Certa vez, perguntei a um pastor protestante por que ele
acreditava que a punição do Inferno seria eterna. Ele me respondeu prontamente:
— Porque a Bíblia afirma que é.
Como espíritas, não acreditamos na existência de um Inferno
eterno, onde as penas seriam para sempre. Mas isso significa que a Bíblia
errou? Ou que nós não acreditamos nela? Nem uma coisa, nem outra. Allan Kardec,
na questão 59 de O Livro dos Espíritos, já afirmava: "A Bíblia
não é um erro; erraram os homens em interpretá-la."
No caso da ideia de Inferno ou Fogo Eterno, podemos dizer o
mesmo: erraram os homens em interpretá-la. A questão central aqui é o
significado da palavra traduzida como "eterno" ou
"eternamente".
A Bíblia, em sua origem, foi escrita em hebraico, com o Novo
Testamento sendo registrado em grego. No entanto, os acontecimentos descritos
ocorreram na Palestina, onde a língua predominante era o hebraico ou o
aramaico. Assim, o Novo Testamento em grego é, na verdade, uma tradução dos
eventos vividos.
A palavra hebraica frequentemente traduzida como
"eterno" ou "eternamente" é "olam". No
hebraico antigo, "olam" nem sempre correspondia ao conceito de
"para sempre" que usamos hoje. Tanto na época de Jesus quanto nos
tempos do Antigo Testamento, "olam" podia indicar algo eterno, mas
também podia se referir a um período longo e definido, dependendo do
contexto.
Fatores que influenciam o significado de
"olam":
- Contexto
bíblico: quando associado a Deus, Suas promessas ou quando Ele é o
sujeito ou a causa, o termo "olam" tende a transmitir a ideia de
eternidade, destacando Sua natureza divina. Um exemplo disso é a expressão
"o Deus eterno" (Elohei Olam), na qual o termo reflete a
essência infinita de Deus.
- Eventos
humanos ou históricos: em casos ligados a pactos, leis ou períodos
históricos, "olam" poderia significar um longo intervalo, mas
não eterno. Um pacto "para sempre" poderia durar enquanto as
condições fossem cumpridas.
- Uso
poético: nos textos poéticos, como os Salmos, "olam" muitas
vezes tem um caráter figurativo, indicando algo grandioso ou duradouro,
mas não literalmente eterno.
- Influência
das traduções e tradições: ao longo do tempo, a tradição judaica e as traduções
como a Septuaginta, e outras influências culturais moldaram o entendimento
de "olam" na direção de eternidade, especialmente no pensamento
ocidental.
Com isso, podemos concluir que apenas Deus, por Sua natureza
divina, por Sua eternidade, tem o poder de criar algo verdadeiramente eterno. O
Inferno, por não ser uma criação divina, não pode ser eterno. (Grifei)
No Salmo 23:6, por exemplo, encontramos: "Habitarei
na casa do Senhor por longos dias." Embora algumas traduções indiquem
"para sempre", o contexto original sugere um longo período, mas não
eterno. Essa diferença demonstra a influência dos tradutores ao interpretarem o
texto bíblico.
Outro exemplo relevante pode ser visto em Isaías 32:14-15:
"14 Porque
o palácio será abandonado, a cidade populosa ficará deserta; e o outeiro e a
torre da guarda servirão de cavernas para sempre, para
alegria dos asnos monteses, e para pasto dos rebanhos;15 até
que se derrame sobre nós o espírito lá do alto, e o deserto
se torne em campo fértil, e o campo fértil seja reputado por um bosque."
Neste trecho, a expressão "para sempre" é
condicionada pelo evento descrito como "até que". Isso demonstra que,
no hebraico antigo, ou na mentalidade hebraica, "para sempre" poderia
ser compreendido como um período limitado, em vez de algo eterno.
Até mesmo no Novo Testamento, escrito em grego, vemos essa
relatividade.
Em Filemom 1:15, Paulo escreve: "Porque bem
pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o retivesses
para sempre."
Aqui, "para sempre" não significa eternidade, mas
enquanto durasse a vida de Onésimo.
Dessa forma, concluímos que o "fogo eterno"
mencionado por Jesus não indica um tormento sem fim, mas sim uma punição
prolongada. Se o Inferno fosse eterno, o atributo do Amor Divino estaria
comprometido, o que é inconcebível.
Além disso, Jesus foi claro: "Toda planta que meu
Pai celestial não plantou será arrancada." (Mateus 15:13)
Se o mal não foi criado por Deus, ele será extirpado, e sem
o mal, o Inferno não terá razão de existir eternamente.