segunda-feira, janeiro 18, 2010

Evolução

Evolução do Princípio Inteligente

A existência do princípio espiritual é uma realidade; do mesmo modo que podemos demonstrar a realidade da matéria, pelos efeitos demonstramos a existência do princípio espiritual, pois sem ele, o próprio Criador não teria razão de ser. Como entender um ser superior, com atributos superiores, a governar somente sobre a matéria? Como compreender que a Inteligência Suprema, que é a própria Sabedoria, iria criar seres inteligentes, sensíveis, e depois lançá-los ao nada, após alguns anos de sofrimento sem compensações, e deleitar-se com a sua criação como faz um artista menor.

Sem a sobrevivência do ser pensante, os sofrimentos da vida seriam, da parte de Deus, uma crueldade sem objetivo.

Por ser uma centelha divina, e possuir a imortalidade em sua intimidade, é inata no homem a idéia da perpetuidade do ser pensante, e essa perpetuidade seria inútil, não fosse a evolução. Evolução essa que fica clara na resposta dada pelos espíritos a Kardec na questão 607 de “O Livro dos Espíritos”. Quando questionados sobre a origem dos Espíritos, nos afirmam que antes de conquistar as faculdades inerentes ao homem atual, o Espírito estagia “numa série de existências que precedem o período a que chamamos humanidade”, e continuam:

“Já não dissemos que tudo em a natureza se encadeia e tende para a unidade? Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, e individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer. É de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito.”

Martins Peralva, no livro “O Pensamento de Emmanuel”, narra, desta forma, a longa viagem feita pela mônada divina, ou princípio espiritual:


“Na fase preambular, a mônada luminosa, que mais tarde será Espírito, ser inteligente, vai sendo envolvida, como energia divina, em fluidos pesados. Perde sua luminosidade, condensa-se no reino mineral.

Energia - Suas transformações

a) Condensada, na pedra;
b) Incipiente, na planta;
c) Primária nos irracionais
d) Contraditória, nos homens de mediana evolução
e) Excelsa, nas almas sublimadas”



Honório Abreu assim se manifesta em um artigo de sua autoria:

“Assim ajustando-se às vibrações dos minerais, em cujo berço hibernam por milhões e milhões de anos, as “mônadas luminosas” são trabalhadas nos padrões da atração, preparando-se para novas conquistas, em termos de “sensação” no campo dos vegetais.
Os reinos mineral e vegetal, como institutos de recepção da onda criadora da vida, preparam as bases de onde os elementos espirituais partem para as faixas animais em que o instinto, trabalhando o seu psiquismo, os habilitam, lenta e gradativamente, para o ingresso nas trilhas da humanidade, onde, já usufruindo de “pensamento contínuo” elaboram em processo crescente, os valores da razão e da inteligência.”[1]
Concluindo, deixamos a palavra com o nosso mentor André Luiz, segundo psicografia de Waldo Vieira, no livro “Evolução em Dois Mundos”:

“É assim que dos organismos monocelulares aos organismos complexos, em que a inteligência disciplina as células, colocando-as a seu serviço, o ser viaja no rumo da elevada destinação que lhe foi traçada do Plano Superior, tecendo com os fios da experiência a túnica da exteriorização, segundo o molde mental que traz consigo, dentro das leis de ação, reação e renovação em que mecaniza as próprias aquisições, desde o estímulo nervoso à defensiva imunológica, construindo o centro coronário, no próprio cérebro, através da reflexão automática de sensações e impressões, em milhões e milhões de anos, pelo qual, com o Auxílio das Potências Sublimes que lhe orientam a marcha, configura os demais centros energéticos do mundo íntimo, fixando-os na tessitura da própria alma.

Contudo, para alcançar a idade da razão, com o título de homem, dotado de raciocínio e discernimento, o ser, automatizado em seus impulsos, na romagem para o reino angélico, despendeu para chegar aos primórdios da época quaternária, em que a civilização elementar do sílex denuncia algum primor de técnica, nada menos de um bilhão e meio de anos. Isso é perfeitamente verificável na desintegração natural de certos elementos radioativos na massa geológica do globo. E entendendo-se que a Civilização aludida floresceu há mais ou menos duzentos mil anos, preparando o homem, com a benção do Cristo, para a responsabilidade, somos induzidos a reconhecer o caráter recente dos conhecimentos psicológicos, destinados a automatizar na constituição fisiopsicossomática do espírito humano as aquisições morais que lhe habilitarão a consciência terrestre a mais amplo degrau de ascensão à Consciência Cósmica.”[2]

Evolução do Espírito

Segundo Pitágoras, “(...) a evolução material dos mundos e a evolução espiritual das almas são paralelas, concordantes, explicam-se uma pela outra. A grande alma, espalhada na Natureza, anima a substância que vibra sob seu impulso, e produz todas as formas e todos os seres. Os seres conscientes, por seus longos esforços, desprendem-se da matéria, que dominam e governam a seu turno, libertam-se e aperfeiçoam-se através das existências inumeráveis. Assim o invisível explica o visível, e o desenvolvimento das criações é a manifestação do Espírito Divino.” (extraído do Livro Depois da Morte de Léon Denis, cap. 4)

Edgar Armond, em seu livro “Os Exilados da Capela” faz o seguinte comentário:

“Conforme a ciência oficial, quando o clima da terra se amenizou, em princípios do ioceno (uma das quatro grandes divisões da Era Terciária, isto é, o período geológico que antecedeu o atual), surgiram os primeiros seres do qual descende o homem atual. Entre estes últimos, (que conseguiram se erguer), prevaleceu um tipo, mais ou menos a 25 milhões de anos, e que era positivamente um símio.
E os tipos foram evoluindo até que, mais ou menos há um milhão e meio de anos, surgiram as espécies mais aproximadas do tipo humano.

Na Ásia, na África e na Europa foram descobertos esqueletos de antropóides (macacos semelhantes ao homem) não identificados.
Nas camadas do Pleistoceno inferior, também chamado paleolítico (período antigo da pedra lascada), e no Neolítico (era da pedra polida) vieram à luz instrumentos, objetos e restos de dentes, ossos e chifres, cada vez melhor trabalhados.
Em 1807 surgiu em Heidelberg um maxilar inferior e em Piltdow (Inglaterra) um crânio e uma mandíbula um tanto diferentes dos tipos antropóides; até que finalmente surgiram esqueletos inteiros desses seres, permitindo melhores exames e conclusões.
Primeiramente, surgiram criaturas do tamanho de um homem, que andavam de pé, tinham cérebro pouco desenvolvidos e que foram chamadas Pitecantropos e que viveram entre 550 e 200 mil anos atrás. Em seguida surgiu o Sinantropos, ou Homem de Pekin, de cérebro também muito precário. Mais tarde surgiram tipos, de cérebro mais evoluído que viveram de 150 a 35.000 anos atrás e que foram chamados de Homens de Solo (na Polinésia); de Florisbad (na África); da Rodésia (na África) e o mais generalizado de todos, chamado de Homem de Neandertal (no centro da Europa) e cujos restos em seguida foram também encontrados nos outros continentes.
Como possuíam cérebro bem maior, foram chamados ‘Homos Sapiens’, conquanto tivessem ainda muitos sinais de deficiências em relação à fala, à associação de idéias e à memória.
E por fim, foram descobertos os tipos já bem desenvolvidos chamados de ‘Homus Sapiens sapiens’, isto é, ‘homens verdadeiros’.”[3]

Emmanuel, em comunicação dada em 1937, pelo médium Chico Xavier, diz que:

“O processo, portanto, da evolução anímica se verifica através de vidas cuja multiplicidade não se pode imaginar, nas nossas condições de personalidades relativas, vidas essas que não se circunscrevem ao reino hominal, mas que representam o transunto das várias atividades em todos os reinos da natureza.
Todos aqueles que estudaram os princípios de inteligência dos considerados absolutamente irracionais, grandes benefícios produziram, no objetivo de esclarecer esses sublimados problemas, do drama infinito do nosso progresso pessoal.
O princípio inteligente, para alcançar as cumiadas da racionalidade, teve de experimentar estágios outros de existências nos planos da vida. E os protozoários são embriões de homens, como o selvagem das regiões ainda incultas são o embrião dos seres angélicos (...)
O macaco, tão carinhosamente estudado por Darwin nas suas cogitações filosóficas e científicas, é um parente próximo das criaturas humanas, falando-se fisicamente, com seus pronunciados laivos de inteligência; mas a promoção do princípio espiritual do animal à racionalidade humana se processa fora da terra, dentro de condições e aspectos que não posso vos descrever, dada a ausência de elementos analógicos para as minhas comparações.”[4]

Como vimos anteriormente, este processo de estágio do princípio inteligente nos reinos inferiores é demorado, chegando a levar séculos e milênios para passar de uma fase a outra; sendo ainda necessário que esta “promoção” seja processada em vários planetas, que, como nos afirma Emmanuel, não podemos ainda entender, devido ao primarismo de nossa evolução espiritual.

“Quando cessou o trabalho de integração de espíritos animalizados nesses corpos fluídicos e terminaram sua evolução, o planeta se encontrava nos fins de seu terceiro período geológico e já oferecia condições de vida favoráveis para seres humanos encarnados.
Iniciou-se, então, essa encarnação nos homens primitivos, que a tradição esotérica também registrou da seguinte maneira: espíritos habitando formas mais consistentes, já possuidores de mais lucidez e personalidade, porém fisicamente ainda fora dos padrões da humanidade atual.[5]

Mas o tempo transcorreu em sua inexorável marcha e o homem, a poder de sofrimentos indizíveis e penosíssimas experiências de toda sorte, conseguiu superar as dificuldades dessa época tormentosa.
Acentuou-se em conseqüência, o progresso da vida humana no orbe, surgindo as primeiras tribos de gerações mais aperfeiçoadas, compostas de homens de porte agigantado, cabeça melhor conformada e mais ereta, braços mais curtos e pernas mais longas, que caminhavam com mais aprumo e segurança e em cujos olhos se vislumbravam mais acentuados lampejos de entendimento(…)
(…) Eram nômades; mantinham-se em lutas constantes entre si e mais que nunca predominava entre eles a força e a violência, sendo que a lei do mais forte era o que prevalecia.
Todavia formavam sociedades mais estáveis e numerosas, do ponto de vista tribal, sobre as quais denominavam sob o caráter de chefes ou patriarcas, aqueles que fisicamente houvessem conseguido vencer todas as resistências, e afastar toda a concorrência.
Do ponto de vista espiritual ou religioso essas tribos eram absolutamente ignorantes e já de alguma forma fetichistas pois adoravam, por temor ou superstição instintiva, fenômenos que não compreendiam e imagens grotescas representativas tanto de suas próprias paixões e impulsos nativos, como de forças maléficas ou benéficas que ao seu redor se manifestavam perturbadoramente (…)
(…) A humanidade, nessa ocasião, estava num ponto em que uma ajuda exterior era necessária e urgente, não só para consolidar os poucos e laboriosos passos já palmilhados como, principalmente, para dar-lhe diretrizes mais seguras e mais amplas no sentido evolutivo (…)”[6]

Nunca em época alguma falta o auxílio do alto. A descida de Emissários divinos se fazia necessária para a evolução do homem autóctone.
Veja como Emmanuel, Espírito guia de nosso querido Chico Xavier, narra este momento evolutivo:

“Há muitos milênios, um dos orbes do Cocheiro, que guarda muitas afinidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um dos seus extraordinários ciclos evolutivos(…)
Alguns milhões de Espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas daqueles povos cheios de piedade e de virtudes(…)”[7]

E após outras considerações, acrescenta:

“As Grandes Comunidades Espirituais, diretoras do Cosmo deliberaram então, localizar aquelas entidades pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua(…)
Foi assim que Jesus recebeu, à luz do seu reino de amor e de justiça, aquela turba de seres sofredores e infelizes (…)
Aqueles seres angustiados e aflitos, que deixavam atrás de si todo um mundo de afetos, não obstante os seus corações empedernidos na prática do mal, seriam degredados na face obscura do planeta terrestre; andariam desprezados na noite dos milênios da saudade e da amargura; reencarnariam no seio das raças ignorantes e primitivas, a lembrarem o paraíso perdido nos firmamentos distantes. ( Cf. Gênesis, 3: 23[8])

Por muitos séculos não veriam a suave luz da Capela, mas trabalhariam na Terra acariciados por Jesus e confortados na sua imensa misericórdia.
Com o auxílio desses Espíritos degredados, naquelas eras remotíssimas, as falanges do Cristo operavam ainda as últimas experiências sobre os fluidos renovadores da vida, aperfeiçoando os caracteres biológicos das raças humanas(…)”[9]

Não é à-toa que alguns milênios depois, o próprio Mestre nos afirmava, “eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”[10]; como a definir sua antiga ligação com esta raça, e nos mostrar que só através da vivência plena do seu Evangelho, podemos quebrar as algemas que nos conduz a um círculo vicioso na nossa história evolutiva.

Conclusão

“Estagiando em tipos variados na escala ascensional, o ser ingressa nos quadros hominídeos, onde alicerça, em bases de consciência desperta, os padrões intelectivos e morais que lhe assegurem empreender novas escaladas no rumo da angelitude.
Para toda essa caminhada o ser recebe recursos pela ação benfeitora do Plano Maior. Encontra terrenos preparados para o seu aprendizado a caracterizarem-se por mundos constituídos, tal qual ocorre com o reencarnante que é acolhido no lar, só dando valores aos bens que lhe forem proporcionados na infância mais à frente, quando já se capacita a raciocinar e ponderar mais claramente.
A posse da razão acarreta novas providências no processo de orientação dos seres em evolução. Aos embates e obstáculos das reencarnações, agindo de fora para dentro no esforço de despertamento inicial, somam-se providências espirituais agora nas áreas da educação.
Atividades artesanais se instauram sob a assistência dos benfeitores espirituais. Durante o sono físico as primeiras lições são levadas a efeito quando a entidade encarnada, desdobrando-se com o seu perispírito, entra em relação com companheiros “instrutores” desencarnados, junto às frentes de trabalho que constituem objeto de suas preocupações durante a faina diária (…).
Das instruções puramente manuais partem os orientadores da humanidade nascente para os indicativos morais, trabalhando os seres primitivos no cultivo das noções de direito, de proteção, de respeito, abrindo leira para o advento, a seu tempo das grandes revelações das leis vigentes no Universo.”[11]

Desta forma, temos como síntese dos pontos fundamentais do processo evolutivo, a seguinte informação:

“O ser eterno, emanação divina, transforma-se em “alma vivente”, organizada para executar as obras da própria edificação (…).
No reino mineral, as leis de afinidade são manifestações primaciais do Amor-atração.
No reino vegetal, as árvores oferecem maior coeficiente de produção se colocadas entre companheiras da mesma espécie, porque o Amor-cooperação ajuda-as a produzirem mais e melhor.
Entre os seres irracionais, a ternura, as providências de alimentação e defesa e a própria formação em grupos falam-nos do Amor-solidariedade.
Entre os seres racionais, é o Amor o mais perfeito construtor da felicidade interna, na paz da consciência que se afeiçoa ao Bem.
Nas relações humanas, é o Amor o mais eficaz dissolvente da incompreensão e do ódio.
Entre os astros, famílias de mundos viajando na amplidão cósmica, em obediência às leis da mecânica celeste, indicam-nos outra singular expressão do Amor; o Amor-equilíbrio, que mantém unidos astros e planetas no fabuloso espetáculo das constelações que cintilam, ofuscantes, na abóbada infinita.”[12]

Temos então o Amor como base da evolução em todos os aspectos. Desde o “Fiat lux” até o grande momento do retorno do ser ao Criador, momento em que deixamos de ser filhos de Deus, para sermos “Filhos de Deus”.

Lei do Progresso

Segundo a teologia, o homem foi criado justo, feliz, e assim poderia ter-se mantido por toda a eternidade. Tentado, porém, por satanás, desobedeceu ao Criador, vindo a sofrer, em conseqüência desse grave pecado, a privação da graça, a perda do paraíso, a ignorância, a inclinação para o mal, a morte e toda sorte de misérias do corpo e da alma.
Em outras palavras, isso quer dizer que o gênero humano teria surgido na Terra perfeito, ou quase, mas depois se degradou.
A Doutrina Espírita afirma que o progresso é lei natural, cuja ação se faz sentir em tudo no Universo.
Grifamos a expressão “tudo no Universo”, para fixarmos em nosso entendimento que a lei do progresso, sendo uma lei divina, atua em toda a criação, desde o átomo até o anjo.
No capítulo VIII da 3a parte de “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec estuda esta lei. Faremos a seguir um resumo deste importante capítulo:

A infância da Humanidade é o ponto de partida do desenvolvimento humano. Sendo perfectível, o homem traz em si o gérmen do seu aperfeiçoamento.
O homem não pode retrogradar ao estado inicial, tem ele que progredir incessantemente, não podendo voltar ao estado anterior.
Faz parte da lei, a necessidade daquele que é mais evoluído ajudar ao que se encontra na retaguarda.
O progresso moral vem após o progresso intelectual, porque através deste distinguimos o bem e o mal, podemos escolher o caminho a seguir, e com isso aumentando nossa responsabilidade.
O homem não pode paralisar o progresso, mas pode dificultá-lo, sendo por isso punido pela própria Lei.
Quando um povo insiste em progredir de maneira mais lenta que a esperada, o Criador o sujeita de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma.
O orgulho e o egoísmo são os maiores obstáculos ao progresso moral do Espírito.
Há dois tipos de progresso: o intelectual e o moral. O primeiro, como já foi dito, antecede ao segundo, apesar de este nem sempre vir imediatamente após aquele. É que a Humanidade insiste em valorizar mais o intelecto, devido ao seu alto grau de imediatismo, mas há de chegar o momento em que eles caminharão lado a lado.
Há um progresso na civilização, embora incompleto, porque sendo o homem ainda imperfeito, tudo o que é criação dele, denota instabilidade.
A civilização completa será uma conseqüência do desenvolvimento moral da Humanidade, ou seja, só poderemos dizer-nos civilizados, quando tivermos banido de nossa sociedade, os vícios, e quando vivermos como irmãos, praticando a caridade cristã.
Poderia viver o homem regido simplesmente pelas leis naturais, se ele as compreendesse. Como isso nem sempre é possível, cria ele leis humanas que por refletir suas instabilidades, evolui à medida de sua própria evolução.
Destruindo o materialismo, dando ao homem a compreensão da vida futura, fazendo vê-lo esta como um efeito da atual, e revivendo, como conseqüência deste entendimento, a moral cristã, o Espiritismo pode e contribui em muito com o progresso da Humanidade. Cabendo a nós, espíritas, o dever de ampliar o seu entendimento através da vivenciação do que já conhecemos.

Da Perfeição Moral

A perfeição é a grande meta do Espírito.
Vimos anteriormente que passa ele por várias etapas evolutivas objetivando sempre o progresso, no afã de conquistar este estado que chamamos de perfeição.
Mas qual é a característica do homem que já atingiu este estado?
Allan Kardec, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, diz que “o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade (...)”[13] e que, quando consulta sua consciência sobre seus atos, vê que fez todo o bem possível, que não se perdeu na ociosidade e que ninguém tem nada a queixar-se dele.
Tem fé em Deus, na vida futura, possuindo em si de uma maneira desenvolvida o sentimento de amor e caridade e sabe que todas as vicissitudes que enfrenta têm um valor significativo na economia da vida, passando-as por isso com resignação.
Enumera o Codificador vários outros valores que dignificam o caráter deste homem, mas deixando claro que muitos outros ele ainda os tem.
Mas como atingir este estado?
Dizem os Espíritos que a prática da virtude em detrimentos dos nossos vícios é, sem dúvida, a forma mais rápida de chegarmos lá.
Alertam ainda na questão 894, de “O Livro dos Espíritos”, que há virtude sempre que resistimos ao arrastamento de nossos maus pendores, e continuam: “A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade.”
E na questão 895 da obra citada, afirmam que a maior característica da imperfeição é o interesse pessoal.
Raciocinando sob estas valiosas informações, temos então que o personalismo é causa atuante da imperfeição, e se quisermos progredir moralmente, temos que bani-lo de nossa intimidade.
A respeito das paixões, ainda são os Espíritos que informam que, quanto ao princípio que lhes dá origem, não é maléfica, “o abuso que delas se faz é que causa o mal.”[14] Visto assim, deduzimos com o Codificador que, quando dominamos a paixão, ela é útil, quando somos dominados por ela, caímos em excesso e geramos o mal.
Sobre os vícios, o próprio Codificador é quem pergunta: “Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical? E os Espíritos respondem: Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. (...)”[15]
Mas como vencê-lo? Sabemos que esta é das uma tarefa mais difíceis, visto ele estar enraizado em nosso psiquismo, mas nos alertam os maiores da espiritualidade que ele é sempre maior quanto maior for a influência das coisas materiais sobre nós, e como conseqüência a melhor maneira de vencê-lo é o desprendimento dos bens do mundo.
E respondendo ainda àquela pergunta de como atingirmos o estado da perfeição, Santo Agostinho nos faz lembrar a famosa frase divulgada por Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”[16], a que nós completamos com a de Jesus:

“Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará”[17].


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[1] ABREU, Honório Onofre. “Evolução.” Temas da Atualidade (Grupo Espírita Evolução).
[2] XAVIER, Francisco C./ Waldo Vieira pelo Espírito André Luiz. Evolução em Dois Mundos, 13a Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1993, pg. 35 e 36
[3] ARMOND, Edgar. Os Exilados da Capela. São Paulo: Editora Aliança, 1987, cap. IV
[4] Idem, Ibidem.
[5] Id. ib., Cap. V
[6] Id. ib., Cap. VI
[7] XAVIER, Francisco C./Emmanuel (Espírito). A Caminho da Luz, 10ª Ed. Rio de Janeiro:  FEB, 1980,  cap. 3, pg. 34
[8] “O SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado”.
[9] (XAVIER/Emmanuel 1980), cap. 3, pg. 35 e 36
[10] Mateus, 15: 24
[11] (ABREU 1982)
[12] PERALVA, Martins. O Pensamento de Emmanuel, 5ª ed. Brasília: FEB, 1994, Pg 103
[13] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1991, Pg. 284
[14] ------ O Livro dos Espíritos. 50ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980. Q. 907
[15] Idem, ibidem, Q. 913
[16] Id., ib., Q. 919
[17] João, 8: 32

terça-feira, janeiro 05, 2010

Perispírito

Introdução ao estudo do Corpo Espiritual

É já de muitas eras a intuição do homem acerca da existência do que hoje chamamos de Perispírito.
Entre os homens primitivos, no alvorecer da humanidade, dão-lhe o estranho nome de Corpo Sombra; nas apreciáveis lições do Vedanta apareceu como Manu, Maya e Kosha, era conhecido no Budismo esotérico por Kama – rupa, enquanto no Hermetismo egípcio surgiu na qualidade de Kha ou Kã, para avançar, na Cabala hebraica, como manifestação de Rouach. Chineses, gregos e latinos tinham conhecimento de sua realidade, identificando-o seguramente. Pitágoras, mais afeiçoado aos estudos metafísicos, denominava-o carne sutil da alma, e Aristóteles, na sua exegese do complexo humano, considera-o corpo sutil e etéreo. Os neoplatônicos, de Alexandria, dentre os quais Orígenes, identificava-o como aura; Tertualino, o gigante inspirado da Apologética, nele via o corpo vital da alma, enquanto Proclo o caracterizava como veículo da alma, definindo em cada expressão os atributos de que o consideravam investido. Paulo de Tarso designava-o Corpo Celeste, e na cultura moderna, Paracelso, no século XVI, detectou-o sob a designação de corpo astral. Logo depois, substituindo os conceitos panteístas de Spinoza pela teoria dos “átomos espirituais ou mônadas”, surpreendeu-o dando a denominação de corpo fluídico.
Mas foi só com “O Livro dos Espíritos” que surgiu na história do pensamento, a primeira descrição racional e objetiva do Perispírito.
É na questão 93 da referida obra que o Codificador começa a tratar do tema, fazendo a seguinte pergunta aos Espíritos:
O Espírito, propriamente dito, nenhuma cobertura tem, ou, como pretendem alguns, está sempre envolto numa substância qualquer? Ao que eles nos respondem:
Envolve-o uma substância, vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante grosseira para nós; assaz vaporosa, entretanto, para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se aonde queira.
E em uma observação própria, logo abaixo, Kardec comenta: Envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma; do mesmo modo, uma substância que, por comparação, se pode chamar perispírito, serve de envoltório ao Espírito propriamente dito.
Podemos então afirmar que, a partir do entendimento da explicação de Kardec, o perispírito é o corpo do Espírito. É com ele que a individualidade espiritual apresenta-se quando desencarnada ou em desdobramento.
É formado do fluido universal de cada globo, por isso não é igual em todos os mundos.
Sobre este fluido nos afirmam os Espíritos, ser ele a matéria básica do Universo, e é de suas inumeráveis transformações que surgem os envoltórios perecíveis do Espírito: o corpo e o perispírito.
Desta forma, entendemos que o corpo carnal tem seu princípio de origem nesse mesmo fluido condensado e transformado em matéria tangível. No Perispírito, a transformação na natureza do fluido se opera diferentemente, porquanto este conserva a sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas.
Evolui com o Espírito, à medida que este aperfeiçoa-se moralmente. Quando passa de um mundo para outro, o Espírito muda de envoltório, ou seja, muda a constituição do perispiríto.
Quanto à sua forma, devido às suas propriedades que vamos estudar mais adiante, o corpo espiritual toma a que o Espírito queira, desde que este possua elevação para tal. Caso contrário, sob a influência das leis que regem o mundo mental, ou sob a ação de entidades cruéis, como acontece nos processos de zoantropia e licantropia , pode haver alterações na forma perispirital, independente da vontade do Espírito.

Funções e Propriedades do Perispírito

Funções
O perispírito é a estrutura modeladora, organizadora e gerenciadora do corpo físico; molde energético onde se encontram os mecanismos responsáveis por todas as funções orgânicas, desde a seleção dos princípios hereditários até a organização da célula ovo e seu desenvolvimento num organismo complexo. Ele contém a matriz filogenética das principais etapas evolutivas do ser.

Em seu bojo se radicam os centros funcionais que dirigem e controlam as emissões arquetípicas do inconsciente profundo, geradoras das funções fisiopsíquicas dos seres vivos, mais especificamente da espécie humana, onde se apresentam altamente complexas e refinadas.1

Estando portanto sediadas nele, as gêneses patológicas de distúrbios dolorosos quais a esquizofrenia, a epilepsia, o câncer de variada etiologia, o pênfigo … que em momento próprio favorece a sintonia com microorganismos que se multiplicam desordenadamente e tomam de assalto o campo físico através de sintonias próprias, ensejando a aceleração das perturbações psíquicas de largo porte.

É ainda o veículo onde são gravados os resultados do processo evolutivo do homem, isto é, o fruto das interações dos seres com o meio ambiente em sua globalidade.2
 
As experiências existenciais, repetidas, são neles fixadas como reflexos condicionados psicossomáticos, tornando-se substratos condutores dos processos mentais e fisiológicos.
Através dos estudos mediúnicos contemporâneos, bem como das reflexões de notáveis pesquisadores e pensadores espiritistas de ontem e de hoje, constatamos que as atividades do perispírito abrangem inclusive a dimensão psicológica, sendo não só responsável pelo controle do automatismo fisiológico, mas sediando igualmente o registro dos fatos de ordem psíquica, como a memória, os inconscientes passado e atual, enfim, todos os fenômenos mentais.
Como sede da memória, garante a conservação intacta da individualidade, através da esteira das reencarnações. Se faz responsável também pela transmissão ao Espírito das sensações que o corpo experimenta, como ao corpo informa das emoções procedentes das sedes do Espírito, em perfeito entrosamento de energias entre os centros vitais ou de força, que controlam a aparelhagem fisiológica e psicológica e as reações somáticas, que lhes exteriorizam os efeitos do intercâmbio.

Propriedades

O perispírito, por sua tessitura, organização, flexibilidade e expansibilidade, fornece inúmeras condições de ação ao Espírito, mesmo quando encarnado, condições essas que podemos chamar de propriedades do perispírito, sem, com isso, desconhecermos que o propulsor de toda e qualquer ação é o Espírito.
Para que essas propriedades se tornem evidentes, é necessário se atenda às leis dos fluidos, no que tange as suas condições de afinidade, quantidade necessária e qualidade dos fluidos, além de em alguns casos, o conhecimento e a elevação moral do Espírito que manuseia tais fluidos. Sinteticamente, teríamos: aparições, tangibilidade, penetrabilidade, transfiguração, e emancipação.
Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é invisível, tendo isso de comum com uma imensidade de fluidos que sabemos existir, mas que nunca vimos. Pode também como alguns fluidos, sofrer modificações que o tornam perceptível à vista, quer por uma espécie de condensação, quer por uma mudança na disposição molecular. Pode mesmo adquirir as propriedades de um corpo sólido e tangível e retomar instantaneamente seu estado etéreo e invisível.
Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo; ele as atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. Daí vem que não há como impedir que os Espíritos entrem num recinto inteiramente fechado. Eles visitam o preso no seu cárcere tão facilmente como visitam a um que está no campo a trabalhar.
O perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades que o dos desencarnados. Ele não se acha confinado no corpo; irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fluídica. Ora, pode suceder que, em certos casos e dadas as mesmas circunstâncias, ele sofra uma transformação análoga à já descrita: a forma real e material do corpo se desvanece sob aquela camada fluídica , se assim podemos exprimir, e toma por momentos uma aparência inteiramente diversa, mesmo a de outra pessoa ou a do Espírito que combina seus fluidos com os do indivíduo, podendo também dar a um semblante feio um aspecto bonito e radioso. Tal fenômeno se designa pelo nome de transfiguração, e é produzido, principalmente, quando as circunstâncias ocorrentes provocam mais abundante expansão de fluido.
A emancipação da alma é a propriedade que o Espírito tem de se desprender do corpo no instante em que este dorme. Aproveita-se o Espírito (através do perispírito) do repouso do corpo e dos momentos em que sua presença não é necessária para atuar isoladamente e ir aonde quiser, no gozo, então, de sua liberdade e da plenitude das suas faculdades.
A independência e a emancipação da alma se manifestam, de maneira evidente, também, no fenômeno do sonambulismo natural e magnético, na catalepsia e na letargia.
A faculdade de emancipar-se e de desprender-se do corpo durante a vida pode dar lugar a fenômenos análogos aos que os Espíritos desencarnados produzem. Enquanto o corpo se acha mergulhado em sono, o Espírito, transportando-se a diversos lugares, pode tornar-se visível e aparecer sob a forma vaporosa, quer em sonho, quer em estado de vigília. Pode igualmente apresentar-se sob forma tangível, ou, pelo menos, com uma aparência bem idêntica à realidade. Esse fenômeno, aliás muito raro, é que se denomina de bicorporeidade.
Por muito extraordinário que seja, tal fenômeno, como todos os outros, se compreende na ordem natural das coisas, pois que decorre das propriedades do perispírito e de uma lei natural.

Centros de Força

Centros de força ou centros vitais são acumuladores e distribuidores de força espiritual, situados no perispírito, pelos quais transitam os fluidos energéticos. Não constituem parte intrínseca da estrutura do Espírito, pois são, como já dissemos, instrumentos desenvolvidos no corpo espiritual, com o fim de realizar as adequações devidas entre os aspectos exteriores e interiores da realidade espiritual no ser imaterial.
Informa André Luiz, em Evolução em dois Mundos, que:

São os centros vitais fulcros energéticos que, sob a direção automática da alma, imprimem às células a especialização extrema, pela qual o homem possui no corpo denso, e detemos todos no corpo espiritual em recursos equivalentes, as células que produzem fosfato e carbonato de cálcio para a construção dos ossos, as que se distendem para a recobertura do intestino, as que desempenham complexas funções químicas no fígado, as que transformam em filtros do sangue na intimidade dos rins e outras tantas que se ocupam do fabrico de substâncias indispensáveis à conservação e defesa da vida nas glândulas, nos tecidos e nos órgãos que nos constituem o cosmo vivo de manifestação.3

Informa ainda o instrutor Clarêncio, na obra Entre a Terra e o Céu, do mesmo autor espiritual:

(...) o nosso corpo de matéria rarefeita está intimamente regido por sete centros de forças, que se conjugam nas ramificações dos plexos que, vibrando em sintonia uns como os outros, ao influxo do poder diretriz da mente, estabelecem para o nosso uso, um veículo de células elétricas, que podemos definir como sendo um campo eletromagnético, no qual o pensamento vibra em circuito fechado. E completa: (...) nossa posição mental determina o peso específico do nosso envoltório espiritual e, consequentemente, o habitat que lhe compete, (...) tal seja a viciação do pensamento, tal será a desarmonia dos centros de força.

Centro Coronário
Sobre este centro vital, André Luiz afirma que temos particularmente nele o ponto de interação entre as forças determinantes do Espírito e as forças fisiopsicossomáticas organizadas.
Dele partindo, desse modo,

(...) a corrente de energia vitalizante formada de estímulos espirituais com ação difusível sobre a matéria mental que o envolve, transmitindo aos demais centros da alma os reflexos vivos de nossos sentimentos, idéias e ações, tanto quanto esses mesmos centros, interdependentes entre si, imprimem semelhantes reflexos nos órgãos e demais implementos de nossa constituição particular, plasmando em nós próprios os efeitos agradáveis ou desagradáveis de nossa influência e conduta.
A mente elabora as criações que lhe fluem da vontade, apropriando-se dos elementos que a circundam, e o centro coronário incumbe-se automaticamente de fixar a natureza da responsabilidade que lhe diga respeito, marcando no próprio ser as conseqüências felizes ou infelizes de sua movimentação consciencial no campo do destino.4

Notamos através desta afirmativa que o centro coronário tem a função de supervisionar os outros centros vitais e que ele é o responsável pela implementação da lei de causa e efeito na intimidade do Ser Espiritual.
Centro Cerebral
Está contíguo ao centro coronário, que ordena as percepções de variada espécie, que, na vestimenta carnal, constituem a visão, a audição, o tato e a vasta rede de processos da inteligência que diz respeito à palavra, à cultura, à arte, e ao saber. É no centro cerebral que possuímos o comando do núcleo endócrino, referente aos poderes psíquicos.
Centro Laríngeo
É o centro vital que preside aos fenômenos vocais, inclusive as atividades do timo, da tireóide e das paratireóides, controlando notadamente a respiração e a fonação.
Centro Cardíaco
É o que sustenta os serviços da emoção e do equilíbrio geral, dirigindo a emotividade e a circulação das forças de base.
Centro Esplênico
Conforme orientação dada pelo ministro Clarêncio na obra Entre a Terra e o Céu, o Centro Esplênico regula a distribuição e a circulação adequada dos recursos vitais em todos escaninhos do veículo de que nos servimos. Relativo ao corpo denso, ele está situado na região do baço.
Centro Gástrico
Responsabiliza-se pela penetração de alimentos e fluidos em nossa organização, é pela digestão e absorção dos alimentos densos ou menos densos que, de qualquer modo, representam concentrados fluídicos penetrando-nos a organização.
Centro Genésico
Neste centro se localiza o santuário do sexo, como templo modelador de formas e estímulos criadores, com vistas ao trabalho, à associação e à realização entre as almas.

Percepções, Sensações e Sofrimentos dos Espíritos

A Espiritualidade afirma que, quando de sua volta para o mundo dos Espíritos, a alma conserva as percepções que tinha quando encarnada na Terra, e que desabrocham-lhes outras, porque o corpo funciona como um véu, obscurecendo-a.
Sobre esta questão, Allan Kardec realizou no Livro dos Espíritos, um estudo denominado: “Ensaio Teórico da Sensação nos Espíritos”. Devido à importância do tema e da profundidade deste estudo realizado pelo Codificador, vamos fazer um resumo do mesmo, mas deixando claro que para uma boa compreensão do tema, melhor seria um estudo completo do texto que corresponde à questão 257 da obra citada.

O corpo é o instrumento da dor. Se não é a causa primária desta, é pelo menos, a causa imediata.
A alma tem a percepção da dor, mas essa percepção é o efeito.

Apesar de que esta percepção é muitas das vezes dolorosa, podemos afirmar que ela não é física. Ilustramos com um exemplo dado por Kardec: A simples lembrança de uma dor física, pode produzir o efeito da mesma, mesmo que no momento não haja motivo para tal. Isso ocorre porque o cérebro guardou esta impressão, e o perispírito como elemento de ligação entre o Espírito e o corpo, transmite do primeiro para o segundo, impressões, e no sentido contrário, sensações. Resumindo, concluimos que o perispírito é o agente das sensações exteriores.
Quando encarnado, o Espírito tem o sentido dessas sensações no corpo, quando este é destruído, elas se tornam gerais.
Sabemos que no Espírito há percepção, sensação, audição, visão, e que essas faculdades são atributos do ser todo e não, como no homem, de uma parte apenas.
A dor, como já dissemos, não é propriamente física, ainda que muitas vezes o Espírito a reclama ou diz que sente frio ou calor. Entendemos que, apesar de muitas vezes ser bastante penosa, ela é mais uma reminiscência do que uma realidade. Entretanto algumas vezes há mais do que isso, como apresenta o ilustre pensador lionês.
A experiência mostra que o perispírito, quando da desencarnação, não se desprende rapidamente da maneira que a maioria supõe, e devido a esta ligação, muitas vezes o Espírito crê-se vivo; vê seu corpo ao lado, sabe que lhe pertence, mas não compreende que esteja separado dele. Essa situação normalmente dura enquanto existe a ligação entre os corpos físico e espiritual.
Relata Kardec o exemplo de um suicida: “Disse-nos certa vez um suicida: Não estou morto, no entanto sinto os vermes a me roerem”. É obvio que os vermes não lhe roíam o perispírito, e muito menos o Espírito. O que eles roíam era o corpo, mas como não havia uma completa separação do corpo e do perispírito, ele tinha uma impressão quase física do que estava acontecendo. Era uma ilusão, não uma realidade, embora o sentimento parecesse real. Neste caso não podemos dizer que o que ele sentia era uma reminiscência, conclui Kardec, porquanto ele não fora em vida, roído pelos vermes: havia o sentimento de um fato da atualidade. Isto nos favorece uma gama de ensinamentos muito importantes, se observarmos atentamente os fatos.
Sobre os Espíritos superiores, o Codificador nos informa que eles não sentem nenhuma influência da matéria. Não sentindo dor ou qualquer sentimento originado por este elemento. O som dos nossos instrumentos, o perfume das nossas flores nenhuma impressão lhes causam. Entretanto, eles experimentam sensações íntimas, de um encanto indefinível, das quais idéia alguma podemos formar, porque a esse respeito, somos quais cegos de nascença diante da luz.
Quando Kardec afirma que os Espíritos são inacessíveis às impressões da matéria que conhecemos, se refere aos Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não encontra analogia neste mundo. Quanto aos mais atrasados, cujo o perispírito é mais denso, percebem os sons, os odores, etc., porém, apenas por uma parte limitada de suas individualidades, conforme quando encarnados.
Esta teoria pode trazer alguma frustração para aqueles que pensavam que o sofrimento e as dores terminariam com a destruição do corpo físico, mas notamos que ela é bem lógica e expressa a justiça do Criador, na medida em que vincula o sofrer do Espírito à maneira vivida por ele, quando encarnado. Se procuramos na vida terrena somente a satisfação dos gozos materiais, vamos encontrar um sofrimento a posteriore. Todavia, se a vida para os valores do Espírito imortal, é a nossa busca, seremos tranqüilamente bem-aventurados, pois atingiremos aquele estado em que Jesus disse: Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
Podemos concluir, então, que pode haver sofrimento por parte do Espírito no plano espiritual, mas este sofrimento será sempre menor à medida em que nos elevarmos moralmente.
Meditemos portanto nas palavras daquele que é o “Mestre dos mestres, o Sábio dos sábios”:

“Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde os ladrões não minam nem roubam.” Mateus, 6: 19 e 20

Notas :

1 - Argolo, Djalma Mota, Possibilidades evolutivas, pág.115 ed.  Mnêmio Túlio, 1994

2 - Argolo, Djalma Mota, Possibilidades evolutivas, pág.116 ed.  Mnêmio Túlio, 1994


3 - Evolução em Dois Mundos,  pág. 28

4 - Evolução em Dois Mundos,  pág 27 e 28