos ensina que a verdadeira alegria espiritual não é imediata, mas fruto da confiança, do trabalho e da fé.
Quando o mestre-sala afirma: "Tu guardaste até agora o bom vinho" (João 2:10), ele revela, sem o saber, uma verdade espiritual profunda: o Cristo é o vinho sublime que Deus reservou para a humanidade no tempo certo. Antes d'Ele vieram os profetas, os patriarcas, a Lei, todos necessários e valiosos, mas como um vinho inicial, preparatório, que anunciava algo maior por vir. Com Jesus, chega à humanidade a revelação plena do amor que se doa, da misericórdia que acolhe, da vida que transborda em plenitude.
No simbolismo bíblico, o vinho representa alegria, bênção e comunhão. No Novo Testamento, ele adquire um sentido ainda mais elevado: torna-se o sinal da nova aliança, da vida espiritual que o Cristo oferece como dom. Ao dizer na Última Ceia: "Este é o meu sangue, o sangue da nova aliança" (Mateus 26:28), Jesus não fala de uma violência imposta, mas de uma entrega voluntária e amorosa. Seu sangue é expressão do amor que redime, não pelo sofrimento em si, mas pela disposição de amar até o fim. Ele é o vinho que nutre a alma e sela a união sagrada entre o humano e o divino.
Essa imagem ganha ainda mais profundidade: Jesus é o Espírito mais puro que já esteve entre nós, e sua presença transforma a "água" da existência comum no "vinho" da vida espiritual consciente. Ele não veio apenas ensinar, mas ser o exemplo vivo da transformação interior. Quando o convidamos para nossa "festa" — seja ela o lar, o coração ou a jornada evolutiva — Ele não apenas participa: Ele eleva, renova, espiritualiza.
E o mais belo: esse "vinho bom" não se esgota. Ele é inesgotável porque nasce do amor divino, que se multiplica quanto mais é compartilhado.
¹¹ Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele.
Aqui, o evangelista João não usa a palavra "milagre", mas "sinal" (semeion, em grego), o que é muito significativo. Um sinal não é apenas um prodígio, é um gesto que aponta para algo maior, que revela uma realidade espiritual mais profunda. Ou seja, o que aconteceu em Caná não foi apenas a transformação da água em vinho, mas o início da manifestação da glória do Cristo, não uma glória de poder, mas de amor, compaixão e renovação.
A glória de Jesus, nesse contexto, não é visível aos olhos do mundo, mas aos olhos da fé. Por isso, o versículo conclui dizendo que "os seus discípulos creram nele". Eles já o seguiam, mas agora começam a perceber que há algo muito maior em sua presença, algo que transforma não só a matéria, mas a alma.
À luz da Doutrina Espírita, esse versículo marca o início da revelação progressiva do Cristo. Ele não impõe sua grandeza, mas a revela aos poucos, por meio de sinais que tocam o coração e despertam a consciência. E é assim que a fé verdadeira nasce: não da imposição, mas do reconhecimento íntimo da luz que se manifesta.
Princípios Fundamentais da Doutrina Espírita:
Com base no já refletido sobre as Bodas de Caná (João 2:1–11), neste estudo, podemos identificar ao menos 9 dos 15 princípios fundamentais da Doutrina Espírita presentes, de forma direta ou simbólica, nesse episódio:
Deus
O episódio todo está imerso na ideia de uma Inteligência suprema que age através de leis harmoniosas. A presença do Cristo revela a ação do Pai por meio do Filho, apontando para Deus como a origem do bem, da renovação e da verdadeira alegria.
Jesus
Jesus aparece não apenas como o realizador do sinal, mas como o modelo e guia da transformação interior. Ele não age de forma espetacular, mas pedagógica, orientando, convidando à participação ativa, tal como ensina a questão 625 do Livro dos Espíritos.
Evolução
O vinho novo é símbolo da espiritualização crescente da humanidade. Jesus inaugura, com esse sinal, um novo tempo de elevação moral e espiritual. Caná representa o começo da revelação interior que leva da lei externa à consciência desperta.
Livre-arbítrio
O Cristo só age depois de ser convidado, primeiro pelos noivos, depois por Maria e, finalmente, com a cooperação dos serventes. Nada é imposto. O livre-arbítrio é respeitado em cada etapa: a presença de Jesus só transforma onde há abertura e participação.
Causa e efeito
A escassez do vinho revela a limitação dos recursos humanos. Mas o esforço, a confiança e a obediência criam os méritos para a renovação espiritual. A abundância do "vinho bom" é o efeito natural da fé ativa e da entrega confiante.
 Imortalidade da alma
Embora o texto não fale diretamente de vida após a morte, o símbolo do vinho novo pode ser lido como sinal da continuidade da existência espiritual. Jesus não oferecia apenas alegrias terrenas, mas alegria duradoura, nascida do Espírito.
Vida futura
A transformação operada por Jesus aponta para o sentido da vida mais além do imediato. A manifestação do "melhor vinho no fim" é uma imagem da justiça divina, que reserva o bem maior para o tempo certo, inclusive na existência futura.
Mediunidade
Maria age como intermediária entre os noivos e o Cristo, simbolizando a função dos bons médiuns: perceber a necessidade e encaminhá-la com sensibilidade e fé. Também podemos ver os serventes como "instrumentos" do bem, cooperando com as forças superiores.
Influência dos Espíritos
O episódio traz, no simbolismo, a ação dos Espíritos benfeitores representados por Maria — que percebe a carência invisível — e pelos serventes que, numa atitude de sintonia, cooperam silenciosamente para que o sinal se realize.

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[1] XAVIER, Francisco Cândido; CAMPOS, Humberto de. Boa Nova. Capítulo 30. Disponível em: https://bibliadocaminho.com/ocaminho/TX/Bn/Bn30.htm.  Acesso em: 24 jun. 2025.
[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Fevereiro de 1862. Disponível em: https://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1862.pdf. . Acesso em: 24 jun. 2025.

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Caná: a Espiritualidade do Vinho Bom - 1ª parte








¹ E, Ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia: e estava ali a mãe de Jesus. ² E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas. ³ E, faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho. ⁴ Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? ainda não é chegada a minha hora. ⁵ Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser. (João 2:1-5)

No judaísmo do século I, o casamento era uma celebração comunitária de grande importância espiritual e social. Era considerado um mandamento religioso, uma forma de cumprir a vontade divina e perpetuar a linhagem do povo de Israel. A cerimônia envolvia duas etapas principais: o kiddushin (noivado formal) e o nissuin (consumação do casamento), que podiam ocorrer em momentos distintos.
A festa de casamento durava vários dias, geralmente sete, e era marcada por muita alegria, música, dança e, claro, vinho — símbolo de celebração e abundância. A família do noivo era responsável por prover tudo, e a honra da família estava em jogo: faltar vinho, por exemplo, era motivo de grande constrangimento social.
Além disso, o casamento era visto como a união de duas almas que se completam. A tradição rabínica dizia que um homem solteiro era "incompleto" até encontrar sua companheira, com quem formaria uma só alma. Esse pano de fundo torna ainda mais significativo o fato de Jesus ter escolhido justamente um casamento para realizar seu primeiro sinal.
Ao iniciar seu ministério público numa festa de casamento, Jesus não apenas valoriza a instituição familiar, mas também a eleva a um patamar espiritual. O casamento, para o Espiritismo, é uma união de almas com o propósito de crescimento mútuo, aprendizado e evolução moral. Ao estar presente nas Bodas de Caná, Jesus demonstra que o lar e a convivência familiar são campos sagrados de trabalho espiritual.
Além disso, o fato de seu primeiro "sinal" ocorrer num ambiente de alegria e comunhão mostra que o Evangelho não é apenas para os momentos de dor ou penitência, mas também para os momentos de celebração. Ele transforma a água — símbolo da rotina, do comum — em vinho, que representa a alegria, a inspiração e a renovação espiritual. É como se dissesse: "A presença do Cristo transforma o ordinário em extraordinário".
Do ponto de vista simbólico, o casamento representa a aliança entre o humano e o divino, entre a razão e o sentimento, entre a lei e o amor. E Jesus, ao se manifestar ali, sela essa união com sua presença amorosa.
A hipótese de que algum dos noivos pudesse ter algum grau de parentesco com a família de Jesus tem sido considerada por diversos estudiosos e intérpretes ao longo dos séculos. O texto bíblico, contudo, não declara explicitamente que Jesus ou Maria fossem parentes dos noivos. Ainda assim, há elementos que sustentam essa possibilidade.
Um deles é a presença de Maria na celebração antes mesmo da chegada de Jesus e seus discípulos — o que pode indicar uma relação mais estreita com os anfitriões, seja como parente, seja como alguém com responsabilidades na organização do evento. Além disso, o fato de ela se sentir à vontade para agir diante da falta de vinho revela certa intimidade com os noivos ou com sua família.
Vale lembrar que, em vilarejos pequenos como Caná, era comum que todos os moradores se conhecessem, e as festas de casamento envolviam grande parte da comunidade. Dessa forma, mesmo sem vínculos familiares diretos, a presença de Maria e Jesus na ocasião poderia ser perfeitamente natural.
¹ E, Ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia: e estava ali a mãe de Jesus.
Literalmente, o "terceiro dia" pode ser entendido como uma referência cronológica, seguindo a sequência dos acontecimentos anteriores no Evangelho de João, como o chamado dos primeiros discípulos. Mas os evangelistas, especialmente João, raramente usam números de forma casual. O "terceiro dia" evoca imediatamente a ideia da ressurreição, da manifestação da glória divina, afinal, foi ao terceiro dia que Jesus ressuscitou, revelando a vitória do espírito sobre a matéria.
À luz do Espiritismo, esse detalhe pode ser interpretado como um prenúncio da transformação interior que o Cristo propõe. O "terceiro dia" marca o momento em que a presença do Cristo começa a operar sinais visíveis de renovação,  não apenas no vinho da festa, mas na consciência humana. É o início da revelação espiritual que culminará na ressurreição simbólica de cada um de nós, quando despertamos para as verdades eternas.
Além disso, há uma bela conexão com o episódio do Monte Sinai, onde Deus se manifesta ao povo de Israel também "ao terceiro dia" (Êxodo 19:11). João parece querer nos dizer: assim como Deus se revelou no Sinai, agora se revela novamente, mas desta vez, não com trovões e relâmpagos, e sim com vinho novo, alegria e presença amorosa.
² E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas.
O fato de Jesus ter sido convidado para as bodas nos fala, antes de tudo, sobre liberdade e acolhimento. O Cristo não invade, não impõe sua presença: Ele entra onde é chamado. Isso ecoa o princípio do livre-arbítrio tão valorizado no Espiritismo. A presença do Cristo em nossas vidas depende da nossa disposição em convidá-lo, em abrir espaço, com sinceridade, para sua influência transformadora.
Além disso, o convite estendido também aos discípulos mostra que a espiritualidade não caminha sozinha. Aonde o Cristo vai, leva consigo a comunidade, o aprendizado, a partilha. O casamento, nesse sentido, não é apenas a união de duas pessoas, mas um símbolo da integração do ser com a verdade espiritual, com a fraternidade e com o serviço ao próximo.
E há ainda um detalhe bonito: Jesus aceita o convite. Ele valoriza os momentos humanos, participa das alegrias simples da vida. Isso nos ensina que a espiritualidade não está separada do cotidiano, ela se manifesta no lar, na festa, na mesa compartilhada.
Ter Jesus presente em nosso casamento representa muito mais do que uma bênção cerimonial. Significa convidar o Cristo para fazer parte da intimidade da vida a dois, permitindo que seus ensinamentos de amor, perdão, humildade e serviço sejam os alicerces da relação. No contexto cristão espírita, isso é essencial: o lar é uma escola de almas, e o casamento é uma oportunidade de crescimento mútuo, de resgate e de evolução espiritual.
Quando Jesus está presente, mesmo que simbolicamente, o casal se compromete com uma vivência mais elevada, onde o diálogo substitui o orgulho, o respeito supera as diferenças e o amor se torna uma construção diária. É como nas Bodas de Caná: quando o vinho da alegria parece faltar, a presença do Cristo transforma a água da rotina em vinho novo, renovando o ânimo e a esperança.
E mais: Jesus não foi à festa sozinho, levou seus discípulos. Isso nos lembra que, ao convidá-lo, também acolhemos os valores do Evangelho e a comunidade espiritual que nos apoia. O casamento, então, deixa de ser apenas uma união legal ou afetiva e se torna uma parceria espiritual, com propósito e transcendência.
³ E, faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.
Em festas de noivado e casamento no contexto judaico do século I — como nas Bodas de Caná — o vinho tinha um papel central, tanto prático quanto simbólico. Ele era sinal de alegria, bênção, hospitalidade e abundância. A presença do vinho indicava que a celebração estava completa, que havia generosidade e que os noivos estavam sendo honrados com tudo o que havia de melhor.
A falta de vinho, por outro lado, era mais do que um contratempo logístico, era um sinal de falha, de escassez, até mesmo de vergonha pública para os anfitriões. Num ambiente onde a honra familiar era um valor essencial, deixar faltar vinho poderia ser interpretado como despreparo ou desrespeito aos convidados.
À luz da Doutrina Espírita, esse episódio ganha contornos ainda mais profundos. O vinho representa a alegria espiritual, a inspiração, o entusiasmo da alma. Quando ele falta, é como se a vida perdesse o brilho, como se estivéssemos vivendo apenas com a "água" da rotina, sem o "vinho" da presença do Cristo. A intervenção de Jesus, então, simboliza a renovação interior: Ele transforma o ordinário em extraordinário, o vazio em plenitude.
Neste versículo, Maria se revela não apenas como uma presença atenta, mas possivelmente como alguém com papel ativo na organização da festa. Sua prontidão em perceber a falta do vinho — antes mesmo que os anfitriões ou os convidados se alarmem — sugere que ela estava envolvida nos bastidores do evento, talvez ajudando diretamente a família dos noivos. Isso explicaria sua liberdade para interceder e sua preocupação com o bem-estar da celebração.
Mas mais do que uma organizadora cuidadosa, Maria manifesta uma sensibilidade espiritual profunda. Ela percebe a necessidade antes que ela se torne um problema visível, e age com confiança, dirigindo-se a Jesus com poucas palavras, mas com plena fé. É como se encarnasse o papel de um Espírito protetor: aquele que vela silenciosamente, mas age no momento exato com sabedoria e amor.
Sua atitude nos ensina que a verdadeira caridade começa na atenção silenciosa às necessidades alheias — e que a espiritualidade se manifesta também nas pequenas ações do cotidiano, como garantir que uma festa continue sendo um espaço de alegria e comunhão.
⁴ Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? ainda não é chegada a minha hora.
Esse versículo, é um dos mais intrigantes do episódio, e quando lido com sensibilidade e à luz da Doutrina Espírita, revela camadas profundas de significado.
A expressão "Mulher, que tenho eu contigo?" pode soar ríspida em português moderno, mas no contexto cultural da época, o termo "mulher" era uma forma respeitosa de tratamento, usada inclusive por Jesus na cruz ao se referir a Maria (João 19:26). Não há ali desrespeito, mas sim um distanciamento simbólico: Jesus começa a marcar a transição entre sua vida privada e sua missão pública. Ele deixa claro que, a partir daquele momento, suas ações seguirão o tempo e a vontade do Pai, não mais os laços familiares terrenos.
A frase "ainda não é chegada a minha hora" é recorrente no Evangelho de João e sempre aponta para o momento culminante da missão de Jesus: sua paixão, morte e ressurreição. Aqui, ela indica que o "sinal" que está prestes a realizar não é apenas um milagre social, mas o início de uma revelação espiritual progressiva.
Esse diálogo pode ser visto como um marco simbólico: Maria representa a sensibilidade espiritual que percebe a necessidade humana, e Jesus, mesmo indicando que sua "hora" ainda não chegou, acolhe o pedido com amor e compaixão. É como se dissesse: "Ainda não é o momento pleno da revelação, mas já posso oferecer um sinal da abundância divina".
E é importante lembrar que Jesus jamais utilizou seus poderes em benefício próprio ou de seus familiares. Todos os seus atos foram voltados ao bem coletivo, à elevação espiritual da humanidade e à exemplificação do amor incondicional. Mesmo nesse episódio, sua ação não visa favorecer sua mãe ou amigos, mas sim revelar, por meio de um gesto simbólico, a presença transformadora do Cristo nas situações humanas. 
⁵ Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser.
Aqui, Maria demonstra não apenas sua profunda comunhão espiritual com Jesus, mas também sua maturidade evolutiva. Ela compreende que a resposta de seu Filho — "ainda não é chegada a minha hora" — não é uma recusa, mas uma afirmação velada de que o momento da manifestação está próximo. Sua fé é tão plena que ela não insiste, não argumenta: apenas se volta aos serventes e os orienta com firmeza e serenidade.
Esse gesto revela sua autoridade moral e, possivelmente, sua responsabilidade prática na condução da festa. O fato de os serventes a ouvirem e obedecerem sem questionar sugere que ela exercia ali um papel de liderança, talvez como alguém da família dos noivos ou encarregada da organização do evento. Isso reforça a ideia de que Maria não era apenas uma convidada, mas alguém comprometida com o bom andamento da celebração.
Do ponto de vista simbólico, Maria representa aqui a voz da intuição elevada, da fé que antecipa a ação do Cristo. Ela é como os Espíritos benfeitores que, mesmo diante do silêncio aparente da Divindade, continuam confiando, orientando e preparando o terreno para que o bem se manifeste.
Maria não diz "façam o que eu mandar", mas "fazei tudo quanto ele vos disser". Ela não se coloca no centro, mas aponta para o Cristo. É o gesto de quem compreende seu papel de medianeira, de ponte entre a necessidade humana e a resposta divina.
Ao dizer "fazei tudo quanto ele vos disser", nos ensina a não reter para si o protagonismo da fé, mas a direcionar o olhar para o Cristo. Ela não busca glória pessoal, nem se coloca como fonte da solução, mas como canal, como ponte entre a necessidade humana e a resposta divina. Esse gesto revela sua grandeza espiritual: quanto mais elevada é a alma, mais ela compreende que sua missão é servir, não brilhar por si mesma.
Essa atitude de Maria é um modelo para todos nós. Em um mundo onde tantas vezes buscamos reconhecimento, controle ou protagonismo, ela nos mostra o caminho da verdadeira fé: confiar no Cristo, mesmo quando não compreendemos plenamente seus tempos e modos. Ela não exige explicações, não impõe condições, apenas orienta: "façam o que ele disser".
Na tradição cristã, especialmente na católica, Maria é reconhecida como Medianeira de todas as graças, expressão que não diminui a centralidade de Cristo.
A expressão católica "Medianeira de todas as graças" reconhece em Maria um papel especial na economia da salvação: não como fonte das graças, mas como canal por onde elas fluem, em virtude de sua união íntima com o Cristo. Essa mediação, como dissemos, não diminui a centralidade de Jesus, mas exalta a cooperação amorosa de Maria na obra redentora, como ensinam diversos santos e doutores da Igreja.
Curiosamente — e belamente — essa concepção encontra eco na visão espírita apresentada por Humberto de Campos no capítulo final de Boa Nova. Ali, Maria é recebida por Jesus no plano espiritual com a saudação: "Minha mãe, vem aos meus braços!" "Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no meu Reino a Rainha dos Anjos…"[1] Essa cena não apenas emociona, mas revela o reconhecimento espiritual da missão de Maria como guia, intercessora e consolo para os corações aflitos.
Embora o Espiritismo não adote dogmas marianos como a mediação universal no sentido teológico católico, ele reconhece em Maria um Espírito de altíssima elevação, cuja missão transcende a maternidade biológica e se estende como presença amorosa junto à humanidade. Kardec chega a afirmar: "Deus enviou um Espírito puro, não pertencente à raça culpada e exilada, para se encarnar sobre a Terra e nela cumprir essa augusta missão [...]" [2]
Sua atuação como "Rainha dos Céus", na linguagem simbólica de Humberto de Campos, está em perfeita sintonia com a ideia de que ela continua a servir, a inspirar e a interceder — não por imposição, mas por amor.
Essa harmonia entre tradições mostra que, quando o olhar é sincero e o coração está aberto, diferentes caminhos espirituais podem convergir na reverência àqueles que mais se aproximaram do Cristo pelo amor e pelo serviço.
 Para nós, cristãos de todas as eras, esse versículo é um lembrete poderoso: a verdadeira espiritualidade não busca holofotes, mas aponta para a luz maior. E Maria, com sua delicadeza firme, nos convida a confiar plenamente na direção do Cristo, mesmo quando a "hora" ainda não parece ter chegado.

(Continua no próximo Post)

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[1] XAVIER, Francisco Cândido; CAMPOS, Humberto de. Boa Nova. Capítulo 30. Disponível em: https://bibliadocaminho.com/ocaminho/TX/Bn/Bn30.htm.  Acesso em: 24 jun. 2025.
[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Fevereiro de 1862. Disponível em: https://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1862.pdf. . Acesso em: 24 jun. 2025.

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Visão Espírita do Natal

 





Embora associemos o Natal ao nascimento de Jesus, a tradição da festividade remonta a milênios. As origens do Natal vêm desde dois mil anos antes de Cristo. Tudo começou com um antigo festival mesopotâmico que simbolizava a passagem de um ano para o outro, o Zagmuk. Para os mesopotâmicos, o Ano Novo representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles acreditavam que os monstros do caos se enfureciam e Marduk, seu principal deus, precisava derrotá-los para preservar a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo, que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha.

A mesopotâmia inspirou a cultura de muitos povos, como a dos gregos, que assimilaram as raízes do festival, celebrando a luta de Zeus contra o titã Cronos. Mais tarde, por intermédio da Grécia, costume alcançou os romanos, sendo absorvido pelo festival chamado Saturnália, pois era em homenagem a Saturno. A festa começava no dia 17 de dezembro e ia até o 1º de janeiro, comemorando o solstício do inverno. De acordo com seus cálculos, o dia 25 era a data em que o Sol se encontrava mais fraco, porém pronto para recomeçar seu crescimento e espalhar vida por toda a Terra.

Durante a data, que acabou conhecida como o Dia do Nascimento do Sol Invicto, as escolas eram fechadas e ninguém trabalhava. Eram realizadas festas nas ruas, grandes jantares eram oferecidos aos amigos, e árvores verdes – ornamentados por muitas velas – enfeitavam as salas para espantar os maus espíritos da escuridão. Os mesmos objetos eram usados para presentear uns aos outros.

Depois de Cristo

 Nos primeiros anos do Cristianismo, a Páscoa era o feriado principal. O nascimento de Jesus não era celebrado.

No século IV, a Igreja decidiu instituir o nascimento de Jesus com um feriado. Mas havia um problema: a Bíblia não menciona a data de seu nascimento. Então, apesar de algumas evidências sugerirem que o nascimento de Jesus ocorreu na primavera, o Papa Júlio I escolheu 25 de dezembro. Alguns estudiosos acreditam que esta data foi adotada num esforço de absorver as tradições pagãs da Saturnália.

A maior parte dos historiadores afirma que o primeiro Natal, como conhecemos hoje, foi celebrado no ano 336 d.C. A troca de presentes passou a simbolizar as ofertas feitas pelos três reis magos ao menino Jesus, assim como outros rituais também foram adaptados.

Hoje, as Igrejas Ortodoxas grega e russa, celebram o Natal no dia 6 de janeiro, também referido como o “Dia dos Três Reis”, que seria o dia em que os três magos teriam encontrado Jesus na manjedoura.

Data Provável do Natal

 Lemos no Evangelho de Lucas: “E aconteceu, naqueles dias, que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse. Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino governador da Síria.”[1] César Augusto reinou de 30 a.C a 14 d.C.

Mas o censo ocorreu em 6 d.C., o que permite ver que a determinação da data está historicamente imprecisa. Há, no entanto, uma tradução proposta, segundo a Bíblia de Jerusalém: “Esse recenseamento foi anterior àquele realizado quando Quirino era governador da Síria.”

Jesus nasceu antes da morte de Herodes, morte esta que aconteceu em 4 a.C., provavelmente entre 8 e 5 a.C. A chamada Era Cristã foi estabelecida por Dionísio, o pequeno, apenas no século 6 e é fruto de um erro de cálculo.

Quando Jesus iniciou o seu ministério ele tinha provavelmente 33 anos, ou até 36. E Dionísio, o pequeno, considerou como se ele tivesse 30 anos, embora Lucas (3:23) fale em “mais ou menos 30 anos”.

Neste ponto a revelação espírita pode, como em tantos outros, contribuir com os historiadores.

Humberto de Campos, em mensagem psicografia por Chico Xavier e publicada em Crônicas de Além-túmulo, aponta o ano 749 da era romana como sendo o ano do nascimento de Jesus, o que corresponderia ao ano 5 a.C.

Do mesmo modo, Emmanuel informa-nos em Há 2000 Anos que o ano da crucificação de Jesus foi o 33 a.C. Sendo assim, portanto, Jesus iniciou o seu ministério com 34 ou 35 anos e desencarnou com 37 ou 38.

Um Significado Espiritual

 Diz, então, a sequência do Evangelho de Lucas: “E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. E subiu da Galileia também José, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi chamada Belém (porque era da casa e família de Davi)”[2]

Belém situa-se a 6 quilômetros de Jerusalém e a 800 metros de altitude, nos montes da Judeia. Por isso a expressão “subiu da Galileia à Judeia”.

Buscando o sentido espiritual do Evangelho, podemos entender Nazaré como sendo nossas vivências na área da razão. É o racional que hoje, no dia a dia, fala mais alto em nossos procedimentos.

Belém seria assim, a representação de nosso encaminhamento levando em conta o sentimento equilibrado, a intuição, ou o amadurecimento da própria razão pelo equilíbrio desta, através da vivência, com o emocional.

O nascimento de Jesus em Belém significaria, assim, o início de uma nova era em que a justiça se converte em amor, e o racional é espiritualizado através de seu perfeito equilíbrio com o emocional.

Historicamente, não há certeza sobre Jesus ter nascido em Belém ou Nazaré. O que realmente importa, porém, é apropriarmos de seu sentido reeducativo, é saber que, para que o Cristo nasça em nossa intimidade é necessário agir equilibrando sentimento e razão, intelecto e moral, conhecimento e aplicação. Pois, se no plano horizontal necessitamos da ciência em nossas movimentações cotidianas, para verticalizarmos nossas conquistas não podemos prescindir de uma moral elevada consoante os ensinamentos contidos no Evangelho.

Para que o Cristo nascesse, Maria e José tiveram que subir da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi chamada Belém, significando assim a necessidade de subirmos espiritualmente para refletirmos o Cristo em toda sua grandeza.

Prossegue a Narrativa

 O Evangelho de Lucas nos conta, então, que “...a fim de alistar-se com Maria, sua mulher, que estava grávida. E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz o seu filho primogênito, e envolveu-o em panos e deitou-se numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.”[3]

Jesus vem à luz por meio de Maria. Assim narra o evangelista: “E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria.”[4]

“Virgem” aqui se refere a núbil (mulher em idade para se casar), ou mulher jovem que, em hebraico é almah. Era um termo usado quando se referia a uma donzela ou jovem casada recentemente, não havendo nenhuma referência em particular à virgindade como entendemos hoje.

Gabriel, então, disse: “E eis que em teu ventre conceberás, e dará à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus.[5] Maria estava preparada, por isso pôde conceber Jesus em seu ventre, isto é, dentro de si.

E nós, o que estamos cultivando, o que estamos construindo dentro de nós mesmos? Quando estaremos preparados para trazer à luz o Cristo imanente em nós? Aquele que, segundo o texto evangélico, “será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu Reino não terá fim.[6]

No entanto, Maria indaga: “Como se fará isso, visto que não conheço varão?” E respondendo o anjo, disse-lhe: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.”

 A outra possível tradução para “Espírito Santo” é “sopro sagrado”, dando a entender a presença de Deus em nós quando a Ele estamos ajustados. Àquele tempo a presença de Deus (IHVH) era manifesta por uma nuvem, por isso o uso da expressão “cobrirá com sua sombra”

Nasce a Virtude nos Corações

 A descida do “sopro sagrado” representa bem o momento de fecundação da virtude em nós. O valor vem do alto por meio da revelação superior, necessitando ser por nós absorvido e vivenciado para fixação, que se dá com o nascimento do novo ser em que nos transformamos a partir de então. Por isso, o Cristo é sempre fecundado pelo Espírito Santo.

“Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela[7]”. Perfeitamente ajustada aos Desígnios Superiores, Maria se entrega totalmente a eles. É aquele momento em que há perfeito entendimento do mecanismo da vida, quando o Espírito sabe que o mais importante é atender a Vontade do Pai e, então cumpre-a fielmente. É a liberdade-obediência. Encontramos assim em Maria as três qualidades básicas para que o Cristo possa nascer: confiança, consciência e obediência, sintetizadas na fé.

Mais Lições a Serem Aprendidas

 Jesus envolvido em panos nos ensina a lição de simplicidade: enquanto nos preocupamos tanto com os acessórios em nossa vida do dia a dia, os Espíritos superiores ocupam-se com o que verdadeiramente é importante para a vida imortal.

A manjedoura é o tabuleiro em que se deposita comida para vacas, cavalos etc. em estábulos. Segundo Emmanuel em A Caminho da Luz, “a manjedoura assinalava o ponto inicial da lição salvadora do Cristo, como a dizer que a humildade representa a chave de todas as virtudes.”

Por meio de Jesus colocado em um tabuleiro como alimento para animais, o Evangelho ensina-nos que, se quisermos deixar a condição de animalidade em favor de uma espiritualidade mais autêntica, é preciso que tenhamos o Cristo, ou a Boa Nova, por ele proposta, como alimento definitivo de nossas almas. Condição esta confirmada por ele mesmo quando mais adiante nos afirma: “Eu sou o pão da vida[8].” Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra.

Outra lição encontrada é a da resignação, “...porque não havia lugar para eles na estalagem[9]“. É muito comum este fato, quando nos ajustamos aos desígnios superiores e agimos em favor do amor e da fraternidade, não há para nós lugar onde se instala o interesse imediatista do mundo material.

A Visita dos Magos

 Narrada no Evangelho de Mateus, a visita dos magos e suas dádivas originaram as tradições de presentes no Natal. No entanto, dádivas seriam doações espontâneas de algo valioso, material ou não, a alguém; presente, oferta, mimo, brinde. Não é o que acontece atualmente no Natal.

Os presentes nem sempre são espontâneos, mas fruto de interesses outros. O que não tem valor material não é bem aceito como presente, mostrando assim a faixa de interesses a que estamos ajustados. A expressão “seus tesouros[10] que se refere aos presentes ofertados, dá a entender que estes já lhes pertenciam, ou seja, que já tinham sido por eles conquistados. Então deveríamos dar valores que já são nossos, nossas conquistas individuais, de nós mesmos e espontaneamente.

Os presentes também contêm significados. O ouro refere-se à autoridade sobre as coisas materiais; o incenso, à autoridade sobre as questões espirituais. A mirra é uma planta de cuja casca sai uma resina aromática. De aroma agradável e gosto amargo, na Antiguidade, segundo o Dicionário Houaiss, ela era usada como incenso e remédio.

Pode revelar, desta forma, dois significados. Foi dado a Jesus o poder sobre as enfermidades: “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si…“, diz Isaias, 53:4. E representa também a necessidade do testemunho (”gosto amargo”), testemunho este que dá o poder e autoridade sobre as enfermidades e sobre as questões materiais e espirituais.

O Personagem Principal

 Se historicamente não podemos precisar com certeza onde e quando se deu a noite do nascimento de nosso Mestre Maior, é certo que ela aconteceu. Emmanuel assim a descreve em A Caminho da Luz: “Harmonias divinas cantavam um hino de sublimadas esperanças no coração dos homens e da Natureza. A manjedoura é o teatro de todas as glorificações da luz e da humildade, e, enquanto alvorecia uma nova era para o globo terrestre, nunca mais se esqueceria o Natal, a noite silenciosa, noite santa”.

Como já dissemos, o nascimento de Jesus representa o início de uma nova era em que a justiça se converte em amor, e a fraternidade pura através de sua exemplificação, meta a ser alicerçada em nossos corações. Antes era o homem biológico, depois, o homem espiritual.

Na festa que preparamos ao final de cada ano, Jesus deveria ser personagem principal. Assim, como devemos nos preparar para ela, qual a melhor vestimenta a usar?

Aqui deixamos duas passagens evangélicas para refletirmos sobre estes temas: uma de Mateus: “Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer, tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então, os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E, quando te vimos estrangeiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E, quando te vimos enfermo ou na prisão e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes[11].”

Que façamos em nome do Cristo um Natal diferente. Que saiamos de nós mesmos, de nossos caprichos e desejos pueris, buscando atender as necessidades de nossos semelhantes mais carentes. Reclamamos do “pouco” que temos, mas quão muito é esse pouco se comparado ao enorme percentual da humanidade que muito menos tem, chegando a faltar até o básico necessário? Lembremos destas palavras: “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes…”

Em outra passagem narrada por Mateus, lemos: “E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo…[12] Para que possamos estar vestidos com a “túnica nupcial[13]” é preciso estarmos ajustados ao fluxo da vida que é a Lei Superior, que é Amor. Os lírios “não trabalham e nem fiam”, mas cumprem a sua missão de enfeitar mesmo tendo nascido em condições adversas (brejo, lodo etc.).

Ao dizer que nem mesmo o Rei Salomão em toda a sua exuberância se vestiu como qualquer deles, a beleza que Jesus observa é a que vem de dentro, aquela gerada pela consciência tranquila do dever cumprido e do ajuste aos Propósitos Superiores.

Nada dá mais segurança e firmeza do que o Evangelho vivenciado. Assim, firmemo-nos em seus ensinamentos de moral superior e estaremos preparados para que o Cristo nasça em nós, e pelos frutos de nossas ações também possamos ser chamados de Filhos do Altíssimo ou Filho de Deus, por quem quer que seja.


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[1] Lucas, 2: 1 e 2

[2] Idem, 3 e 4

[3] Lucas, 2: 5 a 7

[4] Idem, 1: 26 e 27

[5] Idem, 1: 31

[6] Idem, 1: 32 e 33

[7] Idem, 1: 38

[8] João, 6: 35

[9] Lucas, 2: 7

[10] Mateus, 2: 11

[11] Mateus, 25: 34 a 40

[12] Mateus, 28 e 29

[13] Mateus, 22: 11